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A volta por cima
Novos métodos de tratamento
ajudam um número crescente
de viciados a vencer
o horror das drogas
Roberta Paixão
Selmy Yassuda
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Exercícios e terapia: receita contra a
cocaína
e a favor da auto-estima |
Renata Cepeda
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"Vivo um dia de cada
vez"
"Depois de três meses 'limpo' tive nova recaída
de cocaína. Fiquei três dias na rua. Um horror. Mais
uma vez falei para mim que não queria aquilo. Agora,
consigo ficar longe da droga sem me sentir marginal
num grupo. Até hoje vou às reuniões do Narcóticos Anônimos
para entender meus problemas. Vivo um dia de cada vez."
Felipe Camargo, 39 anos, ator.
Está há três anos longe das drogas
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O Brasil inteiro acompanhou
o drama do ator Felipe Camargo nos tempos em que ele mergulhou
fundo no mundo das drogas. Há três anos Felipe não encosta
em um copo de álcool, não cheira cocaína nem toma remédios
para dormir. É um ex-viciado. Hoje, faz parte de um crescente
contingente de ex- dependentes químicos que se livraram do
tormento das drogas. Protagonista de brigas cinematográficas
com a ex-mulher, Vera Fischer, Felipe virava noites cheirando
pó e rebatendo o efeito com álcool e remédios para dormir.
Não ficava um dia sem aspirar pelo menos 1 grama de cocaína.
Em suas fases de crises mais agudas não tinha condições de
dar atenção ao filho, Gabriel, quando o menino o visitava.
"Ele chegava para me ver e eu preferia ir dormir",
diz. "Tudo o que estava a minha volta era um caos."
Sem força para dar um basta sozinho, pediu ajuda à irmã. Depois
de uma internação de apenas quinze dias em uma clínica para
desintoxicação, passou a freqüentar os Narcóticos Anônimos.
Teve diversas recaídas. "Numa delas, fiquei três dias
na rua", relembra. "Um horror, mas falei outra vez
para mim que não queria aquilo." Insistiu em novo tratamento
e, aos poucos, conseguiu sair do inferno. Por bom comportamento,
Felipe foi recontratado pela Rede Globo e teve direito à guarda
de Gabriel, hoje com 6 anos. "Não vou dizer que não tenho
vontade, mas hoje eu sei que não posso cheirar a primeira
carreira de cocaína", diz o ator de 39 anos.
Situações como
a de Felipe Camargo são cada vez mais comuns no Brasil,
como se verá nas histórias descritas a seguir. Ele conseguiu
o que parece impossível a um dependente químico: livrar-se
do horror das drogas e retomar a vida normal. Não é um caso
isolado. A recuperação de viciados no Brasil já chega a
35%. É a mesma média registrada nos Estados Unidos e na
Europa. Ou seja, de 100 viciados que se tratam, 35 conseguem
reestruturar a vida, num processo recheado de dores físicas,
sofrimentos e preconceitos. Nos últimos dez anos, os centros
para recuperação de drogados multiplicaram-se no país. Há
300 deles para o tratamento de dependência química no Brasil,
um número seis vezes maior do que no início da década
embora modesto, se comparado com os Estados Unidos, onde
existem 9.000
centros.
Selmy Yassuda
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"Foi duro, mas ganhei
força"
"Estraguei tudo na minha vida por causa das
drogas e a recuperação foi lenta e dolorosa. Achava
que tinha o controle da situação, bebia um gole, cheirava
e voltava tudo. Com tantas recaídas, aprendi que tinha
amigos. Ao resgatar algum carinho, ganhei força."
Ricardo Hermanny, 54 anos, ex-empresário.
Deixou as drogas há cinco anos
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Desde o final dos anos 80, houve uma espécie de revolução
no tratamento de viciados. Até dez anos atrás, eles ficavam
por aí, descendo uma escada de degradação que podia acabar
na morte, ou eram trancafiados nas clínicas psiquiátricas.
