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Bancos
Os pecados do Santos
O Banco Santos, de Edemar
Cid Ferreira, sofre intervenção
e deixa um rastro de irregularidades

Marcio Aith e Felipe Patury
Lia Lubambo
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Não fosse pela alta exposição
social de seu controlador, Edemar Cid Ferreira, a intervenção
do Banco Central (BC) no Banco Santos talvez tivesse ocorrido em
um tom menor. O economista Edemar Cid Ferreira era até pouco
tempo atrás mais conhecido por ações de impacto
na área cultural do que no mundo das finanças. Edemar
presidiu a Fundação Bienal de São Paulo entre
1993 e 1997 e foi responsável por trazer exposições
de qualidade ao país, como a que reuniu os Guerreiros de
Xi'an, feitos de terracota há mais de 2.000
anos, e a retrospectiva com obras de Pablo Picasso. O banco de Ferreira
é modesto. Ele aparece apenas no 21º lugar no ranking
das casas bancárias brasileiras e está inserido em
um sistema financeiro que passa por um momento de especial prosperidade
e estabilidade.
Bastaram alguns dias de trabalho dos interventores
na luxuosa sede do Banco Santos, em São Paulo, para que surgisse
um perfil da instituição marcado por gritantes irregularidades.
Empréstimos podres, desvio de recursos para uma rede de companhias
obscuras ou sediadas em paraísos fiscais e operações
financeiras que nunca saíram da contabilidade para o mundo
real estão na raiz dos verdadeiros problemas que obrigaram
a autoridade monetária a interromper a operação
do Banco Santos na noite de sexta-feira 12 de novembro. A intervenção
foi decidida dias depois de o BC constatar que existia o risco de
o banco não honrar, na semana seguinte, parte dos compromissos
com cerca de 500 empresas, prefeituras e fundos de pensão
que compraram 1,8 bilhão de reais em títulos do banco.
No jargão financeiro essa situação é
chamada de iliquidez.
Jonne Roriz/AE
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A MANSÃO
BLINDADA CONTRA OS CREDORES
A mansão de Edemar Cid Ferreira no bairro do Morumbi,
em São Paulo, não está em nome dele. Pertence
a empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e no
Panamá. Avaliada em cerca de 50 milhões de reais,
tem mais de 7 500 metros quadrados, heliponto e uma extensa
galeria de arte. Projetada pelo arquiteto Ruy Ohtake, tem cinco
andares e gerou a ira dos vizinhos, numa briga que envolveu
dezenove processos na Justiça |
Havia tempos o Banco Central vinha insistindo
com a instituição de Edemar Cid Ferreira para que
provisionasse cerca de 700 milhões de reais de empréstimos
feitos a sete empresas que não davam mostras de ser capazes
de pagá-los. Em média, elas estavam 180 dias em atraso
com suas obrigações. Provisionar, no jargão
financeiro, é destinar uma quantia do próprio patrimônio
do banco para cobrir um prejuízo certo, de modo a não
comprometer a saúde da instituição. Isso não
foi feito. Ao analisarem agora os empréstimos não
pagos e não provisionados, os fiscais do Banco Central depararam
com uma fragilidade ainda mais preocupante. Chamaram atenção
especial empréstimos feitos a empresas desconhecidas do mercado
com os nomes de Ômega, Delta, Creditar e Quality. Somados,
esses créditos chegavam a 200 milhões de reais. No
cadastro fornecido pelo Banco Santos ao BC, uma delas era apresentada
como sendo uma multinacional muito conhecida. Até o número
de registro da multinacional no imposto de renda, o CNPJ, foi dado
ao BC como sendo da credora do Banco Santos. Bastou um telefonema
para que ficasse claro que a empresa beneficiada pelo empréstimo
do Banco Santos não era uma multinacional. Era uma empresa
sem atividade conhecida no mercado.
O BC descobriu estranhas coincidências.
