Edição 1 625 - 24/11/1999

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Luzes na Amazônia

Fotos noturnas feitas por satélite revelam
uma surpreendente urbanização da floresta

Marcos Gusmão

Enfiados no meio da mata fechada, pelo menos 520 vilarejos da Amazônia sempre foram um mistério para as estatísticas oficiais do país. Ninguém sabia com precisão onde estavam esses povoados, e tentar localizá-los num mapa era perda de tempo. Um grupo de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, interessado em desvendar os segredos do desmatamento da floresta, encontrou uma maneira engenhosa de desvendar o mistério. Algo tão simples que admira nunca ter sido feito antes. Examinando fotografias da Amazônia feitas durante a noite, a partir de satélites em órbita, puderam ver claramente a constelação de lâmpadas elétricas indicando onde está cada uma dessas povoações. São cidades nanicas que raramente ultrapassam os 5.000 habitantes, mas apresentam estrutura urbana surpreendente na selva. "Não se sabia direito onde estavam 40% das mais de 1.300 vilas e cidades da Amazônia", diz Evaristo Eduardo de Miranda, gerente da divisão de monitoramento por satélites da Embrapa. "As luzes mostraram o caminho para chegar até elas, mesmo as que nunca apareceram nos mapas", afirma.

A localização exata das cidades era crucial para que os pesquisadores pudessem dimensionar a dinâmica do desmatamento. Em vez de procurar as tradicionais manchas carecas no meio do verde, eles foram esmiuçar as imagens feitas por um satélite especial da Força Aérea dos Estados Unidos. Selecionaram criteriosamente os focos de luz colhidos e identificaram as fontes de emissões elétricas fixas, como lâmpadas que iluminam as ruas, e a claridade que escapa pelas janelas e portas das casas. Ao todo os especialistas em imagens da Embrapa cruzaram dados de uma centena de fotografias tiradas a 835 quilômetros de altitute. O satélite, de uma categoria especial chamada Defense Meteorological Satellite Program, DMSP, é capaz de realizar uma varredura de 3.000 quilômetros e tem uma sensibilidade tal que permite aos pesquisadores identificar até mesmo o reflexo da luz da Lua sobre superfícies como rios e lagos. Os registros foram colhidos a partir de passagens do satélite a cada dois dias sobre a região amazônica, sempre às 10 da noite. Depois de identificar as luzes na mata, eles cruzaram o novo mapa com o de desmatamentos feito pelos satélites convencionais. "O resultado é quase uma revolução no que se pensava sobre a devastação", diz Miranda.

Pedro Martinelli

Cidade na selva

A floresta cobre a maior parte da Amazônia, mas seis em cada dez habitantes vivem em área urbana, cuja população – sobretudo nos vilarejos de difícil acesso – dobrou nas últimas quatro décadas. A economia depende do comércio e da agricultura, mas muita gente vive da pesca, da caça e do extrativismo

A equipe da Embrapa percebeu que, num raio de 25 quilômetros ao redor dos vilarejos e municípios mapeados, se concentram cerca de 95% dos pontos de extração de madeira e de queimadas. Um resultado que, acreditam, pode subverter o conceito de que a exploração predatória e clandestina da floresta se localiza em regiões de fazendas e em pontos isolados e inacessíveis da selva. Pelo novo levantamento, a destruição está diretamente ligada aos núcleos de civilização. Esses povoados, longe de ser apenas aglomerados de barracos e casas de madeira perdidos na mata, acabam se tornando bases avançadas para a exploração da região e a alavanca de um processo irreversível de urbanização. "É lá que se compram combustível e víveres, onde estão os aparelhos de comunicação por rádio e onde se fixa a mão-de-obra disponível para qualquer investida exploratória", avalia Sandra Mello, da Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos, do Ministério do Meio Ambiente. Um sinal claro de que esses pequenos focos de luz precisam ser enxergados com especial atenção.