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Cidade
Berlim dividida
no amor
Quinze anos depois da queda
do Muro, os alemães continuam
separados até no casamento
AP
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| O muro sendo derrubado, em 1989: euforia deu
lugar à frieza |
Em Berlim, a Guerra Fria deixou de ser um conflito
ideológico para se tornar uma questão de relacionamentos
amorosos. Os quinze anos que se passaram desde a queda do muro que
dividia a cidade em um leste comunista e um oeste capitalista não
foram suficientes para fazer os berlinenses se unirem totalmente
nem como povo nem como casais. Um levantamento recente mostra
que apenas 2% dos casamentos celebrados em Berlim são entre
alemães do Leste e do Oeste. Em qualquer outro município
com o mesmo tamanho e a mesma infra-estrutura de transporte, o normal
seria que pelo menos um terço das uniões civis ocorresse
entre pessoas de regiões opostas da cidade. Não é
a geografia que afasta os "ossis" (as pessoas nascidas no território
da ex-Alemanha Oriental) dos "wessis" (os alemães ocidentais).
A explicação para a frieza amorosa está no
preconceito mútuo, no desnível socioeconômico
e em quarenta anos de história e estilo de vida diferentes.
A separação é tão grande que os berlinenses
se apaixonam mais por pessoas de fora do país do que por
seus conterrâneos do outro lado da cidade: 24% dos casamentos
em Berlim são entre alemães e estrangeiros.
A Alemanha foi dividida em duas em 1949. Três
anos depois, foram fechadas as fronteiras entre a parte oriental,
controlada pela União Soviética, e a parte ocidental,
ocupada pelas forças aliadas. O muro que separava os dois
lados de Berlim começou a ser construído em 1961 pelo
governo da Alemanha comunista. Quando essa divisão artificial
caiu, em novembro de 1989, houve uma onda de euforia. Acreditava-se
que o Ocidente rico levaria prosperidade ao Oriente pobre. O governo
alemão investiu, desde 1991, o equivalente a 1 trilhão
de dólares no desenvolvimento dos estados da antiga Alemanha
Oriental. As desigualdades não desapareceram. O nível
de desemprego é duas vezes maior no Oriente. Desde a reunificação,
1,5 milhão de ossis migraram para a parte rica da Alemanha.
Aos poucos, a hospitalidade dos alemães ocidentais foi dando
lugar ao desprezo e à aversão aos conterrâneos
do Leste. Isso se refletiu nas relações amorosas.
E, no que se refere ao amor, ossis e wessis estão cada vez
mais distantes. Em Berlim, a proporção de casamentos
entre eles está diminuindo a cada ano, depois de atingir
o auge de 3,7% do total de matrimônios em 1995. Homens e mulheres
do Leste não se interessam por pretendentes do Oeste porque
os consideram muito materialistas, autoritários, arrogantes
e perfeccionistas. Já os alemães do Oeste acham que
as pessoas que cresceram na Alemanha comunista são aborrecidas,
malvestidas, preguiçosas e nostálgicas. Talvez seja
necessário esperar outros quinze anos para esses preconceitos
desaparecerem. É o tempo que levará para que os jovens
que nasceram na Alemanha reunificada comecem a se casar.
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