Consultados informalmente, alguns dos clientes disseram aos fiscais
do BC que o Banco Santos colocava como condição para
conceder empréstimos uma reciprocidade. Os clientes eram
obrigados a reinvestir em empresas indicadas pelo próprio
Edemar Cid Ferreira parte do dinheiro que pegavam emprestado. Um
exemplo desse procedimento ocorreu com a CCE, fabricante de componentes
eletrônicos. A CCE tem uma dívida de 43 milhões
de reais com o Banco Santos, mas sustenta ter sido obrigada a caucionar
21 milhões desse total em títulos de empresas ligadas
a Edemar. "Não negamos que temos uma dívida, mas o
valor não é o apontado pelo Banco Santos", disse a
VEJA Synésio Batista da Costa, vice-presidente de relações
institucionais da empresa.
Claudio Rossi
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Divulgação
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| Edemar Cid Ferreira: sua coleção
inclui raridades como originais de Maquiavel. O banqueiro foi
o organizador da exposição Guerreiros de Xi'an,
em São Paulo, no ano passado |
As empresas Ômega, Delta, Creditar e
Quality ainda chamariam a atenção dos fiscais do governo
por outras particularidades. Eles descobriram que elas mudam de
nome freqüentemente e têm, entre representantes oficiais
de seus sócios, pessoas publicamente ligadas a Edemar Cid
Ferreira. Um dos sócios da Quality, por exemplo, é
uma empresa chamada Duke of Wales Holdings, que, apesar do nome
britânico, tem sede no município de Santana de Parnaíba,
em São Paulo. No registro da Junta Comercial aparece como
procurador da Duke of Wales o editor de livros Pedro Paulo de Sena
Madureira, amigo de Edemar Cid Ferreira e a quem se atribui o fato
de ter despertado no banqueiro o amor pelas artes e pela coleção
de objetos raros. Ouvido por VEJA, Madureira afirma que sua relação
com Edemar é "absolutamente cultural". Diz Madureira: "Se
meu nome está lá, está constatado. Não
tenho ligação nenhuma com o Banco Santos, não
vivo disso e não recebo salário. Minha relação
com Edemar é de confiança e de amizade. Se tivesse
de começar do zero, faria tudo de novo".
Mas a Duke of Wales nem sempre teve esse nome.
Foi com sua denominação anterior, Sanvest Participações
S.A., que ela recebeu recursos substanciais de empresas que pegavam
empréstimos do Banco Santos.
Uma das empresas a injetar recursos na Sanvest
como forma de obter empréstimos no Santos foi a Caoa, a maior
revendedora Ford no Brasil e representante no país das montadoras
Subaru e Hyundai. Segundo os registros do Banco Santos, a Caoa teria
recebido empréstimos de 180 milhões de reais. Ao ser
informada desse valor, a empresa reagiu. O advogado da Caoa, Fábio
de Oliveira Luchesi, afirma que vai entrar na Justiça contra
o Banco Santos pela simples razão de que seu cliente reconhece
ter tido uma dívida de apenas 20 milhões de reais
com o banco de Edemar Cid Ferreira. A dívida teria sido quitada
integralmente há seis meses. Luchesi disse a VEJA que a Caoa
foi compelida pelo banco a tomar empréstimos com valores
acima do que precisava. Num desses casos, a empresa pretendia receber
2 milhões de reais. Mas terminou captando 10 milhões.
A diferença, 8 milhões de reais, foi usada para a
compra de debêntures. Houve várias operações
como essa, sendo que duas das maiores beneficiadas foram a Sanvest
e a Santospar. Luchesi acredita que parte do dinheiro foi parar
no Bank of Europe, com sede no Caribe. A Sanvest e a Santospar não
foram objeto da intervenção decretada pelo Banco Central.