Nessas clínicas conviviam com psicóticos, esquizofrênicos
e outros doentes mentais. A internação durava até o fim
da fase pior, em que o viciado enfrentava as agruras físicas
e psicológicas decorrentes do corte abrupto da ingestão
de drogas. Depois desse período, o paciente era simplesmente
devolvido à vida normal para se virar sozinho como pudesse.
O resultado não podia ser mais desanimador. É de quase 100%
a chance de recaída nos casos em que o dependente químico
não tem apoio familiar, trabalho e motivação. "Os dependentes
químicos eram um caso de polícia e não de saúde", diz
o psicólogo Adriano Mossinamm, da Coordenadoria de Saúde
Mental do Ministério da Saúde. Um novo modo de encarar a
dependência da droga mostrou que são raros os casos em que
o viciado precisa ficar recolhido em clínicas de tratamento
ou hospitais psiquiátricos. Hoje, 90% dos pacientes continuam
em casa. São tratados em ambulatórios dentro das clínicas,
onde desenvolvem uma série de atividades. À noite, voltam
para casa.
Claudio Rossi
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"Retornei à
vida "
"Já não estava mais raciocinando. Havia emagrecido
20 quilos. Meus braços estavam roxos e tinham mais
de 35 picadas. Aos 32 anos fui parar num hospital
por overdose. Fiquei sessenta dias internada. Sofria
crises de abstinência horríveis. Dava cabeçadas na
parede. Aos poucos, retomei minha vida."
Lúcia Ferreira, 40 anos, dona
de casa paulistana, casada. Há oito anos livre das
drogas
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Só são internados quando não dispõem de nenhum ponto de
apoio, como a família, a casa, o trabalho. As internações
duram no máximo três meses. É o período em que eles "limpam"
o corpo. Depois, passam a visitar diariamente os centros
de recuperação. Como não sabem, ou esqueceram, como é o
dia-a-dia de uma pessoa normal, passam por um processo de
reeducação intensiva. O objetivo, por mais surpreendente
que possa parecer, é este: reaprender a viver como todas
as outras pessoas. Não é fácil. A carioca Carolina Pedrosa,
26 anos, começou a beber aos 14 anos e aos 18 experimentou
a cocaína. Aos 22, já acordava cheirando fileiras de pó.
Definhou até os 38 quilos. Depois de uma overdose que quase
a matou, ela pediu ajuda à mãe. Queria ser internada. Teve
recaídas e finalmente fez o tratamento numa clínica. Morava
com a mãe, mas ia diariamente a clínicas para terapia e
outras atividades em grupo. Toda a família, arrasada, entrou
numa terapia para recuperar a confiança entre eles. "Até
hoje minha mãe me pergunta se voltei a cheirar quando chego
em casa mais agitada", diz. Hoje, Carolina está estudando
de novo. Faz o 4º ano de psicologia. "Não tinha mais
amigos nem projetos de vida. Tive de descobrir o que queria
fazer", lembra ela.
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Coquetel sombrio
Quase sempre viciados
que se internam para tratamento usam mais de uma droga.
Veja abaixo a relação das drogas mais
usadas:
Álcool 80%
Cocaína 60%
Maconha 40%
Remédios 25%
Crack 25%
Fontes: Solar do Rio, Centro Vida,
Greenwood, Vila Serena
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Quando o viciado
entra em tratamento, a família se torna a base de apoio
dele. "É claro que o dependente terá um caminho para
trilhar sozinho e só sairá da dependência se realmente quiser",
diz a psiquiatra carioca Maria Tereza de Aquino. "Com
a família apoiando, no entanto, o processo é muito facilitado."
O efeito do tratamento é enfraquecido quando o dependente
depara com as expressões de reprovação no rosto dos pais,
dos cônjuges ou dos filhos ao chegar em casa. Durante o
período de dependência, o viciado só pensa na droga e nega
o resto do mundo. É a família ou alguém da família que vai
reapresentar a ele um mundo de coisas que podem dar-lhe
prazer, além das drogas.
