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Fotografia
O negro como nunca se viu
Livro reúne o maior levantamento já
realizado de imagens dos descendentes
de africanos no Brasil do século XIX

Ronaldo França
Coleção G. Ermakoff
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Alberto Henshel/G. Ermakoff
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| Flagrante de uma família
inter-racial, captado doze anos depois do fim da escravidão
(à esq.), e retrato de uma babá com criança
branca feito em Pernambuco em 1874 (à dir.): cenas
da vida social do negro no país |
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A história dos negros no Brasil está
fartamente documentada em livros e gravuras. Agora, é enriquecida
pelo mais completo levantamento fotográfico já realizado
sobre o tema. Com lançamento marcado para esta semana, o
livro O Negro na Fotografia Brasileira do Século XIX
(G. Ermakoff Casa Editorial; 304 páginas; 130 reais) é
resultado de um estupendo trabalho de garimpo do colecionador George
Ermakoff. Durante um ano, ele recolheu material em acervos no Brasil,
França, Alemanha e Estados Unidos. Reuniu 340 imagens, cerca
de 160 inéditas, feitas por 24 fotógrafos entre
os quais figuras consagradas dos primórdios desse ofício
no país, como Marc Ferrez, Augusto Stahl, Militão
de Azevedo e Georges Leuzinger. A obra, que cobre do período
anterior à Lei Áurea até os anos imediatamente
posteriores a ela, faz um apanhado de cenas cotidianas e retratos
de estúdio que vão além das tradicionais imagens
de negros trabalhando. Trazem à tona outras nuances de sua
vida social. Numa foto feita pelo alemão Alberto Henschel
em 1870, crianças negras surgem em pose típica dos
filhos dos brancos da época. Outro tesouro é a imagem
de uma família inter-racial captada doze anos após
o fim da escravidão. Ela é um raro achado na iconografia
do século XIX e encerra um exemplo de superação
do preconceito.
Schomburg center for researsh in black culture
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Alberto Henshel/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo
do Inst. Moreira Salles
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| Crianças negras em pose
típica dos filhos dos brancos da época, de autoria
do alemão Alberto Henschel (à dir.), e
imagem de escravos na Bahia (à esq.): interesse
pelo negro na Europa gerou mercado lucrativo para os fotógrafos
do século XIX |
As fotos de negros compunham uma variante lucrativa
do então florescente mercado de retratos. Os trópicos
despertavam imensa curiosidade por sua gente, fauna, flora e costumes.
Isso já havia sido explorado antes, como demonstram as gravuras
de Debret ou Rugendas, para citar os exemplos mais conhecidos. Mas,
com a popularização da fotografia, esse filão
explodiu, criando-se um rentável comércio de suvenires.
Na Europa de então, poucos eram os que já tinham visto
uma pessoa negra. Havia enorme curiosidade sobre como eram esses
"tipos exóticos". Era ainda menor o número dos que
conheciam os negros brasileiros, o que fazia dessas fotos um negócio
e tanto. Entre os fotógrafos que mais se destacaram no tema
todos apresentados no livro , o mais famoso é
Christiano Junior, português que chegou ao Brasil antes de
1862. Em seus anúncios em jornais, ele oferecia "variada
coleção de costumes e tipos de pretos" e propagandeava:
"Coisa muito própria para quem se retira para a Europa".
Embora seja o mais conhecido, não era o mais ativo. Durante
a pesquisa Ermakoff, um dos maiores colecionadores de fotografias
brasileiras do século XIX, surpreendeu-se com a extensão
da obra de Henschel, bem mais abrangente.
O fato é que se tratava de um negócio
tão lucrativo que avançou pelo início do século
XX, quase duas décadas após o fim da escravidão.
O exotismo não constituía o único atrativo.
Era vívido na Europa o debate pretensamente científico
em torno de teorias raciais. Segundo as teses em voga na ocasião,
haveria uma hierarquia evolutiva entre as raças. São
vários os exemplos de fotos feitas para estudos de antropometria,
técnica de medição do corpo que embasava diversos
trabalhos que propalavam a superioridade da raça branca.
"As fotos desse período apresentam uma ambigüidade inquietante.
Atendiam à curiosidade e ao exotismo, mas estavam imbuídas
de uma ideologia racista", diz o pesquisador da fotografia Boris
Kossoy, professor da Universidade de São Paulo. Em sua maioria,
os fotógrafos que retrataram os negros brasileiros eram viajantes
europeus. "Eram justamente os que mais buscavam conhecer essa diferença
racial", afirma o estudioso.
Ao levantamento fotográfico Ermakoff
adicionou uma pesquisa de informações históricas
que compõem um painel bastante rico do período. Podem-se
encontrar ali, por exemplo, pinceladas da participação
dos próprios negros na escravidão. Há a foto
de um príncipe africano no Brasil, no que se supõe
tratar-se de uma visita comercial. Boa parte dos escravos trazidos
para cá era aprisionada por africanos de etnias rivais. Há
também um relato do poeta Olavo Bilac sobre um casal de negros
forros, integrantes da "imensa colônia de africanos livres
e ricos" que havia no Rio de Janeiro nos idos de 1870 o adjetivo
"imensa" fica por conta do exagero de Bilac. Donos de um comércio
de aves, "sió Benedito e siá Belmira", sempre luxuosamente
vestidos, reproduziam sobre seus quarenta escravos o comportamento
violento dos senhores brancos. Há ainda pérolas como
a que se imagina ser a mais antiga fotografia de um negro já
produzida no mundo, feita em Moçambique, em 1838, pelo francês
E. Thiesson.
A seleção das fotos levou em
conta dois critérios: a beleza e a quantidade de informações
sobre os costumes da época que podem fornecer. Nesse sentido,
o que se apresenta é um panorama que ajuda a entender como
era a vida dos negros no Brasil. Para reunir esse material precioso,
foi preciso vencer obstáculos. No Peabody Museum of Archaeology
and Ethnology, instituição americana ligada à
Universidade Harvard, foram necessários dias de negociação
para a liberação das fotografias. Uma das alegações
é que muitas apresentavam cenas de nu frontal. Mas havia,
além disso, o fato óbvio e incômodo de que muitas
delas foram feitas contra a vontade dos fotografados. "Foi preciso
convencê-los da importância dessas imagens para a melhor
compreensão do que foi a escravidão no Brasil", conta
Ermakoff.
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