Os fiscais do BC suspeitam que ambas sejam controladas por Edemar
Cid Ferreira. Acusa Luchesi: "No mesmo momento em que meu cliente
recebeu o empréstimo do Banco Santos, assinou um documento
paralelo e uma procuração repassando a gestão
do investimento para o Banco Santos, que tinha plenos poderes para
administrá-la".
Por que razão alguém aceitaria
um empréstimo do qual só embolsa 20% é um mistério
para muita gente. Jairo Saddi, professor do Ibmec e advogado contratado
por um grupo de empresas tomadoras de empréstimos do Banco
Santos, sustenta que suas clientes "foram vítimas". Diz Saddi:
"Elas conseguiam empréstimo apenas sob a condição
de usar parte do dinheiro para comprar debêntures de empresas
ligadas ao Banco Santos". Ainda assim, fica a indagação:
por que as empresas aceitaram se submeter a tais condições
se se sentiam "vítimas"? Saddi vê dois motivos. Primeiro,
algumas das empresas não tinham facilidade de obter no mercado
crédito por outras vias. Segundo, elas se sentiram atraídas
pelas promessas de retorno generoso do investimento. "No caso da
Caoa, foi urgência. No momento em que o acordo foi feito,
a empresa estava em grande dificuldade. O dólar havia disparado.
Se ela parasse de importar veículos poderia perder a representação
da Hyundai", disse Luchesi.
O nome do Grupo J. Alves Veríssimo,
que atua no varejo e é ex-proprietário dos supermercados
Eldorado, consta também da lista dos grandes devedores do
Banco Santos. Pela contabilidade do banco, o Grupo Veríssimo
deve uma quantia superior a 100 milhões de reais. Mas, a
exemplo da Caoa, o Veríssimo também não reconhece
a dívida. "Estamos estudando a adoção de medidas
judiciais para questionar uma tentativa de cobrança de qualquer
valor. Todas as transações entre o banco e a empresa
já foram quitadas", diz Rubens Velloza, advogado do grupo.
Até se podem entender as razões
das empresas para transacionar com o Santos nos termos impostos
pelo banco. Resta outra questão. Por que razão o Banco
Santos registraria um empréstimo de 100 milhões a
um cliente e entregaria a ele apenas 20%, exigindo o aporte do restante
a algumas empresas ligadas ao próprio dono do banco? A principal
suspeita dos fiscais do Banco Central é a de que essa foi
a maneira encontrada por Edemar Cid Ferreira de retirar recursos
do banco, que ele julgava sem salvação, e injetá-los
em empresas não financeiras, portanto fora do alcance das
autoridades monetárias. Dessa forma, ele estaria engordando
seu patrimônio pessoal em prejuízo do banco. Outra
hipótese mais generosa é a de que Edemar Cid Ferreira
estava fazendo essa operação para dar ao BC a impressão
de que estava em franca atividade de crédito, mostrando-se
mais robusto do que efetivamente era. A idéia nesse caso
seria dissuadir a fiscalização do BC, ganhar tempo
e superar a crise.
O mercado reagiu bem à decisão
do BC de intervir no Santos. Os clientes do banco, porém,
têm problemas. Com a intervenção, o 1,8 bilhão
de reais preso no Santos fica indisponível por um período
de seis meses, que pode ser prorrogado por mais seis. Por enquanto,
os clientes poderão retirar apenas 20.000
reais cada um. Mas nem todos eles perderam dinheiro no Banco Santos.
Em 12 de outubro, alertado das dificuldades, o ex-presidente José
Sarney, amigo de Edemar Cid Ferreira, sacou 2 milhões de
reais de sua conta na instituição. Edemar é
padrinho de casamento da filha de Sarney, Roseana. "Eu, como centenas
de correntistas, em face dos rumores publicados na imprensa e existentes
na praça sobre o Banco Santos, transferi meus depósitos,
produto da venda da minha fazenda Pericumã, para o Banco
do Brasil", diz o texto da nota do ex-presidente.
