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Especial
MEU CÃO, MEU TESOURO
Em 1944, quando a história
passava por um de seus momentos de parto violento e o presidente americano Franklin
Delano Roosevelt comandava o mundo livre, ele foi alvo de uma acusação
sórdida: torrar milhões de dólares do Tesouro para mandar
um navio de guerra dar meia-volta e resgatar seu cão, "Fala", esquecido
durante uma escala nas Ilhas Aleutas, no Alasca. Como bom político, Roosevelt
negou tudo tanto o esquecimento quanto o resgate. E, num discurso bem-humorado,
afirmou que ele e sua família estavam, sim, acostumados a críticas
e maledicências, mas não o pobre terrier escocês. "Fala não
é mais o mesmo depois desse ataque", reclamou.
Assim como Roosevelt, a maioria dos donos de animais de estimação
humaniza suas mascotes, vendo nelas, mais do que um amigo, um membro da família,
merecedor de todos os cuidados e cortesias. A fidelidade incondicional dos cães
ou o afeto sofisticado dos gatos evocam realmente reações profundas
nos humanos, cujas raízes estão no instinto maternal que despertam.
Os animais são eternas crianças (ou, pelo menos, assim os consideramos),
e nós fomos programados, ao longo da evolução, para nos apegar
às crianças. Há uma vantagem evolutiva nesse instinto: uma
prole bem nutrida e protegida aumenta as chances de sobrevivência da espécie
a longo prazo. O curioso é que o homem transfere para outras espécies
esse carinho atávico. Prova disso é que um filhote de cão
nos toca por características essencialmente semelhantes às que nos
fazem derreter diante de uma criança: a vulnerabilidade de quem depende
dos "pais" para tudo e a aparência física "fofa" (o tamanho pequeno,
a cara rechonchuda, os olhos redondos e desproporcionalmente grandes).
Dentre todas as mascotes, os cães são as que mais facilmente se
encaixam no papel filial. Mesmo quando deixa de ser filhote, um cachorro continua
se comportando de maneira infantil ou fingindo fazê-lo, só
para atender à expectativa do dono. Como os rebentos humanos, o cão
de casa também tem de ser alimentado, lavado, medicado e protegido de perigos
domésticos. Também como um bebê, o animal está sempre
à disposição do dono para brincadeiras e carícias,
e demonstra extremo prazer e felicidade em receber atenção
e é essa disposição, de parte a parte, que sela a aliança
entre as espécies. Todas essas explicações são, claro,
absolutamente desnecessárias para quem está acostumado a entrar
em casa e anunciar ao companheiro canino que "papai" ou "mamãe" chegou.
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POR
QUE SOU VEGETARIANO Reuters
 | IMPERATIVO
ÉTICO "A escravidão animal deveria ser enterrada,
juntamente com a humana, no cemitério do passado" |
"Minhas
razões para ser vegetariano são muito simples:
Os
animais têm capacidade de sofrer.
Quando são criados para nos fornecer carne, eles sofrem de muitas e desnecessárias
maneiras. Nós
não precisamos comer carne. Qualquer que tenha sido a situação
no passado, nos primórdios da evolução humana, hoje as pessoas
de classe média dos países desenvolvidos têm uma gama enorme
de alimentos nutritivos a sua disposição. Uma dieta vegetariana
não impede o acesso a proteínas e outros nutrientes essenciais.
Comemos carne porque apreciamos o sabor, não porque ela seja necessária
a nossa saúde.
O desejo de saborear a carne dos animais não justifica fazê-los sofrer.
Portanto, não
deveríamos comer animais que sofrem só para isso para nos
fornecer sua carne.
O sofrimento a que me refiro não ocorre apenas nos matadouros. Muitas pessoas
ainda não sabem como funcionam as modernas fazendas industriais. Nelas,
a mecanização e os métodos de negócios corporativos
são aplicados de acordo com o princípio de que os animais são
objetos a ser consumidos. Para baratearem o custo, os produtores confinam e amontoam
os animais de maneira tal que os condenam a passar a vida inteira em condições
horríveis.
Tudo isso acontece por um equívoco ético fundamental. Os racistas
pensavam que um ser humano que não pertencesse a sua raça se situava
fora da esfera da ética. Podia, portanto, ser capturado e vendido como
escravo. Não acreditamos mais que as fronteiras raciais demarquem os limites
para além dos quais os seres humanos se transformem em objetos para nosso
uso. Mas ainda achamos que os seres que estão fora das fronteiras de nossa
espécie não passam de coisas úteis. Não há
base moral para essa crença. A escravidão animal deveria ser enterrada,
juntamente com a escravidão humana, no cemitério do passado."
