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Cinema
Tom Hanks esteve aqui
O Expresso Polar
quer começar
uma revolução: atores digitais
em tudo iguais aos verdadeiros

Isabela Boscov
Divulgação
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| O menino e o condutor rumam para o Pólo
Norte: nem um rolo de filme foi usado |
Ao chegar à idade em que começa
a duvidar de Papai Noel, um menino ganha uma última chance
de manter-se na inocência: na noite da véspera de Natal,
é convidado a entrar num trem que o levará, junto
com outras crianças no mesmo dilema, ao Pólo Norte,
onde o velhinho e seus elfos preparam os presentes. A história
que serve de base a O Expresso Polar (The Polar Express,
Estados Unidos, 2004) não tem, como se vê, nada de
revolucionário. Adaptada de um livro infantil publicado em
1985 pelo americano Chris Van Allsburg, ela é, primordialmente,
uma celebração à moda antiga dos valores natalinos,
como altruísmo e generosidade. Já o filme que estréia
nesta sexta-feira no país tem, e muito, de inovador. Partindo
de tecnologias testadas nos recentíssimos episódios
finais de O Senhor dos Anéis e Matrix (e, portanto,
ainda nem bem assimiladas pelo grosso da indústria de cinema),
O Expresso Polar só tocou o celulóide no momento
em que já se encontrava pronto para a copiagem: embora seja
estrelado por Tom Hanks (em cinco papéis diferentes, do menino
ao condutor do trem) e outros atores de carne e osso, o filme é
o primeiro a ser concebido e realizado inteiramente num ambiente
virtual.
O único set (se é que se pode
chamar assim) construído para O Expresso Polar foi
um domo de cerca de 3 metros quadrados de chão. Nas paredes
internas dessa estrutura, instalaram-se 72 câmeras. Mas não
daquelas em que corre filme, e sim de um tipo que emite luz infravermelha
e informa continuamente, a um computador, a posição
dos obstáculos que a luz encontra no caso, as centenas
de sensores aplicados no traje de Hanks e também em seu rosto.
Ou seja: à medida que Hanks se movia, ia-se criando uma versão
digital de sua expressão corporal e fisionômica. Essa
"planta" viva e tridimensional é o que serviu de base aos
animadores para dar a forma final aos personagens que eram
então inseridos nos cenários, também totalmente
virtuais. A versão animada de Tom Hanks é plenamente
reconhecível, do sorriso à postura e ao arquear de
sobrancelhas, mas ela chegou a O Expresso Polar sem que o
diretor Robert Zemeckis tenha rodado um pé de filme sequer.
Fotos divulgação
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gação
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EU ERA ASSIM...
Num domo banhado de infravermelho, Hanks faz a cena.
Sensores no traje e em seu rosto mandam para o computador uma
versão digital da sua atuação |
...E FIQUEI ASSIM
Os animadores usam essa "planta" virtual para
dar a forma final ao personagem, mantendo a expressão
corporal e fisionômica do ator |
Qual a vantagem da utilização
maciça dessa técnica, batizada de "captura de desempenho",
é algo que ainda não está claro e O
Expresso Polar mais acirra a dúvida do que a elucida.
O diretor Zemeckis, sempre um entusiasta das novidades tecnológicas
(são dele, por exemplo, Uma Cilada para Roger Rabbit
e Forrest Gump), alega ter deflagrado uma revolução
na indústria cinematográfica e apontado o caminho
que leva a uma espécie de Santo Graal: atores digitais indistinguíveis
dos verdadeiros. No novo cinema virtual que se desenha, não
há questão mais controvertida do que essa. A idéia
de que um diretor possa dispensar os atores ou burilar a posteriori
sua performance (e, quem sabe, desfigurá-la) apavora a categoria.
Mas não só ela. Mesmo cineastas conhecidos por seu
espírito inovador, como Steven Spielberg, acreditam que o
imprevisto, a colaboração e o celulóide são
em grande medida os responsáveis por aqueles momentos fortuitos
em que o cinema se torna algo maior. Eliminar essas variáveis
não seria, assim, um progresso, mas um atalho para um cinema
ainda mais despersonalizado.
Não é o caso, claro, de abdicar
de uma tecnologia que mal teve tempo de dizer a que veio. Mas o
que Zemeckis fez foi provar que essa é uma técnica
viável em larga escala e não aprimorá-la
artisticamente. O Gollum de O Senhor dos Anéis, criado
com uma versão mais artesanal da captura de desempenho, ainda
deixa muito para trás os personagens de O Expresso Polar,
cujo olhar por vezes esgazeado (ninguém descobriu como colocar
sensores na retina dos atores) dá a eles o aspecto incômodo
de manequins. É uma falha pequena diante do lirismo e do
escopo técnico de O Expresso Polar, mas decisiva.
Não só porque é a barreira que separa esse
cinema do fotorrealismo que ele almeja, mas porque ajuda a esclarecer
de uma vez por todas uma distorção de que o pessoal
da computação gráfica há muito se queixa,
e com justiça: o fato de que eles costumam ser vistos como
pilotos de mouse, e não como os artistas talentosos que são
além de atores versáteis, que tiram de seu
repertório pessoal a riqueza de seus personagens. Para maiores
esclarecimentos, basta consultar Buzz Lightyear, Nemo, Shrek ou,
em breve, os Incríveis.
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