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O reino do Paco-paco
Um legítimo veículo nacional,
todo ele feito de sobras do garimpo e de ferro-velho
Fabio Schivartche, de
Peixoto de Azevedo

Ele é
barulhento e desengonçado. Solta uma fumaça
escura e dificilmente passa dos 80 quilômetros por
hora. Mas é um sucesso no norte de Mato Grosso,
onde mais de 1.000
circulam pelas esburacadas estradas de terra. Frankenstein
sobre rodas, o Paco-paco é um veículo feito
com velhos motores usados pelos garimpeiros na extração
do ouro, carcaça de caminhonetes aposentadas e
restos de outros carros. Custa entre 4.500
e 6.500
reais e faz até 15 quilômetros por litro
de diesel e aí está a razão
de seu sucesso. É econômico. A fórmula
veio com os colonos gaúchos que, em busca de riqueza,
chegaram ao nortão do Estado, quase na fronteira
com o Pará, nos anos 80. Montados no fundo do quintal,
eram usados para transportar areia e terra. Mas o ouro
acabou no início desta década e a maioria
dos garimpeiros foi embora, levando junto a prosperidade
prometida à região. Vidraças de lojas
quebradas, prostíbulos e bares fechados dominam
a paisagem. Sobraram quase 5.000
motores do garimpo, que agora ajudam a alavancar a economia
da região.
Em um passeio
pelas ruas da cidade de Peixoto de Azevedo é fácil
perder a conta de quantos Paco-paco são vistos.
Os mais simples, e baratos, não têm farol,
porta nem teto. Os mais azeitados ganham pintura, meio
capô e cilindradas adicionais. Na oficina do gaúcho
Jair Graff, a maior fábrica improvisada, a linha
de montagem trabalha num ritmo alucinante dentro do galpão
de madeira, onde são construídos dois veículos
por semana. Há até pedidos de fazendas distantes
mais de 400 quilômetros. Graff calcula já
ter entregado um número superior a 150 unidades
nos últimos seis anos. Em toda a região
existem mais de dez outras pequenas oficinas que produzem
o automóvel, cada um de jeito diferente. A idéia
básica, no entanto, é a mesma: adaptar a
embreagem e a caixa de câmbio a um motor estacionário,
daqueles usados para bombear água e produzir energia
elétrica no garimpo, e cobrir com um chassi de
caminhonete velha. Podem ser restos de um Chevrolet C-10
ou um jipinho Willis. Nas dobras da lataria, um reforço
na solda para agüentar o tranco. Pneus meia vida,
pára-choque de ferro e pronto.
A economia, conseguida
com a conversão para diesel, é o principal
atrativo do veículo. O ex-vereador Hilário
Hechler, que planta abacaxi em sua fazenda, a 115 quilômetros
da cidade, gastava 400 reais por mês de combustível,
pois sua picape bebia 1 litro de gasolina para fazer 4
quilômetros. Comprou um Paco-paco há três
anos. Além de rodar quase quatro vezes mais com
1 litro de combustível, tem a vantagem do diesel
66 centavos o litro, contra 1,65 real da gasolina,
nos postos da região. "Foi minha salvação",
diz Hechler, que instalou um toca-fitas e colocou um adesivo
na lataria: Paco-paco GLS (grande luxo super). O sucesso
é tão grande que tem gente fazendo frete
com o parrudo veículo. O quilômetro rodado
custa 1 real. E quem não tem dinheiro para comprar
faz o próprio no quintal de casa. É o caso
do prefeito, Francisco de Assis Tenório, que montou
um quando ainda era garimpeiro. Em sua Peixoto de Azevedo,
terra que já foi habitada pelos temidos índios
gigantes, os panarás, circulam hoje 1.800
veículos, apesar de apenas uma rua ser asfaltada.
Destes, estima-se que pelo menos 400 sejam Paco-paco.
Não é possível obter números
precisos porque nenhum possui placa nem registro. Logo,
não tomam multas. Seus proprietários, assim
como os fabricantes, tampouco pagam impostos. É
uma ilegalidade tolerada pelos poderes locais. Não
fosse assim, os colonos veriam seus gastos multiplicar-se.
"E não queremos criar um problema social", diz
Josafa Fieira, chefe do departamento de trânsito
local.
As autoridades,
no entanto, pressionam pela regulamentação.
Há quatro meses conseguiram que os proprietários
se comprometessem a instalar faróis nos veículos.
Mas é só um pequeno passo rumo à legalização,
já que cerca de 60% deles não teriam condições
de ser regularizados. A improvisação se estende
até a assistência técnica, como se lê
numa placa afixada em uma das oficinas: "Atenção
clientes: no prazo de trinta dias não somos mais
responsáveis pelo seu motor". Sem o mesmo prestígio
e sucesso de vendas, o Paco-paco ainda é fabricado,
artesanalmente, no sul do país. Lá se chama
Jirico e pode ser encontrado na região vinícola.
Alguns, com mais de 25 anos, continuam rodando nas lavouras
de uva. A diferença é que, por falta de motores
de garimpo, por lá se usa o que estiver à
mão, trator ou carro velho.
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