Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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MEU CÃO, MEU TESOURO

Em 1944, quando a história passava por um de seus momentos de parto violento e o presidente americano Franklin Delano Roosevelt comandava o mundo livre, ele foi alvo de uma acusação sórdida: torrar milhões de dólares do Tesouro para mandar um navio de guerra dar meia-volta e resgatar seu cão, "Fala", esquecido durante uma escala nas Ilhas Aleutas, no Alasca. Como bom político, Roosevelt negou tudo – tanto o esquecimento quanto o resgate. E, num discurso bem-humorado, afirmou que ele e sua família estavam, sim, acostumados a críticas e maledicências, mas não o pobre terrier escocês. "Fala não é mais o mesmo depois desse ataque", reclamou.

Assim como Roosevelt, a maioria dos donos de animais de estimação humaniza suas mascotes, vendo nelas, mais do que um amigo, um membro da família, merecedor de todos os cuidados e cortesias. A fidelidade incondicional dos cães ou o afeto sofisticado dos gatos evocam realmente reações profundas nos humanos, cujas raízes estão no instinto maternal que despertam. Os animais são eternas crianças (ou, pelo menos, assim os consideramos), e nós fomos programados, ao longo da evolução, para nos apegar às crianças. Há uma vantagem evolutiva nesse instinto: uma prole bem nutrida e protegida aumenta as chances de sobrevivência da espécie a longo prazo. O curioso é que o homem transfere para outras espécies esse carinho atávico. Prova disso é que um filhote de cão nos toca por características essencialmente semelhantes às que nos fazem derreter diante de uma criança: a vulnerabilidade de quem depende dos "pais" para tudo e a aparência física "fofa" (o tamanho pequeno, a cara rechonchuda, os olhos redondos e desproporcionalmente grandes).

Dentre todas as mascotes, os cães são as que mais facilmente se encaixam no papel filial. Mesmo quando deixa de ser filhote, um cachorro continua se comportando de maneira infantil – ou fingindo fazê-lo, só para atender à expectativa do dono. Como os rebentos humanos, o cão de casa também tem de ser alimentado, lavado, medicado e protegido de perigos domésticos. Também como um bebê, o animal está sempre à disposição do dono para brincadeiras e carícias, e demonstra extremo prazer e felicidade em receber atenção – e é essa disposição, de parte a parte, que sela a aliança entre as espécies. Todas essas explicações são, claro, absolutamente desnecessárias para quem está acostumado a entrar em casa e anunciar ao companheiro canino que "papai" ou "mamãe" chegou.

 

POR QUE SOU VEGETARIANO

Reuters
IMPERATIVO ÉTICO
"A escravidão animal deveria ser enterrada, juntamente com a humana, no cemitério do passado"


"Minhas razões para ser vegetariano são muito simples:

Os animais têm capacidade de sofrer.

Quando são criados para nos fornecer carne, eles sofrem de muitas e desnecessárias maneiras.

Nós não precisamos comer carne. Qualquer que tenha sido a situação no passado, nos primórdios da evolução humana, hoje as pessoas de classe média dos países desenvolvidos têm uma gama enorme de alimentos nutritivos a sua disposição. Uma dieta vegetariana não impede o acesso a proteínas e outros nutrientes essenciais. Comemos carne porque apreciamos o sabor, não porque ela seja necessária a nossa saúde.

O desejo de saborear a carne dos animais não justifica fazê-los sofrer.

Portanto, não deveríamos comer animais que sofrem só para isso – para nos fornecer sua carne.

O sofrimento a que me refiro não ocorre apenas nos matadouros. Muitas pessoas ainda não sabem como funcionam as modernas fazendas industriais. Nelas, a mecanização e os métodos de negócios corporativos são aplicados de acordo com o princípio de que os animais são objetos a ser consumidos. Para baratearem o custo, os produtores confinam e amontoam os animais de maneira tal que os condenam a passar a vida inteira em condições horríveis.

Tudo isso acontece por um equívoco ético fundamental. Os racistas pensavam que um ser humano que não pertencesse a sua raça se situava fora da esfera da ética. Podia, portanto, ser capturado e vendido como escravo. Não acreditamos mais que as fronteiras raciais demarquem os limites para além dos quais os seres humanos se transformem em objetos para nosso uso. Mas ainda achamos que os seres que estão fora das fronteiras de nossa espécie não passam de coisas úteis. Não há base moral para essa crença. A escravidão animal deveria ser enterrada, juntamente com a escravidão humana, no cemitério do passado."  

