Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Bancos
Os pecados do Santos

O Banco Santos, de Edemar
Cid Ferreira, sofre intervenção
e deixa um rastro de irregularidades


Marcio Aith e Felipe Patury


Lia Lubambo

Não fosse pela alta exposição social de seu controlador, Edemar Cid Ferreira, a intervenção do Banco Central (BC) no Banco Santos talvez tivesse ocorrido em um tom menor. O economista Edemar Cid Ferreira era até pouco tempo atrás mais conhecido por ações de impacto na área cultural do que no mundo das finanças. Edemar presidiu a Fundação Bienal de São Paulo entre 1993 e 1997 e foi responsável por trazer exposições de qualidade ao país, como a que reuniu os Guerreiros de Xi'an, feitos de terracota há mais de 2.000 anos, e a retrospectiva com obras de Pablo Picasso. O banco de Ferreira é modesto. Ele aparece apenas no 21º lugar no ranking das casas bancárias brasileiras e está inserido em um sistema financeiro que passa por um momento de especial prosperidade e estabilidade.

Bastaram alguns dias de trabalho dos interventores na luxuosa sede do Banco Santos, em São Paulo, para que surgisse um perfil da instituição marcado por gritantes irregularidades. Empréstimos podres, desvio de recursos para uma rede de companhias obscuras ou sediadas em paraísos fiscais e operações financeiras que nunca saíram da contabilidade para o mundo real estão na raiz dos verdadeiros problemas que obrigaram a autoridade monetária a interromper a operação do Banco Santos na noite de sexta-feira 12 de novembro. A intervenção foi decidida dias depois de o BC constatar que existia o risco de o banco não honrar, na semana seguinte, parte dos compromissos com cerca de 500 empresas, prefeituras e fundos de pensão que compraram 1,8 bilhão de reais em títulos do banco. No jargão financeiro essa situação é chamada de iliquidez.


Jonne Roriz/AE
A MANSÃO BLINDADA CONTRA OS CREDORES
A mansão de Edemar Cid Ferreira no bairro do Morumbi, em São Paulo, não está em nome dele. Pertence a empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá. Avaliada em cerca de 50 milhões de reais, tem mais de 7 500 metros quadrados, heliponto e uma extensa galeria de arte. Projetada pelo arquiteto Ruy Ohtake, tem cinco andares e gerou a ira dos vizinhos, numa briga que envolveu dezenove processos na Justiça

Havia tempos o Banco Central vinha insistindo com a instituição de Edemar Cid Ferreira para que provisionasse cerca de 700 milhões de reais de empréstimos feitos a sete empresas que não davam mostras de ser capazes de pagá-los. Em média, elas estavam 180 dias em atraso com suas obrigações. Provisionar, no jargão financeiro, é destinar uma quantia do próprio patrimônio do banco para cobrir um prejuízo certo, de modo a não comprometer a saúde da instituição. Isso não foi feito. Ao analisarem agora os empréstimos não pagos e não provisionados, os fiscais do Banco Central depararam com uma fragilidade ainda mais preocupante. Chamaram atenção especial empréstimos feitos a empresas desconhecidas do mercado com os nomes de Ômega, Delta, Creditar e Quality. Somados, esses créditos chegavam a 200 milhões de reais. No cadastro fornecido pelo Banco Santos ao BC, uma delas era apresentada como sendo uma multinacional muito conhecida. Até o número de registro da multinacional no imposto de renda, o CNPJ, foi dado ao BC como sendo da credora do Banco Santos. Bastou um telefonema para que ficasse claro que a empresa beneficiada pelo empréstimo do Banco Santos não era uma multinacional. Era uma empresa sem atividade conhecida no mercado.

O BC descobriu estranhas coincidências. Consultados informalmente, alguns dos clientes disseram aos fiscais do BC que o Banco Santos colocava como condição para conceder empréstimos uma reciprocidade. Os clientes eram obrigados a reinvestir em empresas indicadas pelo próprio Edemar Cid Ferreira parte do dinheiro que pegavam emprestado. Um exemplo desse procedimento ocorreu com a CCE, fabricante de componentes eletrônicos. A CCE tem uma dívida de 43 milhões de reais com o Banco Santos, mas sustenta ter sido obrigada a caucionar 21 milhões desse total em títulos de empresas ligadas a Edemar. "Não negamos que temos uma dívida, mas o valor não é o apontado pelo Banco Santos", disse a VEJA Synésio Batista da Costa, vice-presidente de relações institucionais da empresa.


