|
|
Música
A síndrome da
carne-de-vaca
Nervoso porque sua banda predileta
galgou as paradas de sucesso? Você
pode ser mais uma vítima desse distúrbio
que aflige os roqueiros

Sérgio Martins
Divulgação
 |
| U2: para os fãs xiitas, nem mesmo a
volta às raízes no novo disco os salvará
do inferno |
Em 24 anos de carreira, os irlandeses do U2
passaram de grupo punk de garagem ao posto de megabanda que lota
estádios pelo planeta afora. Com essa trajetória,
tornaram-se o exemplo máximo entre os grupos que alimentam
a síndrome da carne-de-vaca, um distúrbio que acomete
os fãs de rock. Trata-se daquela angústia sofrida
pelo admirador de primeira hora quando o artista que ele cultua
se torna popular. As vítimas desenvolvem uma relação
de posse com seus ídolos obscuros e extraem prazer da idéia
de estar entre os poucos que os conhecem. Tendem a se reunir em
confrarias de iniciados, e assim se diferenciam dos comuns mortais
os "por fora". No caso do U2 e outros artistas dos anos 80,
é fácil identificá-los. São pessoas
na faixa dos 35 aos 40 anos que descobriram os primeiros discos
do conjunto numa época em que era preciso importá-los
e ainda no velho e bom vinil. Esses fãs se compraziam
em entoar as letras engajadas da banda, ao mesmo tempo que ironizavam
quem nunca ouvira falar "naquele tal Bono Voz" (sic). Tudo mudou
a partir do momento em que o U2 estourou nas paradas ou seja,
tornou-se carne-de-vaca. De uma hora para outra, os fãs renhidos
passaram a desprezar o grupo. Uns acusaram-no de se tornar comercial;
outros, preferiram uma atitude blasé e começaram a
ignorá-lo solenemente. Todos têm horror em saber que
o U2 já vendeu 100 milhões de discos e lucrou 62 milhões
de dólares somente em sua última turnê. Nem
mesmo o fato de os roqueiros irlandeses buscarem uma volta às
raízes em seu novo CD, How to Dismantle an Atomic Bomb,
que chega às lojas nesta semana, diminui seu ressentimento.
É tudo armação, dizem eles.
Roberto Amadeo
 |
Os baladeiros
Os Red Hot Chili Peppers eram
adorados pelo som potente. Depois de estourar com a balada Under
the Bridge, passaram a ser vistos como banda para patricinha
|
Há formas simples de detectar se um roqueiro foi acometido
pela síndrome. Um dos primeiros sintomas é a incredulidade
ao saber que sua banda predileta está tocando nas rádios
e que seus clipes viraram sucesso na TV. Daí para a depressão
ao perceber que aquela vizinha patricinha comprou o disco e sabe
as letras de cor é um passo. Pior que isso, só mesmo
se os ídolos se transformarem em símbolos sexuais
da tal adolescente. Ou pecado supremo fizerem sucesso
com uma balada na trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Por
perpetrarem tudo isso, os americanos do Red Hot Chili Peppers provocaram
ataques de nervos em muitos fãs nos anos 90. Em estágios
mais avançados, a síndrome desencadeia sintomas graves.
É clássico, por exemplo, vociferar que sua ex-banda
predileta se "vendeu ao sistema". Foi o que aconteceu com o quinteto
paulistano CPM 22, que começou tocando nos circuitos do rock
alternativo e, depois de ser contratado por uma grande gravadora,
passou a ser hostilizado pelos admiradores de primeira hora. "Os
caras fazem sinais obscenos para a gente", diz o baterista Ricardo
Japinha. Num estágio terminal, a síndrome leva o roqueiro
à alienação. Ele chega a vender os discos dos
antigos ídolos ouvi-los como antes, nunca mais. Até
que surge a próxima banda desconhecida para idolatrar.
Tiago Queiroz/AE
 |
A próxima
vítima
Musa dos alternativos, a inglesa PJ Harvey fez sucesso
em seus recentes shows no Brasil. Foi o que bastou para causar
apreensão nos fãs de primeira hora |
Mesmo nos dias de hoje, quando a mera consulta
a um site na internet permite que qualquer um tenha acesso às
últimas novidades do rock alternativo, a síndrome
da carne-de-vaca persiste. Entre os candidatos a próximas
vítimas estão os fãs aguerridos da cantora
inglesa PJ Harvey. Com suas letras lancinantes e suas canções
sombrias, a obra dela parecia um refúgio seguro para os nerds
do rock. Recentemente, eles descobriram que não era bem assim.
Durante seu show no Tim Festival, em São Paulo, a própria
PJ se assustou ao ver que o público batia palmas no ritmo
das músicas e cantava suas letras de cor. Com essa súbita
popularidade, já há quem a acuse de populista
ou, pior, algo como uma Marisa Monte do rock alternativo.
Paulo Vitale
 |
Os vendidos
O CPM 22 era habitué dos buracos da cena roqueira
de São Paulo. Começou a ser hostilizado ao ingressar
numa grande gravadora e aparecer em programas populares de TV
|
Um aspecto curioso da síndrome da carne-de-vaca é
que muitas vezes o patrulhamento se soma à autocensura por
parte dos artistas não raro, eles próprios
tão xiitas quanto seus fãs mais exigentes. É
o caso dos cariocas do Los Hermanos. O sucesso do hit Anna Júlia,
que puxou a vendagem de 300 000 discos logo na estréia
do grupo, deixou seus integrantes irritados. Eles, que cultivavam
a imagem de banda cabeça, decidiram então rechear
seu segundo CD de canções com mais de oito minutos
de duração e sonoridade esquisita tinha até
solo de tuba. A idéia não vingou, já que o
disco teve de ser remixado para se tornar mais palatável,
por exigência da gravadora. Ao produzir seu novo disco, o
U2 parece ter-se visto diante de uma crise de credibilidade semelhante.
A banda gravou em sua Irlanda natal, com o mesmo produtor de seu
início de carreira, e procurou recuperar a antiga sonoridade.
O resultado pode até estar à altura do currículo
do quarteto. Para os fãs renegados, nada importa. Uma vez
carne-de-vaca, sempre carne-de-vaca.
|