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A outra face de Hitler
Biógrafo do ditador alemão
e de seu ministro
Albert Speer diz que ambos tiveram
um complicado relacionamento "homoerótico"
José Galisi Filho
Lançada
originalmente em 1973, a biografia de Adolf Hitler escrita
pelo jornalista e historiador alemão Joachim Fest,
de 72 anos, é um documento importante para quem deseja
entender a II Guerra Mundial e o próprio século
XX. Best-seller na Alemanha, traduzida em mais de vinte países,
inclusive no Brasil (editora Nova Fronteira), a biografia
é notável por fugir aos clichês sobre
o ditador alemão presentes nas teorias mais tradicionais.
Para Fest, Hitler não foi nem um títere dos
interesses do capital nem tampouco um palhaço das massas.
Foi um personagem único, que desequilibra a compreensão
do processo histórico. E essa convicção
se reforça agora, com a publicação na
Alemanha de uma nova biografia assinada por Fest, desta vez
sobre o arquiteto Albert Speer, ministro de Armamentos e da
Produção de Guerra do Reich. Fest manteve com
Speer um longo contato, como consultor e organizador de suas
memórias, na prisão berlinense de Spandau, onde
ele permaneceu de 1946 a 1966. Na biografia, Fest põe
em questão o mito Speer o do "nazista arrependido".
E diz que ele não foi apenas arquiteto do führer
e seu virtual sucessor: foi também sua grande paixão
"homoerótica". Joachim Fest recebeu VEJA para esta
entrevista na capital alemã, um pouco antes do baile
comemorativo dos dez anos da queda do Muro de Berlim.
Veja
Um dos
pontos mais polêmicos de seu livro é a sugestão
de um relacionamento "homoerótico", ainda que não
consumado, entre Hitler e seu ministro de Armamentos e da
Produção de Guerra, o arquiteto Albert Speer.
O que o levou a essa suposição?
Fest
A amizade entre Hitler e Speer foi uma verdadeira relação
de amor, não há nenhuma dúvida a esse
respeito. Hitler simplesmente se apaixonou por Speer, um jovem
arquiteto extremamente ambicioso, um homem cujo encanto despertou
nele sentimentos profundos. Esse "amor infeliz" prosseguiu
até abril de 1945. Ele pode ser provado com muitos
detalhes, mas, por incrível que pareça, nenhum
historiador até agora os havia percebido. Cito apenas
um episódio. Em 24 de abril daquele ano, seis dias
antes do suicídio de Hitler, quando Berlim já
estava cercada e sendo tomada pelos russos, Speer voou para
se despedir de Hitler, sitiado em seu bunker. Anos mais tarde,
quando me encontrei com Speer, disse-lhe: "Você foi
para Berlim, na esperança de que Hitler o matasse.
Você havia traído sua confiança, ao recusar-se
publicamente a cumprir a diretiva do führer de fazer
terra arrasada dos territórios que estavam para ser
tomados pelos aliados". Ele me respondeu: "Senhor Fest, essa
é mais uma de suas observações curiosas.
Eu não queria ser morto por Hitler!" E então,
seis semanas depois, Speer me procurou com uma folha amarrotada,
repleta de anotações feitas na prisão
de Spandau, na qual estava escrito: "Ainda hoje me sinto infeliz
que Hitler, em minha visita de despedida em 24 de abril, estivesse
tão conciliador e não tivesse dado ordem a um
pelotão de fuzilamento para que me executassem no jardim
da chancelaria. Eu acreditava que seria fuzilado por ter-me
recusado a cumprir a diretiva de terra arrasada. Minha vida
teria tido um fim mais digno". Speer queria morrer e, com
isso, selar sua amizade com Hitler. Como em uma ópera
de Wagner.
Veja
É
possível que Albert Speer ignorasse o extermínio
sistemático de judeus, como afirmava?
Fest
Ele
negou conhecer o fato ao ser julgado em Nuremberg. Vinte e
um anos depois, quando foi libertado, essa foi a primeira
pergunta que lhe fizeram. Speer manteve-se firme na negativa.
Numa de nossas últimas conversas, um ou dois anos antes
de sua morte, em 1981, indaguei-lhe sobre o assunto. Ele foi
taxativo: disse que não sabia de nada. Os indícios,
no entanto, apontam para o fato de que estava a par de tudo.
Veja
O que
o senhor quis dizer com a última frase de seu livro
sobre Speer: "Um homem de muitas faces, mas sem nenhuma qualidade"?
Fest
Que lhe faltava um eixo moral inabalável. Todos nós
vivemos de contradições, é certo, mas
estas aparecem em Speer de maneira tão dramática
que é impossível desvendar qual a sua verdadeira
personalidade. Ele sempre procurou saber o que a culpa significava,
sem jamais alcançar realmente a sua real dimensão.