Claudio Rossi
Divulgação
Edemar Cid Ferreira: sua coleção inclui raridades como originais de Maquiavel. O banqueiro foi o organizador da exposição Guerreiros de Xi'an, em São Paulo, no ano passado

As empresas Ômega, Delta, Creditar e Quality ainda chamariam a atenção dos fiscais do governo por outras particularidades. Eles descobriram que elas mudam de nome freqüentemente e têm, entre representantes oficiais de seus sócios, pessoas publicamente ligadas a Edemar Cid Ferreira. Um dos sócios da Quality, por exemplo, é uma empresa chamada Duke of Wales Holdings, que, apesar do nome britânico, tem sede no município de Santana de Parnaíba, em São Paulo. No registro da Junta Comercial aparece como procurador da Duke of Wales o editor de livros Pedro Paulo de Sena Madureira, amigo de Edemar Cid Ferreira e a quem se atribui o fato de ter despertado no banqueiro o amor pelas artes e pela coleção de objetos raros. Ouvido por VEJA, Madureira afirma que sua relação com Edemar é "absolutamente cultural". Diz Madureira: "Se meu nome está lá, está constatado. Não tenho ligação nenhuma com o Banco Santos, não vivo disso e não recebo salário. Minha relação com Edemar é de confiança e de amizade. Se tivesse de começar do zero, faria tudo de novo".

Mas a Duke of Wales nem sempre teve esse nome. Foi com sua denominação anterior, Sanvest Participações S.A., que ela recebeu recursos substanciais de empresas que pegavam empréstimos do Banco Santos.

Uma das empresas a injetar recursos na Sanvest como forma de obter empréstimos no Santos foi a Caoa, a maior revendedora Ford no Brasil e representante no país das montadoras Subaru e Hyundai. Segundo os registros do Banco Santos, a Caoa teria recebido empréstimos de 180 milhões de reais. Ao ser informada desse valor, a empresa reagiu. O advogado da Caoa, Fábio de Oliveira Luchesi, afirma que vai entrar na Justiça contra o Banco Santos pela simples razão de que seu cliente reconhece ter tido uma dívida de apenas 20 milhões de reais com o banco de Edemar Cid Ferreira. A dívida teria sido quitada integralmente há seis meses. Luchesi disse a VEJA que a Caoa foi compelida pelo banco a tomar empréstimos com valores acima do que precisava. Num desses casos, a empresa pretendia receber 2 milhões de reais. Mas terminou captando 10 milhões. A diferença, 8 milhões de reais, foi usada para a compra de debêntures. Houve várias operações como essa, sendo que duas das maiores beneficiadas foram a Sanvest e a Santospar. Luchesi acredita que parte do dinheiro foi parar no Bank of Europe, com sede no Caribe. A Sanvest e a Santospar não foram objeto da intervenção decretada pelo Banco Central. Os fiscais do BC suspeitam que ambas sejam controladas por Edemar Cid Ferreira. Acusa Luchesi: "No mesmo momento em que meu cliente recebeu o empréstimo do Banco Santos, assinou um documento paralelo e uma procuração repassando a gestão do investimento para o Banco Santos, que tinha plenos poderes para administrá-la".

Por que razão alguém aceitaria um empréstimo do qual só embolsa 20% é um mistério para muita gente. Jairo Saddi, professor do Ibmec e advogado contratado por um grupo de empresas tomadoras de empréstimos do Banco Santos, sustenta que suas clientes "foram vítimas". Diz Saddi: "Elas conseguiam empréstimo apenas sob a condição de usar parte do dinheiro para comprar debêntures de empresas ligadas ao Banco Santos". Ainda assim, fica a indagação: por que as empresas aceitaram se submeter a tais condições se se sentiam "vítimas"? Saddi vê dois motivos. Primeiro, algumas das empresas não tinham facilidade de obter no mercado crédito por outras vias. Segundo, elas se sentiram atraídas pelas promessas de retorno generoso do investimento. "No caso da Caoa, foi urgência. No momento em que o acordo foi feito, a empresa estava em grande dificuldade. O dólar havia disparado. Se ela parasse de importar veículos poderia perder a representação da Hyundai", disse Luchesi.

O nome do Grupo J. Alves Veríssimo, que atua no varejo e é ex-proprietário dos supermercados Eldorado, consta também da lista dos grandes devedores do Banco Santos. Pela contabilidade do banco, o Grupo Veríssimo deve uma quantia superior a 100 milhões de reais. Mas, a exemplo da Caoa, o Veríssimo também não reconhece a dívida. "Estamos estudando a adoção de medidas judiciais para questionar uma tentativa de cobrança de qualquer valor. Todas as transações entre o banco e a empresa já foram quitadas", diz Rubens Velloza, advogado do grupo.

Até se podem entender as razões das empresas para transacionar com o Santos nos termos impostos pelo banco. Resta outra questão. Por que razão o Banco Santos registraria um empréstimo de 100 milhões a um cliente e entregaria a ele apenas 20%, exigindo o aporte do restante a algumas empresas ligadas ao próprio dono do banco? A principal suspeita dos fiscais do Banco Central é a de que essa foi a maneira encontrada por Edemar Cid Ferreira de retirar recursos do banco, que ele julgava sem salvação, e injetá-los em empresas não financeiras, portanto fora do alcance das autoridades monetárias. Dessa forma, ele estaria engordando seu patrimônio pessoal em prejuízo do banco. Outra hipótese mais generosa é a de que Edemar Cid Ferreira estava fazendo essa operação para dar ao BC a impressão de que estava em franca atividade de crédito, mostrando-se mais robusto do que efetivamente era. A idéia nesse caso seria dissuadir a fiscalização do BC, ganhar tempo e superar a crise.