Peter
Singer Filósofo
australiano, professor de bioética na Universidade Princeton. Seu livro
Libertação Animal é
um libelo do movimento de proteção aos animais
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ANIMAL NÃO É
INVIOLÁVEL AFP
 | A
CARNE É FORTE "Com dieta vegetariana perderíamos
boa parte da biodiversidade hoje existente no planeta; desapareceriam espécies
criadas como alimento" |
"Não
vejo nenhum problema em comer carne. Do ponto de vista estritamente lógico,
isso se aplica até à carne humana. É extremamente difícil
para qualquer pessoa que consuma a carne de animais repudiar o canibalismo sem
apelar para a suposição de que a humanidade ocupa uma posição
diferenciada e privilegiada entre outras espécies uma suposição
duvidosa, do ponto de vista lógico. Isso não significa que temos
necessariamente de tratar os humanos e os não-humanos do mesmo modo, em
todos os sentidos. A vida humana é inviolável para os humanos, enquanto
a vida de outros animais não o é, com base no fato de que a humanidade
constitui uma comunidade moral, que surge do reconhecimento mútuo e de
um sentido universal de grupo. Pessoas que eventualmente reconheçam os
macacos, as formigas, os elefantes ou qualquer outra criatura como membro de sua
comunidade moral teriam sérias objeções a criá-los
apenas para matá-los. Mas essas pessoas não têm o direito
de impor esse padrão moral às demais. Eu diria mais: não
se pode negar aos humanos a inclusão em nossa comunidade moral, mas, se
assim quisermos, podemos negá-la às demais espécies. A primeira
questão sobre comer outros animais, então, seria: "Onde se devem
estabelecer os limites de nossa comunidade moral? Por que excluir dela outros
animais?".
Ressalte-se
que boa parte da humanidade já segue uma dieta vegetariana. Não
acho que sofreríamos muito ao abandonar a dieta animal. No entanto, perderíamos
uma boa parte da biodiversidade hoje existente no planeta, uma vez que muitas
espécies criadas predominantemente para servir de alimento perderiam seu
interesse imediato e desapareceriam. Não sei se resolveríamos nossos
dilemas morais fazendo isso. O debate, provavelmente, seria transferido para outra
questão: se é moral ou não criar plantas para nossa nutrição."
Felipe Fernández-Armesto
Historiador inglês, professor
da Universidade de Londres e autor de mais de dez livros; entre eles, Idéias
que Mudaram o Mundo e Comida Uma História
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EM CASA OU NA SELVA PARA SEMPRE
A data-chave da civilização é conhecida:
há cerca de 10 000 anos, com o domínio da seleção
artificial e a reprodução de plantas e animais, a humanidade deu
o primeiro grande passo no processo que viria a produzir Homero, Michelangelo,
foguetes espaciais, computadores e, acima de tudo, o controle remoto. Ao estabelecer
as lavouras e os rebanhos, o homem conquistou uma rica fonte de alimentos e energia
a força de um boi para puxar carga, a rapidez e a agilidade de um
cavalo para percorrer longas distâncias ou dominar os campos de batalha.
Até hoje, para grandes parcelas da humanidade, o reforço nutricional
de um leite de cabra ou o capital ambulante representado por um porco podem significar
a diferença entre a vida e a morte.
Muitos estudiosos até hoje se intrigam com duas questões: por que
esses animais nos fornecem tanto e por que são tão poucos.
Do universo de 148 herbívoros selvagens com peso superior a 45 quilos,
que teoricamente renderiam rebanhos produtivos, apenas cinco foram domesticados
no mundo inteiro: ovelhas, cabras, bois, porcos e cavalos. Outros nove mamíferos,
dentre eles o camelo, o dromedário, o jumento e a alpaca, tiveram sua domesticação
restrita a algumas regiões do globo, fundamentalmente devido a questões
climáticas. No livro Armas, Germes e Aço, o fisiologista
Jared Diamond, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, explica os
fatores que propiciaram a domesticação de algumas espécies,
enquanto outras estão "perpetuamente destinadas à vida selvagem",
como definiu o antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911), primo
menos célebre de Charles Darwin.
O primeiro obstáculo à criação em cativeiro é
a dieta. Os herbívoros, que tiram o almoço de qualquer moita ou
capim que encontrem pela frente, constituem rebanhos muito mais econômicos
e práticos do que carnívoros predadores. A produtividade do rebanho
depende, também, do crescimento rápido: só quando os animais
atingem a maturidade é possível selecionar os melhores para reprodução.
Em países como a Índia, que ainda hoje emprega elefantes no transporte
de carga, por exemplo, os especialistas do ramo preferem capturar e treinar alguns
espécimes a manter um rebanho, já que os indivíduos levam
mais de quinze anos para ficar adultos. Mesmo entre as espécies que atingem
logo a maturidade, só se consegue domesticar aquelas que se reproduzem
em cativeiro. Nem todos os animais cruzam quando estão entre cercas ou
trancafiados em jaulas. Grandes felinos, que exigem amplos espaços para
realizar os rituais de acasalamento, estão excluídos da lista de
domesticáveis, portanto. A ferocidade inata é outro obstáculo.