Claudio Rossi
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"Quase perdi o emprego"
"Aos 28 anos comecei a cheirar para ir às
festas e, depois, não ficava um dia sem a droga. Quase
perdi minha família e meu emprego. Fui internado,
mas só pensava na droga. Aos poucos, vi que havia
muita gente igual a mim e consegui resgatar a auto-estima.
Durante muito tempo eu sonhava com a cocaína."
Roberto Teixeira, 36 anos,
funcionário público em São Paulo. Fora das drogas
há três anos
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Serviço cinco-estrelas "Minha
família foi fundamental para minha recuperação", afirma
a paulista Leila Marcelino, de 39 anos e há três longe das
drogas. "Eles me levaram para o tratamento sob pressão
e me deram a maior força." Dona de casa, casada, mãe
de dois filhos e com padrão de vida típico da classe média,
Leila durante cinco anos afundou-se na cocaína e no crack.
Diz que provou o primeiro cigarro de maconha aos 30 anos,
por causa de "um vazio inexplicável". O marido
só descobriu o tamanho do problema depois de dois anos:
Leila já cheirava cocaína todas as tardes e seu círculo
de amizades se resumia a traficantes e bandidos. Desceu
mais alguns degraus ao provar (e passar a usar constantemente)
o crack. "Cheguei a ficar quinze dias fora de casa,
perdida", relembra. "A essa altura, meu relacionamento
com as crianças não existia mais. Só percebi quanto havia
perdido quando comecei a me recuperar."
Os centros de recuperação
públicos, como o Nepad, ligado à Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, e o Proad, pertencente à Escola Paulista
de Medicina, são referências nacionais, mas oferecem um
tratamento espartano se comparado ao das clínicas particulares.
Baseados em terapias individuais e em grupo, eles funcionam
em prédios públicos sem luxo e as atividades de recreação
são alguns jogos simples como pingue-pongue. As internações
são feitas em hospitais públicos. Hoje, dos 62.000 leitos em hospitais psiquiátricos, 15.000 são destinados aos dependentes químicos e
alcoólatras. No ano passado, 85.000 pessoas foram internadas por causa das drogas
nos hospitais federais. Na ponta oposta à do sistema público,
há fazendas e clínicas com serviço de hotel cinco-estrelas.
São casas confortáveis e bonitas, como o Solar do Rio, no
Rio de Janeiro, e o Greenwood, em São Paulo, que servem
uma culinária bem-cuidada, têm até aulas de equitação e
massagem, mas custam em torno de 5.000 reais por mês de internação. São preços proibitivos
para a maior parte da classe média brasileira. Mas existem
também centros sérios, embora menos luxuosos, cobrando entre
500 reais e 1.000 reais por mês pelo mesmo serviço ainda
que o custo de eventuais medicamentos não esteja incluído
no preço final.
Claudio Rossi
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"Fui ao fundo do poço"
"Dos 20 aos 30 anos eu só cuidava dos meus
filhos. Depois convivi com garotos da rua com quem
cheirava. Em 1994, fui ao fundo do poço com o crack.
Na última vez que usei, quase tive duas overdoses.
Fiquei nove meses em tratamento e percebi que não
era culpada pela doença. Já tive vontade de voltar,
mas me agarrei às coisas boas que conquistei sem as
drogas."
Leila Marcelino, 39 anos, dona
de casa paulista. Livre das drogas há três anos
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Depois da fase de internação, o paciente continua freqüentando
a clínica para praticar esportes, participar de atividades
como artesanato ou teatro e para assistir a palestras de
ex-dependentes. A terapia individual é diária e costuma
durar pelo menos um ano, ao preço de 800 reais por mês nos
centros mais caros. Aos poucos, as atividades do ambulatório
começam a ser substituídas pelo trabalho, pelos amigos e
pela família até que o paciente receba alta. Muitos continuam
indo aos encontros em grupo para manter a abstinência. Uma
dessas reuniões acontece na última sexta-feira de cada mês
na clínica CentroVida, no bairro de Santa Tereza, no Rio
de Janeiro. Sexta-feira é o dia da semana apelidado pelos
viciados de sexta-cheira e considerado perigoso para recaídas. Lá, eles
celebram a abstinência. Sentados em cadeirinhas de bar,
no jardim da clínica, sessenta pessoas que acabaram de sair
do trabalho ou da escola curtem uma happy hour. Nesse encontro,
ao contrário dos bate-papos regados a uísque e cervejinha,
são servidos apenas água, refrigerantes e sanduíches. Ninguém
reclama. "Permanentemente, a droga é um referencial
na minha vida", afirma o tradutor carioca Júlio Laudemir
de 39 anos e há oito em abstinência. "Quem disser que
perdeu isso está mentindo." Durante quase vinte anos,
Laudemir entupiu-se de quantidades estúpidas de cocaína,
maconha e álcool. Parou com tudo pouco antes de sua filha
nascer. "É maravilhoso estar inteiro", diz.
