Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Fotografia
O negro como nunca se viu

Livro reúne o maior levantamento já
realizado de imagens dos descendentes
de africanos no Brasil do século XIX


Ronaldo França


Coleção G. Ermakoff
Alberto Henshel/G. Ermakoff
Flagrante de uma família inter-racial, captado doze anos depois do fim da escravidão (à esq.), e retrato de uma babá com criança branca feito em Pernambuco em 1874 (à dir.): cenas da vida social do negro no país

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Galeria de fotos

A história dos negros no Brasil está fartamente documentada em livros e gravuras. Agora, é enriquecida pelo mais completo levantamento fotográfico já realizado sobre o tema. Com lançamento marcado para esta semana, o livro O Negro na Fotografia Brasileira do Século XIX (G. Ermakoff Casa Editorial; 304 páginas; 130 reais) é resultado de um estupendo trabalho de garimpo do colecionador George Ermakoff. Durante um ano, ele recolheu material em acervos no Brasil, França, Alemanha e Estados Unidos. Reuniu 340 imagens, cerca de 160 inéditas, feitas por 24 fotógrafos – entre os quais figuras consagradas dos primórdios desse ofício no país, como Marc Ferrez, Augusto Stahl, Militão de Azevedo e Georges Leuzinger. A obra, que cobre do período anterior à Lei Áurea até os anos imediatamente posteriores a ela, faz um apanhado de cenas cotidianas e retratos de estúdio que vão além das tradicionais imagens de negros trabalhando. Trazem à tona outras nuances de sua vida social. Numa foto feita pelo alemão Alberto Henschel em 1870, crianças negras surgem em pose típica dos filhos dos brancos da época. Outro tesouro é a imagem de uma família inter-racial captada doze anos após o fim da escravidão. Ela é um raro achado na iconografia do século XIX e encerra um exemplo de superação do preconceito.


Schomburg center for researsh in black culture
Alberto Henshel/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo do Inst. Moreira Salles
Crianças negras em pose típica dos filhos dos brancos da época, de autoria do alemão Alberto Henschel (à dir.), e imagem de escravos na Bahia (à esq.): interesse pelo negro na Europa gerou mercado lucrativo para os fotógrafos do século XIX

As fotos de negros compunham uma variante lucrativa do então florescente mercado de retratos. Os trópicos despertavam imensa curiosidade por sua gente, fauna, flora e costumes. Isso já havia sido explorado antes, como demonstram as gravuras de Debret ou Rugendas, para citar os exemplos mais conhecidos. Mas, com a popularização da fotografia, esse filão explodiu, criando-se um rentável comércio de suvenires. Na Europa de então, poucos eram os que já tinham visto uma pessoa negra. Havia enorme curiosidade sobre como eram esses "tipos exóticos". Era ainda menor o número dos que conheciam os negros brasileiros, o que fazia dessas fotos um negócio e tanto. Entre os fotógrafos que mais se destacaram no tema – todos apresentados no livro –, o mais famoso é Christiano Junior, português que chegou ao Brasil antes de 1862. Em seus anúncios em jornais, ele oferecia "variada coleção de costumes e tipos de pretos" e propagandeava: "Coisa muito própria para quem se retira para a Europa". Embora seja o mais conhecido, não era o mais ativo. Durante a pesquisa Ermakoff, um dos maiores colecionadores de fotografias brasileiras do século XIX, surpreendeu-se com a extensão da obra de Henschel, bem mais abrangente.

O fato é que se tratava de um negócio tão lucrativo que avançou pelo início do século XX, quase duas décadas após o fim da escravidão. O exotismo não constituía o único atrativo. Era vívido na Europa o debate pretensamente científico em torno de teorias raciais. Segundo as teses em voga na ocasião, haveria uma hierarquia evolutiva entre as raças. São vários os exemplos de fotos feitas para estudos de antropometria, técnica de medição do corpo que embasava diversos trabalhos que propalavam a superioridade da raça branca. "As fotos desse período apresentam uma ambigüidade inquietante. Atendiam à curiosidade e ao exotismo, mas estavam imbuídas de uma ideologia racista", diz o pesquisador da fotografia Boris Kossoy, professor da Universidade de São Paulo. Em sua maioria, os fotógrafos que retrataram os negros brasileiros eram viajantes europeus. "Eram justamente os que mais buscavam conhecer essa diferença racial", afirma o estudioso.

Ao levantamento fotográfico Ermakoff adicionou uma pesquisa de informações históricas que compõem um painel bastante rico do período. Podem-se encontrar ali, por exemplo, pinceladas da participação dos próprios negros na escravidão. Há a foto de um príncipe africano no Brasil, no que se supõe tratar-se de uma visita comercial. Boa parte dos escravos trazidos para cá era aprisionada por africanos de etnias rivais. Há também um relato do poeta Olavo Bilac sobre um casal de negros forros, integrantes da "imensa colônia de africanos livres e ricos" que havia no Rio de Janeiro nos idos de 1870 – o adjetivo "imensa" fica por conta do exagero de Bilac. Donos de um comércio de aves, "sió Benedito e siá Belmira", sempre luxuosamente vestidos, reproduziam sobre seus quarenta escravos o comportamento violento dos senhores brancos. Há ainda pérolas como a que se imagina ser a mais antiga fotografia de um negro já produzida no mundo, feita em Moçambique, em 1838, pelo francês E. Thiesson.

A seleção das fotos levou em conta dois critérios: a beleza e a quantidade de informações sobre os costumes da época que podem fornecer. Nesse sentido, o que se apresenta é um panorama que ajuda a entender como era a vida dos negros no Brasil. Para reunir esse material precioso, foi preciso vencer obstáculos. No Peabody Museum of Archaeology and Ethnology, instituição americana ligada à Universidade Harvard, foram necessários dias de negociação para a liberação das fotografias. Uma das alegações é que muitas apresentavam cenas de nu frontal. Mas havia, além disso, o fato óbvio e incômodo de que muitas delas foram feitas contra a vontade dos fotografados. "Foi preciso convencê-los da importância dessas imagens para a melhor compreensão do que foi a escravidão no Brasil", conta Ermakoff.

 
 
 
 
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