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Tales
Alvarenga
A revolta dos deuses
"O problema de Israel começou
quando você,
Jeová, escolheu aquele deserto para instalar
a Terra Santa", diz Jesus Cristo. "É um lugar
inóspito. Quando vivi por lá, tive de multiplicar
pão e peixe, através de milagres, para matar
a fome do povo nos meus comícios"
Os deuses estão irados. No universo
conhecido há, por estimativa, dez sextilhões de sóis
e um número incalculável de planetas. É disso
tudo que os deuses têm de cuidar. Ultimamente, um dos planetas,
a Terra, tem irritado os deuses.
"Companheiros", diz Deus Pai, que abre a reunião,
com uma pomba no ombro esquerdo e Jesus Cristo à sua direita.
"Os entes que vivem na Terra sempre exigiram que cuidássemos
de cada um de seus problemas pessoais. Agora, querem nos envolver
nos problemas de países inteiros. É melhor não
estimular essa megalomania."
"Concordo", diz o companheiro Alá.
"Muitos da minha gente estão se sacrificando como homens-bomba.
Querem atingir os seus seguidores, Jeová, sem saber que aqui
em cima nós dois somos amigos."
"Amigos, amigos, negócios à
parte", responde Jeová. "Os palestinos são assim:
quando damos uma mão, eles querem o braço. Agora,
você viu, queriam enterrar Arafat em Jerusalém. Isso
nem pensar!"
"Os palestinos têm tanto direito a Jerusalém
quanto os judeus", retruca Alá. "Eles estão lá
há tanto tempo quanto os seus."
"O problema de Israel começou quando
você, Jeová, escolheu aquele deserto para instalar
a Terra Santa", diz Jesus Cristo. "Quando vivi por lá, passei
a pão e peixe. Tive de multiplicar esses ingredientes através
de milagres, para matar a fome do povo nos meus comícios."
"Talvez possamos ceder a Toscana aos palestinos
e o Vêneto aos judeus", diz o Espírito Santo. "Mas
concordo que precisamos parar de nos intrometer tanto nas brigas
da Terra. Você, Jesus, não deveria ter ajudado o George
W. Bush a se reeleger nos Estados Unidos com os votos dos cristãos
fundamentalistas."
"Não dei um único empurrão!",
reage Jesus, ajeitando nervosamente os cabelos com a mão
direita.
"Tudo bem, meu Filho, não se exalte",
afirma Deus Pai. "O problema é que nos invocam para darmos
um jeito no mundo e, agindo ou não, levamos a culpa pelo
que dá errado. Admito, o Bush tem seus defeitos. Mas já
mandei o papa dizer que eu também sou contra o aborto e o
casamento gay. Nesse caso, estou com Bush e não abro. Agora,
não tolero a mania desse homem de praticar um unilateralismo
absoluto que causa revolta no mundo inteiro."
Shiva, deus indiano, levanta uma questão
de ordem: "Unilateralismo? Não podemos continuar a discussão
sem explicar à maioria o que é isso".
Fingem que não o estão ouvindo.
Não é um deus tão importante.
"Tenho a solução", diz o Espírito
Santo. "Vamos recriar a União Soviética com todo o
arsenal nuclear. Aí, teremos pelo menos um bilateralismo."
"Mas o planeta pode ser destruído numa
guerra santa, quero dizer, guerra atômica!", entusiasma-se
Alá.
Espírito Santo: "E não foi isso
mesmo que nós planejamos desde o início? O fim do
mundo?"
Na quarta-feira passada, o presidente da Rússia,
Vladimir Putin, anunciou a criação de um sistema de
mísseis com bombas nucleares superior ao de qualquer outra
potência mundial. Começou a contagem regressiva.
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