"Durante a
dependência, os viciados se isolam e só pensam na droga.
O tratamento resgata os interesses e valores", diz
o psiquiatra carioca Jaderson Cahu Filho. O funcionário
público Roberto Teixeira, paulistano de 36 anos, continuou
a sonhar que estava consumindo cocaína mesmo muito depois
de um tratamento que o fez largar a droga há três anos.
"Hoje, raramente isso acontece, mas preciso freqüentar
um grupo de ajuda", diz Teixeira, que começou a cheirar
cocaína aos 28 anos. Tímido, usava a droga para ficar mais
sociável. Isso no início. "Depois, virei um problema
para minha família, meus amigos e para o meu chefe",
afirma. Resolveu se tratar quando, durante uma licença médica
de dez dias, chafurdou-se no pó e foi parar no hospital
num princípio de overdose. Recebeu um ultimato do chefe
e da mulher, que queria deixá-lo definitivamente. "Percebi
que acabaria virando um bandido", diz Teixeira. Fora
das clínicas há também o Narcóticos Anônimos, NA, grupo
de ajuda criado há quase cinqüenta anos nos Estados Unidos.
No Brasil, perto de 20.000 pessoas participam de reuniões do NA.
Alexandre Belem/Ag. Lumiar
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"Resisti e me libertei"
"Namorava um rapaz que se picava. Usei e
gostei. Me picava nos braços, nas pernas, nos seios,
no pescoço e na virilha. Só parei durante a gravidez.
Um dia, percebi que iria morrer e que deixaria minha
filha sozinha. Pedi a Deus que me ajudasse. Prometi
que, se vivesse, largaria as drogas. Passei um ano
sonhando com elas. Acordava angustiada e chorava.
Resisti e, agora, estou livre do tormento há onze
anos."
Fernanda Pires, 41 anos, pernambucana
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Vacina anticocaína Encarada
como uma fraqueza ou um desvio de comportamento até a década
passada, a dependência química atualmente é vista como uma
doença. A partir dessa ótica, os avanços da medicina passaram
a contribuir também para o desenvolvimento dos tratamentos.
Hoje, na primeira consulta, os psiquiatras fazem um mapa
neurológico do viciado. Pedem exames, como tomografia e
ressonância magnética, que possibilitam saber até onde a
droga atingiu o corpo do dependente. "Antes de começar
o tratamento, fazemos uma radiografia da cocaína no cérebro
da pessoa", diz o psicólogo Evaldo Melo de Oliveira,
da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e outras
Drogas.
Nos Estados Unidos
e até no Brasil, alguns médicos começam a testar os remédios
usados para a epilepsia, como o Vigabatrim, no combate à
dependência de cocaína. O uso de antidepressivos também
está mais freqüente. "Os usuários de cocaína desenvolvem
a depressão e é preciso cuidar dela também. Senão, a depressão
traz de volta a cocaína, como em um círculo vicioso",
diz o psiquiatra paulista Ronaldo Laranjeiras. Em agosto
passado, cientistas do Instituto de Pesquisa Scripps, da
Califórnia, apresentaram uma vacina que inibe o vício da
droga. Ela será testada em seres humanos até o fim deste
ano. Desde 1995, a vacina está sendo manipulada em ratos
com resultados positivos: reduziu os efeitos da cocaína
no sistema nervoso central dos animais em até 77%. Sabe-se
que as moléculas da droga são muito pequenas e atingem o
cérebro em segundos, sem ser reconhecidas pelo sistema de
defesa do corpo. Com a vacina, as moléculas de cocaína são
destruídas no meio do caminho. É outra boa notícia num campo
que está sendo favorecido com novos recursos a cada dia.
