Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Cidade
Berlim dividida no amor

Quinze anos depois da queda
do Muro, os alemães continuam
separados – até no casamento

 
AP
O muro sendo derrubado, em 1989: euforia deu lugar à frieza

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Em Dia: União da Alemanha

Em Berlim, a Guerra Fria deixou de ser um conflito ideológico para se tornar uma questão de relacionamentos amorosos. Os quinze anos que se passaram desde a queda do muro que dividia a cidade em um leste comunista e um oeste capitalista não foram suficientes para fazer os berlinenses se unirem totalmente – nem como povo nem como casais. Um levantamento recente mostra que apenas 2% dos casamentos celebrados em Berlim são entre alemães do Leste e do Oeste. Em qualquer outro município com o mesmo tamanho e a mesma infra-estrutura de transporte, o normal seria que pelo menos um terço das uniões civis ocorresse entre pessoas de regiões opostas da cidade. Não é a geografia que afasta os "ossis" (as pessoas nascidas no território da ex-Alemanha Oriental) dos "wessis" (os alemães ocidentais). A explicação para a frieza amorosa está no preconceito mútuo, no desnível socioeconômico e em quarenta anos de história e estilo de vida diferentes. A separação é tão grande que os berlinenses se apaixonam mais por pessoas de fora do país do que por seus conterrâneos do outro lado da cidade: 24% dos casamentos em Berlim são entre alemães e estrangeiros.

A Alemanha foi dividida em duas em 1949. Três anos depois, foram fechadas as fronteiras entre a parte oriental, controlada pela União Soviética, e a parte ocidental, ocupada pelas forças aliadas. O muro que separava os dois lados de Berlim começou a ser construído em 1961 pelo governo da Alemanha comunista. Quando essa divisão artificial caiu, em novembro de 1989, houve uma onda de euforia. Acreditava-se que o Ocidente rico levaria prosperidade ao Oriente pobre. O governo alemão investiu, desde 1991, o equivalente a 1 trilhão de dólares no desenvolvimento dos estados da antiga Alemanha Oriental. As desigualdades não desapareceram. O nível de desemprego é duas vezes maior no Oriente. Desde a reunificação, 1,5 milhão de ossis migraram para a parte rica da Alemanha. Aos poucos, a hospitalidade dos alemães ocidentais foi dando lugar ao desprezo e à aversão aos conterrâneos do Leste. Isso se refletiu nas relações amorosas. E, no que se refere ao amor, ossis e wessis estão cada vez mais distantes. Em Berlim, a proporção de casamentos entre eles está diminuindo a cada ano, depois de atingir o auge de 3,7% do total de matrimônios em 1995. Homens e mulheres do Leste não se interessam por pretendentes do Oeste porque os consideram muito materialistas, autoritários, arrogantes e perfeccionistas. Já os alemães do Oeste acham que as pessoas que cresceram na Alemanha comunista são aborrecidas, malvestidas, preguiçosas e nostálgicas. Talvez seja necessário esperar outros quinze anos para esses preconceitos desaparecerem. É o tempo que levará para que os jovens que nasceram na Alemanha reunificada comecem a se casar.

 
 
 
 
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