Edição 1 625 - 24/11/1999

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As vias de fato

"O povo agradecerá feliz um debate
que leve à renovação das idéias
sobre progresso econômico, bem-estar e
democracia se isso espantar o mito que
assola as economias capitalistas hoje de que
só pode ter sucesso quem for magro e mau"

 

Ilustração Alê Setti
O
presidente Fernando Henrique participa de cúpula com os chefes de governo das principais nações do mundo para discutir um caminho para a "governança progressista" no século XXI, novo nome para a "terceira via", entre o socialismo estatista e o neoliberalismo. Nem todos são da Internacional Socialista. O que mais têm em comum é não serem de partidos da linhagem do Liberal inglês ou do Republicano dos Estados Unidos. Parece discussão ociosa, mas não é. Ela pode não ir muito longe lá. É difícil que dela surja uma plataforma muito profunda, dadas as distâncias e os interesses que separam, por exemplo, Bill Clinton, dos EUA, Lionel Jospin, da França, e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil.

Mas o debate é importante. Está mais avançado na Europa, onde a política é menos materialista e os partidos precisam ter idéias mais focadas para capturar o interesse dos eleitores, do que entre nós da América. Para Tony Blair, da Inglaterra, é tão essencial que é conhecido como o "projeto Blair". No início de junho passado ele e o primeiro-ministro alemão, Gerhard Schroeder, assinaram um ensaio intitulado "Europa: a terceira via – O novo centro", no qual afirmam que os social-democratas ganharam nova aceitação em praticamente todos os países da União Européia porque estão modernizando seus programas, porém sem perder valores tradicionais. O sucesso, para os dois primeiros-ministros mais poderosos da Europa, decorre da conciliação entre justiça social, dinamismo econômico e liberação da criatividade e da inovação. Genérico, mas aponta para uma questão central.

Esse tema é relevante para qualquer pessoa que ainda acredite ser possível uma política que leve à melhoria da qualidade de vida da maioria sem sacrificar as liberdades. Ralf Dahrendorf, em crítica recente ao documento, diz que esse é o desafio hoje para todos os países europeus: propiciar melhora econômica sustentável em mercados globais sem sacrificar a coesão básica das sociedades ou as instituições que garantem a liberdade. Ele é professor da London School of Economics, um importante sociólogo de tendência liberal, embora sempre preocupado com o objetivo de justiça social. Acha que, no mundo aberto, não há só duas ou três vias, mas inúmeros caminhos para chegar a esse equilíbrio entre crescimento sustentável, coesão social e liberdade democrática. Está certo.

É esse também o dilema que nos vem afligindo no Brasil, independentemente de persuasão partidária. Não foi ele, posto de forma talvez um pouco mais antiga, que produziu as divisões recentes entre o deputado José Genoíno e a esquerda do PT? O presidente Fernando Henrique não tem dito sempre que esse também é seu objetivo e para atingi-lo quer superar logo e bem o estágio das reformas neoliberais?

Pode haver consenso? Não. São muitos os capitalismos. Basta comparar Estados Unidos e Alemanha. São muitas as democracias, é só ver as diferenças entre a anglo-saxônica, bipartidária, e as democracias multipartidárias da Europa e do Brasil. O que se pode esperar é uma renovação efetiva das idéias sobre progresso econômico, bem-estar e democracia que leve todas as forças políticas relevantes a buscar sua efetivação, ainda que com diferentes gradações. O povo agradecerá feliz, se isso espantar o mito que assola as economias capitalistas hoje de que só pode ter sucesso quem for magro e mau.

Já vivemos uma revolução na economia. Os critérios que permitem dar orientação social às escolhas de políticas públicas estão defasados e não correspondem à "nova economia". Em breve, com o barateamento e a popularização da internet, teremos meios tecnológicos para revolucionar a política, alterando o escopo da democracia representativa clássica. Esse debate interessa a todos. Quem sabe a cúpula européia possa contribuir para incentivar mais pessoas a entrar nele de boa-fé e com os olhos no futuro, não no espelho retrovisor. Precisamos levar mais a sério o fato de que somos fim deste século e pensar mais no próximo.

Sérgio Abranches é cientista político