Peter Singer
Filósofo australiano, professor de bioética na Universidade Princeton. Seu livro Libertação Animal é um libelo do movimento de proteção aos animais

 

ANIMAL NÃO É INVIOLÁVEL

AFP
A CARNE É FORTE
"Com dieta vegetariana perderíamos boa parte da biodiversidade hoje existente no planeta; desapareceriam espécies criadas como alimento"


"Não vejo nenhum problema em comer carne. Do ponto de vista estritamente lógico, isso se aplica até à carne humana. É extremamente difícil para qualquer pessoa que consuma a carne de animais repudiar o canibalismo sem apelar para a suposição de que a humanidade ocupa uma posição diferenciada e privilegiada entre outras espécies – uma suposição duvidosa, do ponto de vista lógico. Isso não significa que temos necessariamente de tratar os humanos e os não-humanos do mesmo modo, em todos os sentidos. A vida humana é inviolável para os humanos, enquanto a vida de outros animais não o é, com base no fato de que a humanidade constitui uma comunidade moral, que surge do reconhecimento mútuo e de um sentido universal de grupo. Pessoas que eventualmente reconheçam os macacos, as formigas, os elefantes ou qualquer outra criatura como membro de sua comunidade moral teriam sérias objeções a criá-los apenas para matá-los. Mas essas pessoas não têm o direito de impor esse padrão moral às demais. Eu diria mais: não se pode negar aos humanos a inclusão em nossa comunidade moral, mas, se assim quisermos, podemos negá-la às demais espécies. A primeira questão sobre comer outros animais, então, seria: "Onde se devem estabelecer os limites de nossa comunidade moral? Por que excluir dela outros animais?".

Ressalte-se que boa parte da humanidade já segue uma dieta vegetariana. Não acho que sofreríamos muito ao abandonar a dieta animal. No entanto, perderíamos uma boa parte da biodiversidade hoje existente no planeta, uma vez que muitas espécies criadas predominantemente para servir de alimento perderiam seu interesse imediato e desapareceriam. Não sei se resolveríamos nossos dilemas morais fazendo isso. O debate, provavelmente, seria transferido para outra questão: se é moral ou não criar plantas para nossa nutrição."

Felipe Fernández-Armesto
Historiador inglês, professor da Universidade de Londres e autor de mais de dez livros; entre eles, Idéias que Mudaram o Mundo e Comida – Uma História

 

EM CASA OU NA SELVA – PARA SEMPRE

A data-chave da civilização é conhecida: há cerca de 10 000 anos, com o domínio da seleção artificial e a reprodução de plantas e animais, a humanidade deu o primeiro grande passo no processo que viria a produzir Homero, Michelangelo, foguetes espaciais, computadores e, acima de tudo, o controle remoto. Ao estabelecer as lavouras e os rebanhos, o homem conquistou uma rica fonte de alimentos e energia – a força de um boi para puxar carga, a rapidez e a agilidade de um cavalo para percorrer longas distâncias ou dominar os campos de batalha. Até hoje, para grandes parcelas da humanidade, o reforço nutricional de um leite de cabra ou o capital ambulante representado por um porco podem significar a diferença entre a vida e a morte.

Muitos estudiosos até hoje se intrigam com duas questões: por que esses animais nos fornecem tanto – e por que são tão poucos. Do universo de 148 herbívoros selvagens com peso superior a 45 quilos, que teoricamente renderiam rebanhos produtivos, apenas cinco foram domesticados no mundo inteiro: ovelhas, cabras, bois, porcos e cavalos. Outros nove mamíferos, dentre eles o camelo, o dromedário, o jumento e a alpaca, tiveram sua domesticação restrita a algumas regiões do globo, fundamentalmente devido a questões climáticas. No livro Armas, Germes e Aço, o fisiologista Jared Diamond, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, explica os fatores que propiciaram a domesticação de algumas espécies, enquanto outras estão "perpetuamente destinadas à vida selvagem", como definiu o antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911), primo menos célebre de Charles Darwin.

O primeiro obstáculo à criação em cativeiro é a dieta. Os herbívoros, que tiram o almoço de qualquer moita ou capim que encontrem pela frente, constituem rebanhos muito mais econômicos e práticos do que carnívoros predadores. A produtividade do rebanho depende, também, do crescimento rápido: só quando os animais atingem a maturidade é possível selecionar os melhores para reprodução. Em países como a Índia, que ainda hoje emprega elefantes no transporte de carga, por exemplo, os especialistas do ramo preferem capturar e treinar alguns espécimes a manter um rebanho, já que os indivíduos levam mais de quinze anos para ficar adultos. Mesmo entre as espécies que atingem logo a maturidade, só se consegue domesticar aquelas que se reproduzem em cativeiro. Nem todos os animais cruzam quando estão entre cercas ou trancafiados em jaulas. Grandes felinos, que exigem amplos espaços para realizar os rituais de acasalamento, estão excluídos da lista de domesticáveis, portanto. A ferocidade inata é outro obstáculo. As zebras, capazes de violentas mordidas, nunca poderiam ter trilhado o mesmo caminho dos primos eqüinos. Mesmo quando nascidos e criados em cativeiro, os animais selvagens preservam o potencial ameaçador. Por isso continuam a ser apreciados os espetáculos de natureza circense: ainda que reduzidas à impotência, às vezes tratadas com grande crueldade, feras são sempre feras. O caso recente mais notório do gênero aconteceu em outubro de 2003, quando o domador alemão naturalizado americano Roy Horn, da dupla Siegfried e Roy, foi atacado por um tigre albino durante um espetáculo milionário num cassino de Las Vegas (Roy sobreviveu com graves seqüelas; antes de entrar em coma, pediu que "Montecore", o tigre que criou desde filhote, fosse tratado com todo o respeito).