O mercado reagiu bem à decisão do BC de intervir no Santos. Os clientes do banco, porém, têm problemas. Com a intervenção, o 1,8 bilhão de reais preso no Santos fica indisponível por um período de seis meses, que pode ser prorrogado por mais seis. Por enquanto, os clientes poderão retirar apenas 20.000 reais cada um. Mas nem todos eles perderam dinheiro no Banco Santos. Em 12 de outubro, alertado das dificuldades, o ex-presidente José Sarney, amigo de Edemar Cid Ferreira, sacou 2 milhões de reais de sua conta na instituição. Edemar é padrinho de casamento da filha de Sarney, Roseana. "Eu, como centenas de correntistas, em face dos rumores publicados na imprensa e existentes na praça sobre o Banco Santos, transferi meus depósitos, produto da venda da minha fazenda Pericumã, para o Banco do Brasil", diz o texto da nota do ex-presidente.

O zelo de Sarney contrasta com a aparente leniência de administradores de fundos estatais que, ignorando os sinais evidentes de problemas no Banco Santos, não apenas mantiveram mas ampliaram suas posições na instituição. A Fundação Centrus, dos funcionários do próprio Banco Central, não tinha 1 centavo em CDBs do Banco Santos em dezembro de 2003. Em maio deste ano, colocou ali 34 milhões de reais. A Fundação Corsan, da Companhia Riograndense de Saneamento, investiu 3 milhões de reais em setembro passado. A Fundação Real Grandeza, de Furnas Centrais Elétricas, comprou neste ano 40 milhões em papéis do banco. Todo esse dinheiro corre o risco de virar pó. A maior parte dos responsáveis pela decisão de investir se agarra ao argumento de que a Austin Rating, uma empresa especializada em avaliar a saúde de bancos, nunca rebaixou a nota do Santos. Não foi a única. A Moody's chegou a elevar a classificação do banco em setembro. Todas as outras avaliadoras rebaixaram o banco. Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating, disse a VEJA que pediu uma reunião com a diretoria do Banco Santos em agosto para informar que iria rebaixar o rating de A para BB+. Com essa nota, a Austin reconheceria que o Santos estava soçobrando. Após cinco horas de reunião com Edemar Cid Ferreira, Rodrigues, da Austin, decidiu apenas colocar o banco em observação negativa. Cerca de três meses depois veio a intervenção do Banco Central. No fim da semana passada, Edemar Cid Ferreira ainda acreditava em uma solução de mercado para seu banco. A falência da instituição seria o pior cenário para todos os envolvidos. O tempo, porém, é seu inimigo. Como se sabe, os ativos dos bancos sob intervenção diminuem dia a dia e um dos mais conhecidos patrimônios de Cid Ferreira, uma mansão em São Paulo, não está em seu nome. O imóvel pertence a duas empresas brasileiras controladas pela Principle, do Panamá, e pela Blueshell, das Ilhas Virgens Britânicas.

 

O que os interventores investigam
no Banco Santos

Maquiagem contábil
Para inflar sua carteira de crédito, o banco teria criado empréstimos fictícios, registrado valores acima dos concedidos e incluído em sua lista de clientes empresas que nunca tiveram relação com o banco

Indícios de lavagem de dinheiro
Alguns clientes teriam contraído empréstimos que eram registrados sem que o dinheiro tivesse saído do banco. Num único caso, 160 milhões de reais teriam sido emprestados apenas contabilmente

Fuga para o exterior
O banco usou clientes e uma rede paralela de empresas para desviar os ativos para paraísos fiscais. Muitos clientes do banco têm contas no Bank of Europe, com sede em Antígua e Barbuda. O BC quer descobrir o que motivou a coincidência

 

As raízes dos problemas do banco Santos

Empréstimos podres
O banco concedeu 700 milhões de reais em empréstimos a sete empresas sem crédito no mercado ou que não apresentaram garantias sólidas. Os clientes atrasaram o pagamento por mais de 180 dias. O valor da inadimplência equivale a todo o patrimônio da instituição

Desvio de dinheiro
O banco oferecia a clientes empréstimos com valores acima dos pedidos e exigia, em contrapartida, que eles usassem o excesso para comprar títulos de empresas ligadas direta e indiretamente a Edemar Cid Ferreira

Corrida ao caixa
A partir de junho passado não foi mais possível manter sob sigilo os problemas do banco. Em quatro meses, clientes sacaram cerca de 300 milhões de reais das contas de depósito e investimentos. Quando faltou dinheiro para o depósito compulsório que todos os bancos devem fazer diariamente no Banco Central, a intervenção se tornou inevitável

 

Com reportagem de Carlos Rydlewski, Carina Nucci,
Chrystiane Silva e Eduardo Salgado

 

 
 
 
 
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