Em sua maioria,
os centros brasileiros de recuperação seguem os modelos
de tratamento americanos, que partem do princípio da abstinência
total. Nos novos tratamentos, há uma tolerância maior em
relação à recaída. Sabe-se hoje que 80% dos pacientes sucumbem
à tentação pelo menos uma vez, no decorrer de um ano de
tratamento. Os médicos especializados afirmam que um ano
longe das drogas é o prazo-chave para chamar alguém de ex-viciado.
Não é um dado científico. Até porque a possibilidade de
uma recaída nunca está totalmente eliminada e esse é
um alerta de todos os médicos que lidam com o problema.
Não é incomum um ex-dependente, livre há anos das drogas,
se internar em momentos de tentação.
Paulo Jares
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Grupo de ex-dependentes
numa clínica carioca:
reuniões para espantar
a tentação da recaída |
Antes o que era motivo para o desânimo ou para a desistência
do tratamento é encarado agora de outra forma. "A recaída
faz parte do processo de recuperação", afirma o psiquiatra
Carlos Parada, do centro de recuperação francês Marmottan,
o maior da Europa, que atende 100 pacientes por dia. A dona
de casa Lya Llerena Guinle, carioca de 39 anos e desde os
22 emendando sua vida em uma seqüência compulsiva de álcool
e cocaína, submeteu-se a longo tratamento e conseguiu ficar
dois anos "limpa", como se diz na gíria dos dependentes.
Em março deste ano, teve uma recaída. Bebeu um copo de uísque.
"O problema é que, mais uma vez, tentei levar a vida
sozinha", diz Lya. "Afastei-me do grupo e o inferno
voltou." A dependência, para os médicos, não está relacionada
à periodicidade com que o viciado se droga. Mas, sim, ao
quanto ela faz parte da vida da pessoa. Ou seja, o viciado
pode até ficar longe da cocaína por uma ou duas semanas.
Só que, nesse período, é comum que ele esteja pensando na
droga o tempo todo.
Durante os quatro
anos em que foi viciada em cocaína, a secretária gaúcha
Simone Köhler conseguiu algumas vezes parar de cheirar por
períodos de dois ou três meses. Em seguida, vergava-se inapelavelmente
à fissura. Numa de suas fases mais deprimentes ficou cinco
dias andando sem rumo pelas ruas de Porto Alegre. "No
auge de minha euforia quis saltar do alto de um prédio",
relembra Simone, de 26 anos e há um longe da cocaína. "Quando
o efeito da droga passou, a sensação foi terrível."
Resolveu pedir ajuda aos pais e, finalmente, se internou.
Durante nove meses permaneceu numa fazenda de recuperação,
perto de Porto Alegre. Ainda sente vontade de usar a droga,
principalmente quando vai a festas. "Mas penso em tudo
de bom que está acontecendo na minha vida agora e vejo que
não vale a pena", afirma Simone. Uma ex-dependente
como Simone não pode se dar ao luxo de uma escapada sequer.
Sabe que o horror pode voltar. Para quem nunca passou pelo
fundo do poço das drogas pode parecer que o ex-viciado leva
uma vida ainda penosa demais. Afinal, o fantasma do vício
nunca deixa de ser uma sombra pavorosa. Mas a sensação do
ex-dependente é exatamente a oposta. Ele tem a consciência
forte de que está num mundo melhor que o anterior.
Com
reportagem de
Ronaldo França, do
Rio de Janeiro,
Juliana De Mari, de
São Paulo,
Angélica Tasso, do
Recife,
Rosele Martins, de
Porto Alegre, e
Adriana Setti, de
Salvador
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