Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Tales Alvarenga
A revolta dos deuses

"O problema de Israel começou quando você,
Jeová, escolheu aquele deserto para instalar
a Terra Santa", diz Jesus Cristo. "É um lugar
inóspito. Quando vivi por lá, tive de multiplicar
pão e peixe, através de milagres, para matar
a fome do povo nos meus comícios"

Os deuses estão irados. No universo conhecido há, por estimativa, dez sextilhões de sóis e um número incalculável de planetas. É disso tudo que os deuses têm de cuidar. Ultimamente, um dos planetas, a Terra, tem irritado os deuses.

"Companheiros", diz Deus Pai, que abre a reunião, com uma pomba no ombro esquerdo e Jesus Cristo à sua direita. "Os entes que vivem na Terra sempre exigiram que cuidássemos de cada um de seus problemas pessoais. Agora, querem nos envolver nos problemas de países inteiros. É melhor não estimular essa megalomania."

"Concordo", diz o companheiro Alá. "Muitos da minha gente estão se sacrificando como homens-bomba. Querem atingir os seus seguidores, Jeová, sem saber que aqui em cima nós dois somos amigos."

"Amigos, amigos, negócios à parte", responde Jeová. "Os palestinos são assim: quando damos uma mão, eles querem o braço. Agora, você viu, queriam enterrar Arafat em Jerusalém. Isso nem pensar!"

"Os palestinos têm tanto direito a Jerusalém quanto os judeus", retruca Alá. "Eles estão lá há tanto tempo quanto os seus."

"O problema de Israel começou quando você, Jeová, escolheu aquele deserto para instalar a Terra Santa", diz Jesus Cristo. "Quando vivi por lá, passei a pão e peixe. Tive de multiplicar esses ingredientes através de milagres, para matar a fome do povo nos meus comícios."

"Talvez possamos ceder a Toscana aos palestinos e o Vêneto aos judeus", diz o Espírito Santo. "Mas concordo que precisamos parar de nos intrometer tanto nas brigas da Terra. Você, Jesus, não deveria ter ajudado o George W. Bush a se reeleger nos Estados Unidos com os votos dos cristãos fundamentalistas."

"Não dei um único empurrão!", reage Jesus, ajeitando nervosamente os cabelos com a mão direita.

"Tudo bem, meu Filho, não se exalte", afirma Deus Pai. "O problema é que nos invocam para darmos um jeito no mundo e, agindo ou não, levamos a culpa pelo que dá errado. Admito, o Bush tem seus defeitos. Mas já mandei o papa dizer que eu também sou contra o aborto e o casamento gay. Nesse caso, estou com Bush e não abro. Agora, não tolero a mania desse homem de praticar um unilateralismo absoluto que causa revolta no mundo inteiro."

Shiva, deus indiano, levanta uma questão de ordem: "Unilateralismo? Não podemos continuar a discussão sem explicar à maioria o que é isso".

Fingem que não o estão ouvindo. Não é um deus tão importante.

"Tenho a solução", diz o Espírito Santo. "Vamos recriar a União Soviética com todo o arsenal nuclear. Aí, teremos pelo menos um bilateralismo."

"Mas o planeta pode ser destruído numa guerra santa, quero dizer, guerra atômica!", entusiasma-se Alá.

Espírito Santo: "E não foi isso mesmo que nós planejamos desde o início? O fim do mundo?"

Na quarta-feira passada, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a criação de um sistema de mísseis com bombas nucleares superior ao de qualquer outra potência mundial. Começou a contagem regressiva.

 
 
 
 
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