O zelo de Sarney contrasta com a aparente
leniência de administradores de fundos estatais que, ignorando
os sinais evidentes de problemas no Banco Santos, não apenas
mantiveram mas ampliaram suas posições na instituição.
A Fundação Centrus, dos funcionários do próprio
Banco Central, não tinha 1 centavo em CDBs do Banco Santos
em dezembro de 2003. Em maio deste ano, colocou ali 34 milhões
de reais. A Fundação Corsan, da Companhia Riograndense
de Saneamento, investiu 3 milhões de reais em setembro passado.
A Fundação Real Grandeza, de Furnas Centrais Elétricas,
comprou neste ano 40 milhões em papéis do banco. Todo
esse dinheiro corre o risco de virar pó. A maior parte dos
responsáveis pela decisão de investir se agarra ao
argumento de que a Austin Rating, uma empresa especializada em avaliar
a saúde de bancos, nunca rebaixou a nota do Santos. Não
foi a única. A Moody's chegou a elevar a classificação
do banco em setembro. Todas as outras avaliadoras rebaixaram o banco.
Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating, disse a VEJA que
pediu uma reunião com a diretoria do Banco Santos em agosto
para informar que iria rebaixar o rating de A para BB+. Com essa
nota, a Austin reconheceria que o Santos estava soçobrando.
Após cinco horas de reunião com Edemar Cid Ferreira,
Rodrigues, da Austin, decidiu apenas colocar o banco em observação
negativa. Cerca de três meses depois veio a intervenção
do Banco Central. No fim da semana passada, Edemar Cid Ferreira
ainda acreditava em uma solução de mercado para seu
banco. A falência da instituição seria o pior
cenário para todos os envolvidos. O tempo, porém,
é seu inimigo. Como se sabe, os ativos dos bancos sob intervenção
diminuem dia a dia e um dos mais conhecidos patrimônios de
Cid Ferreira, uma mansão em São Paulo, não
está em seu nome. O imóvel pertence a duas empresas
brasileiras controladas pela Principle, do Panamá, e pela
Blueshell, das Ilhas Virgens Britânicas.
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O que os interventores
investigam
no Banco Santos
Maquiagem contábil
Para inflar sua carteira de crédito, o banco
teria criado empréstimos fictícios, registrado
valores acima dos concedidos e incluído em sua
lista de clientes empresas que nunca tiveram relação
com o banco
Indícios
de lavagem de dinheiro
Alguns clientes teriam contraído empréstimos
que eram registrados sem que o dinheiro tivesse saído
do banco. Num único caso, 160 milhões
de reais teriam sido emprestados apenas contabilmente
Fuga para o exterior
O banco usou clientes e uma rede paralela de empresas
para desviar os ativos para paraísos fiscais.
Muitos clientes do banco têm contas no Bank of
Europe, com sede em Antígua e Barbuda. O BC quer
descobrir o que motivou a coincidência
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As raízes dos problemas do
banco Santos
Empréstimos podres
O banco concedeu 700 milhões de reais
em empréstimos a sete empresas sem crédito
no mercado ou que não apresentaram garantias
sólidas. Os clientes atrasaram o pagamento por
mais de 180 dias. O valor da inadimplência equivale
a todo o patrimônio da instituição
Desvio de dinheiro
O banco oferecia a clientes empréstimos
com valores acima dos pedidos e exigia, em contrapartida,
que eles usassem o excesso para comprar títulos
de empresas ligadas direta e indiretamente a Edemar
Cid Ferreira
Corrida ao caixa
A partir de junho passado não foi mais possível
manter sob sigilo os problemas do banco. Em quatro meses,
clientes sacaram cerca de 300 milhões de reais
das contas de depósito e investimentos. Quando
faltou dinheiro para o depósito compulsório
que todos os bancos devem fazer diariamente no Banco
Central, a intervenção se tornou inevitável
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Com reportagem de
Carlos Rydlewski, Carina Nucci,
Chrystiane Silva e Eduardo Salgado
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