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Luzes na Amazônia
Fotos noturnas feitas por satélite
revelam
uma surpreendente urbanização
da floresta
Marcos Gusmão
Enfiados
no meio da mata fechada, pelo menos 520 vilarejos da Amazônia
sempre foram um mistério para as estatísticas oficiais
do país. Ninguém sabia com precisão onde estavam
esses povoados, e tentar localizá-los num mapa era perda
de tempo. Um grupo de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária, Embrapa, interessado em desvendar os segredos
do desmatamento da floresta, encontrou uma maneira engenhosa de
desvendar o mistério. Algo tão simples que admira
nunca ter sido feito antes. Examinando fotografias da Amazônia
feitas durante a noite, a partir de satélites em órbita,
puderam ver claramente a constelação de lâmpadas
elétricas indicando onde está cada uma dessas povoações.
São cidades nanicas que raramente ultrapassam os 5.000
habitantes, mas apresentam estrutura urbana surpreendente na selva.
"Não se sabia direito onde estavam 40% das mais de 1.300
vilas e cidades da Amazônia", diz Evaristo Eduardo de Miranda,
gerente da divisão de monitoramento por satélites
da Embrapa. "As luzes mostraram o caminho para chegar até
elas, mesmo as que nunca apareceram nos mapas", afirma.
A localização
exata das cidades era crucial para que os pesquisadores pudessem
dimensionar a dinâmica do desmatamento. Em vez de procurar
as tradicionais manchas carecas no meio do verde, eles foram esmiuçar
as imagens feitas por um satélite especial da Força
Aérea dos Estados Unidos. Selecionaram criteriosamente
os focos de luz colhidos e identificaram as fontes de emissões
elétricas fixas, como lâmpadas que iluminam as ruas,
e a claridade que escapa pelas janelas e portas das casas. Ao
todo os especialistas em imagens da Embrapa cruzaram dados de
uma centena de fotografias tiradas a 835 quilômetros de
altitute. O satélite, de uma categoria especial chamada
Defense Meteorological Satellite Program, DMSP, é capaz
de realizar uma varredura de 3.000
quilômetros e tem uma sensibilidade tal que permite aos
pesquisadores identificar até mesmo o reflexo da luz da
Lua sobre superfícies como rios e lagos. Os registros foram
colhidos a partir de passagens do satélite a cada dois
dias sobre a região amazônica, sempre às 10
da noite. Depois de identificar as luzes na mata, eles cruzaram
o novo mapa com o de desmatamentos feito pelos satélites
convencionais. "O resultado é quase uma revolução
no que se pensava sobre a devastação", diz Miranda.
Pedro Martinelli
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Cidade na selva
A
floresta cobre a maior parte da Amazônia, mas seis
em cada dez habitantes vivem em área urbana, cuja
população sobretudo nos vilarejos de
difícil acesso dobrou nas últimas quatro
décadas. A economia depende do comércio e
da agricultura, mas muita gente vive da pesca, da caça
e do extrativismo
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A equipe da Embrapa
percebeu que, num raio de 25 quilômetros ao redor dos vilarejos
e municípios mapeados, se concentram cerca de 95% dos pontos
de extração de madeira e de queimadas. Um resultado
que, acreditam, pode subverter o conceito de que a exploração
predatória e clandestina da floresta se localiza em regiões
de fazendas e em pontos isolados e inacessíveis da selva.
Pelo novo levantamento, a destruição está diretamente
ligada aos núcleos de civilização. Esses povoados,
longe de ser apenas aglomerados de barracos e casas de madeira perdidos
na mata, acabam se tornando bases avançadas para a exploração
da região e a alavanca de um processo irreversível
de urbanização. "É lá que se compram
combustível e víveres, onde estão os aparelhos
de comunicação por rádio e onde se fixa a mão-de-obra
disponível para qualquer investida exploratória",
avalia Sandra Mello, da Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos
Humanos, do Ministério do Meio Ambiente. Um sinal claro de
que esses pequenos focos de luz precisam ser enxergados com especial
atenção.
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