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As vias
de fato
"O povo agradecerá feliz um debate
que leve à renovação das idéias
sobre progresso econômico, bem-estar e
democracia se isso espantar o mito que
assola as economias capitalistas hoje de que
só pode ter sucesso quem for magro e mau"
Ilustração
Alê Setti
O
presidente Fernando Henrique participa de cúpula com
os chefes de governo das principais nações do
mundo para discutir um caminho para a "governança progressista"
no século XXI, novo nome para a "terceira via", entre
o socialismo estatista e o neoliberalismo. Nem todos são
da Internacional Socialista. O que mais têm em comum
é não serem de partidos da linhagem do Liberal
inglês ou do Republicano dos Estados Unidos. Parece
discussão ociosa, mas não é. Ela pode
não ir muito longe lá. É difícil
que dela surja uma plataforma muito profunda, dadas as distâncias
e os interesses que separam, por exemplo, Bill Clinton, dos
EUA, Lionel Jospin, da França, e Fernando Henrique
Cardoso, do Brasil.
Mas o debate é
importante. Está mais avançado na Europa,
onde a política é menos materialista e os
partidos precisam ter idéias mais focadas para capturar
o interesse dos eleitores, do que entre nós da América.
Para Tony Blair, da Inglaterra, é tão essencial
que é conhecido como o "projeto Blair". No início
de junho passado ele e o primeiro-ministro alemão,
Gerhard Schroeder, assinaram um ensaio intitulado "Europa:
a terceira via O novo centro", no qual afirmam que os
social-democratas ganharam nova aceitação
em praticamente todos os países da União Européia
porque estão modernizando seus programas, porém
sem perder valores tradicionais. O sucesso, para os dois
primeiros-ministros mais poderosos da Europa, decorre da
conciliação entre justiça social, dinamismo
econômico e liberação da criatividade
e da inovação. Genérico, mas aponta
para uma questão central.
Esse tema é
relevante para qualquer pessoa que ainda acredite ser possível
uma política que leve à melhoria da qualidade
de vida da maioria sem sacrificar as liberdades. Ralf Dahrendorf,
em crítica recente ao documento, diz que esse é
o desafio hoje para todos os países europeus: propiciar
melhora econômica sustentável em mercados globais
sem sacrificar a coesão básica das sociedades
ou as instituições que garantem a liberdade.
Ele é professor da London School of Economics, um
importante sociólogo de tendência liberal,
embora sempre preocupado com o objetivo de justiça
social. Acha que, no mundo aberto, não há
só duas ou três vias, mas inúmeros caminhos
para chegar a esse equilíbrio entre crescimento sustentável,
coesão social e liberdade democrática. Está
certo.
É esse também
o dilema que nos vem afligindo no Brasil, independentemente
de persuasão partidária. Não foi ele,
posto de forma talvez um pouco mais antiga, que produziu
as divisões recentes entre o deputado José
Genoíno e a esquerda do PT? O presidente Fernando
Henrique não tem dito sempre que esse também
é seu objetivo e para atingi-lo quer superar logo
e bem o estágio das reformas neoliberais?
Pode haver consenso?
Não. São muitos os capitalismos. Basta comparar
Estados Unidos e Alemanha. São muitas as democracias,
é só ver as diferenças entre a anglo-saxônica,
bipartidária, e as democracias multipartidárias
da Europa e do Brasil. O que se pode esperar é uma
renovação efetiva das idéias sobre
progresso econômico, bem-estar e democracia que leve
todas as forças políticas relevantes a buscar
sua efetivação, ainda que com diferentes gradações.
O povo agradecerá feliz, se isso espantar o mito
que assola as economias capitalistas hoje de que só
pode ter sucesso quem for magro e mau.
Já vivemos
uma revolução na economia. Os critérios
que permitem dar orientação social às
escolhas de políticas públicas estão
defasados e não correspondem à "nova economia".
Em breve, com o barateamento e a popularização
da internet, teremos meios tecnológicos para revolucionar
a política, alterando o escopo da democracia representativa
clássica. Esse debate interessa a todos. Quem sabe
a cúpula européia possa contribuir para incentivar
mais pessoas a entrar nele de boa-fé e com os olhos
no futuro, não no espelho retrovisor. Precisamos
levar mais a sério o fato de que somos fim deste
século e pensar mais no próximo.
Sérgio Abranches é
cientista político
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