Espécies muito assustadiças constituem uma outra categoria de problema. Gazelas e veados, se presos, podem morrer de pânico ou simplesmente se arrebentar contra a cerca. Por fim, o último requisito à domesticação é a sociabilidade. Ao contrário dos animais solitários, que demarcam território, os que vivem na natureza em bandos tendem a seguir uma hierarquia e, portanto, um líder. Por causa disso, aceitam mais facilmente o homem como espécime dominante.

 

A revolução dos bichos

Como a domesticação dos animais
moldou as sociedades humanas


Fotos Dilmar Cavalher/Strana


HÁ 12 000 ANOS

O indício direto mais antigo da domesticação de um animal são os restos mortais fossilizados de uma mulher abraçada a um filhote de cão ou lobo encontrados numa região que hoje é parte de Israel.

DE RIVAL A COMPANHEIRO
Há mais de doze milênios, o homem trocou a vida de caçador e coletor pela de agricultor. Arqueólogos imaginam que os detritos gerados pelas famílias recém-fixadas à terra tenham atraído alcatéias, que se aproximavam à noite, em busca de comida. O lobo começou a se aproximar da mão que o alimentava, e o homem, a valorizar a presença do predador. De lixeiro eventual, ele passou a guarda-noturno, espantando outros animais. Com o tempo, os espécimes mais dóceis foram entrando em casa, iniciando a real domesticação. Alguns estudiosos remontam a relação entre homens e ancestrais dos cães a mais de 150 000 anos.

HÁ 10 000 ANOS
Porcos, carneiros e ovelhas, cabras e bodes começaram a ser criados em diferentes regiões do Oriente Médio e da China.  

PROTEÍNAS PORTÁTEIS
As plantações de trigo e cevada passaram a atrair suínos, ovinos e caprinos selvagens, que invadiam as lavouras primitivas em busca de alimento. Comparativamente mansos, esses animais deram origem aos primeiros rebanhos da humanidade. A vantagem para os humanos foi enorme: as proteínas animais ficavam ao alcance da mão – e sem os riscos inerentes à caça.

HÁ 9 000 ANOS
Um dente de felino encontrado nas ruínas de Jericó, no território da Cisjordânia, indica que o gato já convivia com os humanos ainda no período neolítico.  

DEUSES NO CELEIRO
Os depósitos de grãos atraíam uma grande quantidade de roedores, que estragavam a comida e espalhavam doenças. Independentes, versáteis e excelentes caçadores, os gatos ainda selvagens livravam os celeiros desses invasores silvestres. A tradição diz que foram os egípcios que efetivamente trouxeram o gato, há cerca de 5 000 anos, para a intimidade dos templos – e das casas. O animal também era adorado como encarnação da deusa Bastet. Quem matasse um gato era punido com a pena de morte. Os animais que morriam de velhice ou doença costumavam ser mumificados.

HÁ 8 000 ANOS
Antigas ossadas de bovinos encontradas no sul da Turquia indicam o período da domesticação de vacas e touros selvagens.  

ENERGIA, COMIDA E TRANSPORTE
A domesticação de bovinos, fortes mas fáceis de controlar, deu um formidável impulso à sociedade humana. Atrelado ao arado, o gado foi a primeira fonte de energia usada pelo homem para aumentar a produtividade das lavouras. Com mais alimentos produzidos com menor esforço, a humanidade realizou a revolução agrícola e passou a ter tempo para se dedicar a outras atividades, como inventar a escrita. O gado também propiciou o uso da roda, inventada 3 000 anos depois, para puxar carroças carregadas de alimentos.

HÁ 5 000 ANOS
Marcas nos dentes de um cavalo morto no Cazaquistão indicam que já se usavam rédeas cinco milênios atrás.  

MOVIDO A QUATRO PATAS
Montado sobre um cavalo, o homem mudou a maneira de ver o mundo. Deixou seu rincão natal e conheceu outros povos, promovendo assim uma mistura de culturas. Antropólogos acham que foi nas costas de um eqüino que a língua-mãe dos idiomas indo-europeus se disseminou pelo mundo. Nasceu também a primeira guerra-relâmpago: cavaleiros são capazes de atacar os inimigos e se retirar mais rapidamente do campo de batalha do que guerreiros a pé. O burro, descendente de um asno selvagem que viveu no norte da África e no Sudeste Asiático, foi domesticado na mesma época, como besta de carga e montaria.

 
 
 
 
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