As zebras, capazes de violentas mordidas, nunca poderiam ter trilhado o mesmo
caminho dos primos eqüinos. Mesmo quando nascidos e criados em cativeiro,
os animais selvagens preservam o potencial ameaçador. Por isso continuam
a ser apreciados os espetáculos de natureza circense: ainda que reduzidas
à impotência, às vezes tratadas com grande crueldade, feras
são sempre feras. O caso recente mais notório do gênero aconteceu
em outubro de 2003, quando o domador alemão naturalizado americano Roy
Horn, da dupla Siegfried e Roy, foi atacado por um tigre albino durante um espetáculo
milionário num cassino de Las Vegas (Roy sobreviveu com graves seqüelas;
antes de entrar em coma, pediu que "Montecore", o tigre que criou desde filhote,
fosse tratado com todo o respeito).
Espécies muito assustadiças constituem uma outra categoria de problema.
Gazelas e veados, se presos, podem morrer de pânico ou simplesmente se arrebentar
contra a cerca. Por fim, o último requisito à domesticação
é a sociabilidade. Ao contrário dos animais solitários, que
demarcam território, os que vivem na natureza em bandos tendem a seguir
uma hierarquia e, portanto, um líder. Por causa disso, aceitam mais facilmente
o homem como espécime dominante. | |
A
revolução dos bichos Como
a domesticação dos animais moldou as sociedades humanas
Fotos Dilmar Cavalher/Strana
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HÁ
12 000 ANOS O indício
direto mais antigo da domesticação de um animal são os restos
mortais fossilizados de uma mulher abraçada a um filhote de cão
ou lobo encontrados numa região que hoje é parte de Israel.
DE RIVAL A COMPANHEIRO Há
mais de doze milênios, o homem trocou a vida de caçador e coletor
pela de agricultor. Arqueólogos imaginam que os detritos gerados pelas
famílias recém-fixadas à terra tenham atraído alcatéias,
que se aproximavam à noite, em busca de comida. O lobo começou a
se aproximar da mão que o alimentava, e o homem, a valorizar a presença
do predador. De lixeiro eventual, ele passou a guarda-noturno, espantando outros
animais. Com o tempo, os espécimes mais dóceis foram entrando em
casa, iniciando a real domesticação. Alguns estudiosos remontam
a relação entre homens e ancestrais dos cães a mais de 150
000 anos.
HÁ
10 000 ANOS Porcos,
carneiros e ovelhas, cabras e bodes começaram a ser criados em diferentes
regiões do Oriente Médio e da China.
PROTEÍNAS PORTÁTEIS As
plantações de trigo e cevada passaram a atrair suínos, ovinos
e caprinos selvagens, que invadiam as lavouras primitivas em busca de alimento.
Comparativamente mansos, esses animais deram origem aos primeiros rebanhos da
humanidade. A vantagem para os humanos foi enorme: as proteínas animais
ficavam ao alcance da mão e sem os riscos inerentes à caça.
HÁ
9 000 ANOS Um dente de
felino encontrado nas ruínas de Jericó, no território da
Cisjordânia, indica que o gato já convivia com os humanos ainda no
período neolítico.
DEUSES NO CELEIRO Os
depósitos de grãos atraíam uma grande quantidade de roedores,
que estragavam a comida e espalhavam doenças. Independentes, versáteis
e excelentes caçadores, os gatos ainda selvagens livravam os celeiros desses
invasores silvestres. A tradição diz que foram os egípcios
que efetivamente trouxeram o gato, há cerca de 5 000 anos, para a intimidade
dos templos e das casas. O animal também era adorado como encarnação
da deusa Bastet. Quem matasse um gato era punido com a pena de morte. Os animais
que morriam de velhice ou doença costumavam ser mumificados.
HÁ
8 000 ANOS Antigas ossadas
de bovinos encontradas no sul da Turquia indicam o período da domesticação
de vacas e touros selvagens.
ENERGIA, COMIDA E TRANSPORTE A
domesticação de bovinos, fortes mas fáceis de controlar,
deu um formidável impulso à sociedade humana. Atrelado ao arado,
o gado foi a primeira fonte de energia usada pelo homem para aumentar a produtividade
das lavouras. Com mais alimentos produzidos com menor esforço, a humanidade
realizou a revolução agrícola e passou a ter tempo para se
dedicar a outras atividades, como inventar a escrita. O gado também propiciou
o uso da roda, inventada 3 000 anos depois, para puxar carroças carregadas
de alimentos.
HÁ
5 000 ANOS Marcas nos
dentes de um cavalo morto no Cazaquistão indicam que já se usavam
rédeas cinco milênios atrás.
MOVIDO A QUATRO PATAS Montado
sobre um cavalo, o homem mudou a maneira de ver o mundo. Deixou seu rincão
natal e conheceu outros povos, promovendo assim uma mistura de culturas. Antropólogos
acham que foi nas costas de um eqüino que a língua-mãe dos
idiomas indo-europeus se disseminou pelo mundo. Nasceu também a primeira
guerra-relâmpago: cavaleiros são capazes de atacar os inimigos e
se retirar mais rapidamente do campo de batalha do que guerreiros a pé.
O burro, descendente de um asno selvagem que viveu no norte da África e
no Sudeste Asiático, foi domesticado na mesma época, como besta
de carga e montaria. | | |