Edição 1 625 - 24/11/1999

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O reino do Paco-paco

Um legítimo veículo nacional,
todo ele feito de sobras do garimpo e de ferro-velho

Fabio Schivartche, de Peixoto de Azevedo



E
le é barulhento e desengonçado. Solta uma fumaça escura e dificilmente passa dos 80 quilômetros por hora. Mas é um sucesso no norte de Mato Grosso, onde mais de 1.000 circulam pelas esburacadas estradas de terra. Frankenstein sobre rodas, o Paco-paco é um veículo feito com velhos motores usados pelos garimpeiros na extração do ouro, carcaça de caminhonetes aposentadas e restos de outros carros. Custa entre 4.500 e 6.500 reais e faz até 15 quilômetros por litro de diesel – e aí está a razão de seu sucesso. É econômico. A fórmula veio com os colonos gaúchos que, em busca de riqueza, chegaram ao nortão do Estado, quase na fronteira com o Pará, nos anos 80. Montados no fundo do quintal, eram usados para transportar areia e terra. Mas o ouro acabou no início desta década e a maioria dos garimpeiros foi embora, levando junto a prosperidade prometida à região. Vidraças de lojas quebradas, prostíbulos e bares fechados dominam a paisagem. Sobraram quase 5.000 motores do garimpo, que agora ajudam a alavancar a economia da região.

Em um passeio pelas ruas da cidade de Peixoto de Azevedo é fácil perder a conta de quantos Paco-paco são vistos. Os mais simples, e baratos, não têm farol, porta nem teto. Os mais azeitados ganham pintura, meio capô e cilindradas adicionais. Na oficina do gaúcho Jair Graff, a maior fábrica improvisada, a linha de montagem trabalha num ritmo alucinante dentro do galpão de madeira, onde são construídos dois veículos por semana. Há até pedidos de fazendas distantes mais de 400 quilômetros. Graff calcula já ter entregado um número superior a 150 unidades nos últimos seis anos. Em toda a região existem mais de dez outras pequenas oficinas que produzem o automóvel, cada um de jeito diferente. A idéia básica, no entanto, é a mesma: adaptar a embreagem e a caixa de câmbio a um motor estacionário, daqueles usados para bombear água e produzir energia elétrica no garimpo, e cobrir com um chassi de caminhonete velha. Podem ser restos de um Chevrolet C-10 ou um jipinho Willis. Nas dobras da lataria, um reforço na solda para agüentar o tranco. Pneus meia vida, pára-choque de ferro e pronto.

A economia, conseguida com a conversão para diesel, é o principal atrativo do veículo. O ex-vereador Hilário Hechler, que planta abacaxi em sua fazenda, a 115 quilômetros da cidade, gastava 400 reais por mês de combustível, pois sua picape bebia 1 litro de gasolina para fazer 4 quilômetros. Comprou um Paco-paco há três anos. Além de rodar quase quatro vezes mais com 1 litro de combustível, tem a vantagem do diesel – 66 centavos o litro, contra 1,65 real da gasolina, nos postos da região. "Foi minha salvação", diz Hechler, que instalou um toca-fitas e colocou um adesivo na lataria: Paco-paco GLS (grande luxo super). O sucesso é tão grande que tem gente fazendo frete com o parrudo veículo. O quilômetro rodado custa 1 real. E quem não tem dinheiro para comprar faz o próprio no quintal de casa. É o caso do prefeito, Francisco de Assis Tenório, que montou um quando ainda era garimpeiro. Em sua Peixoto de Azevedo, terra que já foi habitada pelos temidos índios gigantes, os panarás, circulam hoje 1.800 veículos, apesar de apenas uma rua ser asfaltada. Destes, estima-se que pelo menos 400 sejam Paco-paco. Não é possível obter números precisos porque nenhum possui placa nem registro. Logo, não tomam multas. Seus proprietários, assim como os fabricantes, tampouco pagam impostos. É uma ilegalidade tolerada pelos poderes locais. Não fosse assim, os colonos veriam seus gastos multiplicar-se. "E não queremos criar um problema social", diz Josafa Fieira, chefe do departamento de trânsito local.

As autoridades, no entanto, pressionam pela regulamentação. Há quatro meses conseguiram que os proprietários se comprometessem a instalar faróis nos veículos. Mas é só um pequeno passo rumo à legalização, já que cerca de 60% deles não teriam condições de ser regularizados. A improvisação se estende até a assistência técnica, como se lê numa placa afixada em uma das oficinas: "Atenção clientes: no prazo de trinta dias não somos mais responsáveis pelo seu motor". Sem o mesmo prestígio e sucesso de vendas, o Paco-paco ainda é fabricado, artesanalmente, no sul do país. Lá se chama Jirico e pode ser encontrado na região vinícola. Alguns, com mais de 25 anos, continuam rodando nas lavouras de uva. A diferença é que, por falta de motores de garimpo, por lá se usa o que estiver à mão, trator ou carro velho.