Speer foi responsável por decisões que custaram
a vida de milhões de seres humanos, mas não
conseguia sentir-se individualmente responsável por
isso.
Veja
É
possível relativizar os horrores promovidos por Hitler,
como tentaram fazer alguns pensadores alemães na década
de 80?
Fest
Não.
Hitler representa o mal em estado puro, o oposto da civilização.
Na História da humanidade, todos os estadistas, mesmo
os mais sanguinários, sempre defenderam algum objetivo
que representasse uma contribuição em termos
civilizatórios. Hitler desafiou essa lógica.
O nazismo tinha um programa ideológico apenas na aparência.
Sua verdadeira essência era a aplicação
de um raciocínio de bases biológicas à
política. Ele acreditava que o mundo estivesse ameaçado
pela contaminação de raças inferiores.
Um verdadeiro absurdo de qualquer ponto de vista. Uma de suas
justificativas para perseguir os judeus é que eles
formavam uma raça que contrariava o princípio
da territorialidade e essa era uma lei elementar da natureza.
Hitler declarou que desejava "elevar" os homens a um novo
patamar de equilíbrio. Seu legado, se assim podemos
chamá-lo, é algo monstruoso, sem paralelo na
História: a guerra de extermínio. Hitler era
um completo paranóico.
Veja
Como uma
nação inteira pôde seguir um monstro?
Fest
Que
Hitler tenha encontrado milhões de seguidores é
uma vergonha para a Alemanha de seu tempo. Mas o nazismo
não é um fenômeno circunscrito a uma
nacionalidade: ele mostrou como o edifício que chamamos
de civilização tem bases frágeis. Seu
advento derrubou definitivamente a idéia clássica
do Iluminismo, expressa pela confiança na razão
e no progresso inexorável. Para os iluministas, o
mal situava-se fora do homem, era resultado da distorção
de uma série de fatores, entre os quais a pouca educação.
Hitler demonstrou que o mal está presente na natureza
humana, a impregna. A educação pode afastá-lo
provisoriamente, mas não eliminá-lo.
Veja
O século
XX foi um século em que o mal venceu?
Fest
Como
sou um pessimista, tendo a acreditar que o mal vence na
maioria das vezes. No entanto, a despeito de todas as injustiças
e crueldades cometidas durante a II Guerra e depois dela,
sou obrigado a reconhecer que o mal não ganhou neste
século. As provas mais recentes disso são
a reunificação alemã, que acabou de
completar dez anos, e a derrocada do socialismo. Talvez
haja esperança para nós.
Veja
Existe
algum outro ditador de nossa época comparável
a Hitler?
Fest
Há alguns anos, o ensaísta alemão Hans
Magnus Enzensberger publicou um artigo, comparando Hitler
ao líder iraquiano Saddam Hussein. Ele foi muito criticado
por causa disso. Acho que a comparação direta
é indevida, mas entendo o que Enzensberger quis dizer
ao fazê-la: não importa o seu grau de desenvolvimento,
os homens sempre estão à espera de um líder
que os conduza à autodestruição, por
meio do terror e da propaganda doutrinária. Realmente,
é uma constante na História a existência
de massas prontas ao sacrifício. A população
do Iraque apresentaria, assim, um comportamento semelhante
ao do povo alemão diante da derrota inevitável,
em 1945. Aconteceu uma vez com Hitler, pode ocorrer novamente,
irá sempre acontecer quando as mesmas condições
se repetirem. Portanto, precisamos de um sistema de vigilância
e, mais ainda, de uma atitude cética diante de nossas
próprias convicções. Tal era o objetivo
do artigo de Enzensberger, e estou inteiramente de acordo
com essa perspectiva.
Veja
Até
quando Hitler achou que poderia ganhar a guerra?
Fest
Não
há testemunhos disso, mas existem muitos indícios
de que Hitler já sabia, desde o inverno de 1941, que
não poderia ganhar a guerra. E o que ele fez, então?
Primeiro, passou a ameaçar sistematicamente o próprio
Exército alemão. Como ele se mostrou fraco na
luta, deveria ser punido. Tomemos a ofensiva das Ardenas,
em dezembro de 1944. Qual seria o sentido de uma "ofensiva"
contra os Aliados naquela altura? Nenhum. Foi uma ação
que permitiu que os russos massacrassem divisões alemãs
inteiras. Na verdade, a idéia de Hitler era prolongar
ao máximo o sofrimento de seus soldados, bem como o
da população do país. Mais importante,
no entanto, era levar a cabo o extermínio dos judeus.
Depois de diversos "ensaios", como a perseguição
aos doentes mentais alemães durante vários anos,
a estratégia da solução final, com o
emprego de câmaras de gás, foi finalmente posta
em operação em 1942. A partir de então,
todos os esforços se concentram nisso. A prioridade
atribuída ao transporte de prisioneiros para os campos
de extermínio, em detrimento de objetivos militares
claros, comprova essa tese. A malha ferroviária, por
exemplo, foi modificada para acelerar a evacuação
dos judeus dos guetos, embora isso prejudicasse a mobilidade
e a resistência do Exército. Na perspectiva de
Hitler, se a guerra não poderia ser ganha, era preciso
ao menos eliminar os judeus da face da Europa. Hitler era
conseqüente na sua desumanidade patológica.
Veja
Uma vez
perguntaram a Hitler o que aconteceria com o Brasil, onde
vivia uma razoavelmente numerosa comunidade alemã.
Ele teria respondido: "O Brasil, eu resolvo com um telefonema".
O que Hitler queria dizer com isso?
Fest
Essa
anedota somente confirma os limites da visão de mundo
de Hitler. A América Latina representava um enorme
vazio para os nazistas. Hitler não sabia quase nada
sobre outros países e continentes, salvo o que lera
quando jovem nas novelas de aventura de Karl May, que ambientava
suas intrigas em lugares exóticos e distantes. Eram
histórias idealizadas, como as do índio Winnetou.
Hitler conheceu apenas a Itália, em viagem oficial.
Esteve uma única vez em Paris, na manhã seguinte
à derrota francesa. E tinha somente uma vaga idéia
do que fossem os Estados Unidos, do seu tamanho e de sua força.
Seus horizontes terminavam nas fronteiras do antigo "reich"
alemão.
Veja
O senhor conhece
a participação brasileira na II Guerra?
Fest
Infelizmente,
não. Suponho que seja um ponto-chave da história
brasileira, assim como na de todos os países que estiveram
envolvidos no conflito. A Alemanha estava em guerra criminosa
com o mundo inteiro, contra todos os princípios elementares
da civilização e cometeu muitos crimes contra
a paz e contra a humanidade. Acho que seria fundamental contar
aqui na Alemanha essa campanha brasileira. Tenho certeza de
que haveria um enorme interesse em conhecer a versão
de vocês.
Veja
A cada
dia, na internet, aparecem páginas com propaganda racista.
Muitas têm inspiração nazista. Como o
senhor vê esse fenômeno?
Fest
Creio
que sejam apenas tentativas de angariar alguma atenção.
Uma página racista na internet, é preciso salientar,
não tem poder de convencimento. Ela somente reforça
convicções já entranhadas. Quem for sensato,
razoável e informado não vai se deixar levar
por mensagens eletrônicas. De qualquer forma, aumentar
a quantidade do combustível de ódio em circulação,
com iniciativas como essas, é preocupante e exige uma
intervenção do poder público.
Veja
Recentemente
veio à tona a informação de que Jürgen
Habermas, o mais conhecido e influente pensador alemão
das últimas décadas, foi um nazista de primeira
hora. O que isso diz a respeito da intelectualidade alemã?
Fest
Habermas
foi líder de uma unidade da Juventude Hitlerista. Isso
não é uma aleivosia, é uma afirmação
que pode ser comprovada. Soube do fato por intermédio
de amigos seus. Habermas acreditou no führer como a maioria
dos alemães, pois viveu confinado naquele mundo e somente
a muito custo teria se libertado. O que mais incomoda é
o fato de ele ter silenciado a respeito disso e ter querido
a todo o custo desempenhar o papel de "consciência moral"
da Alemanha moderna. Que nosso intelectual mais renomado precise
reavaliar seu papel público e como pensador é
muito significativo.
Veja
Observamos,
atualmente, uma explosão na venda de biografias no
mundo inteiro. O que o senhor, que sempre praticou esse gênero,
tem a dizer sobre esse fenômeno?
Fest
Creio
que ele decorre de um refluxo na importância das teorias
de esquerda para se pensar a História. Esse tipo de
pensamento sempre se preocupou com a "lógica imanente".
Ele reduz tudo a estruturas, a esquemas que transformam os
homens em joguetes de uma evolução quase que
geneticamente determinada. O problema é que, raciocinando
assim, perdemos a perspectiva da liberdade da ação
moral do homem. E estou certo de que essa liberdade desempenha
um papel-chave na História. Os homens muitas vezes
agem contra seus interesses materiais mais elementares e contra
a própria racionalidade um fato difícil de
enquadrar no esquematismo de muitas teorias de esquerda. Albert
Speer poderia ter agido de uma forma ou de outra. Por que
fez exatamente daquela maneira, aderindo ao nazismo? Vários
podem ser os motivos: fraqueza de caráter, orgulho,
medo, vaidade. É uma questão em aberto. A forma
biográfica permite que preenchamos esse espaço
com todas as hipóteses.
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