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Especial Dez
mil anos de amizade Esse é o tempo comprovado
da aproximação entre homens e cães símbolo
da relação complexa, apaixonada, utilitária ou até
cruel dos humanos com as outras espécies animais  Thereza
Venturoli
Montagem
sobre fotos de Edison Russo
 | COMPANHEIROS O
contato com animais transmite sensações de utilidade, conforto e segurança; cientistas
apontam a necessidade biológica de manter laços com o mundo natural, representado
por nossos parceiros na aventura da evolução |
Um
monge chega a uma ilha povoada por pingüins e, cegado pelo brilho da neve,
confunde-os com homens. Prega-lhes a palavra do Senhor e os batiza. Ao saber do
ato blasfemo, os Céus entram em polvorosa: como aceitar que meros pingüins
recebam o sacramento? Na tumultuada assembléia de anjos, santos e outras
entidades celestiais convocada por Deus, Santa Catarina, enfim, propõe
uma saída: que seja concedida aos animais uma alma mas uma alma
pequena. A parábola do francês Anatole France foi escrita em 1908,
mas traz à tona uma questão que, hoje, não só preocupa
biólogos e filósofos como diz respeito ao dia-a-dia de todos os
humanos: qual, afinal, é o lugar que os animais devem ocupar em nossa vida?
Para uma certa classe de animais, essa é
uma pergunta que não deixa muitas dúvidas. O lugar é o banco
do carro, o melhor travesseiro na cama mais fofa da casa ou, acima de tudo, o
colo de donos embevecidos, dispostos a atender a qualquer capricho de seus bichos
de estimação. Calcula-se que, em todo o mundo, 800 milhões
de cães e gatos sejam criados em lares. No Brasil, são 38 milhões.
Obviamente, uma enorme parcela ainda está muito longe das mordomias oferecidas
no topo do mundo animal, mas a, digamos, ascensão social de lulus e bichanos
é um fenômeno. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes
de Alimentos para Animais (Anfal Pet), o mercado brasileiro de pet food
assim mesmo, em inglês, como se consagrou a ração
entre os donos de bichos subiu de 220.000 para 1,3
milhão de toneladas entre 1994 e 2003. Está em expansão constante
também o setor de serviços destinados às mascotes, como lojas,
hoteizinhos e clínicas. Os seres humanos, enfim, não só se
cercam cada vez mais de animais de estimação como os tratam de fato
como membros da família, com direitos idênticos a alimentação,
saúde, bem-estar, afeto e também alguns exageros, como roupinhas,
laçarotes e outros acessórios cujo ridículo costuma ser suportado
com paciência e dignidade pelos consumidores involuntários. Por que
tudo isso? O homem provavelmente carrega nos genes
o amor pela natureza e é amplamente recompensado por isso. Que os
animais de estimação satisfazem várias necessidades humanas
da saúde física e emocional ao aprendizado intelectual e
motor é fato bastante estudado. Pesquisas demonstram que crianças
que têm um bichinho por companhia desenvolvem mais rapidamente suas habilidades
cognitivas e socioemocionais: as mascotes incentivam a comunicação
e a responsabilidade dos filhotes humanos e facilitam sua convivência com
os demais membros de seu grupo. As mascotes ajudam a fazer amizades e a encarar
a vida com otimismo, principalmente entre idosos: pessoas que mantêm animais
conversam mais sobre o presente e o futuro do que sobre o passado uma atitude
natural, se considerarmos que cuidar de um bicho de estimação traz,
além de satisfações, preocupações e cuidados.
Cães, gatos, peixes, pássaros e cavalos
também podem acelerar ou melhorar o restabelecimento de pessoas com doenças
do corpo, da psique ou da alma. Segundo fisioterapeutas e psicólogos, atividades
como tocar os animais e sentir seus movimentos vão além dos benefícios
físicos: ajudam vítimas de lesões musculares a melhorar a
coordenação motora e a recuperar a capacidade de locomoção.
Pacientes de problemas cardíacos que mantêm contato com algum bicho
vivem mais tempo do que aqueles que não têm nenhum. E crianças
hospitalizadas se recuperam mais rapidamente se receberem uma eventual visita
de quatro patas. A explicação encontrada por psicólogos para
todo esse efeito benéfico é que a atenção dispensada
a um animal de companhia nos transmite a sensação de utilidade,
conforto e segurança. Segundo os veterinários, o contato com os
bichos libera no corpo a célebre endorfina, uma substância que funciona
como analgésico e relaxante natural. A dura batalha contra os sentimentos
de solidão, depressão e ansiedade fica um pouco mais suportável
com um companheiro animal por perto. Os animais
de estimação parecem ter jurado lealdade e companheirismo ao homem
na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na glória
ou na sarjeta e, por isso, nos são muito caros. Mas, como as espécies
selvagens, eles também despertam em nós um profundo sentimento de
familiaridade e fascínio o que Edward O. Wilson, biólogo
da Universidade Harvard, chama de biofilia (literalmente, "amor à vida").
Criador da teoria conhecida como sociobiologia, Wilson entende que a sociedade
humana evolui segundo as mesmas leis de seleção que comandam o mundo
natural ou seja, o comportamento humano teria mais a ver com os genes com
que cada indivíduo nasce do que com o que ele aprende por meio da cultura.
Wilson afirma que o homem tem necessidade biológica de manter laços
com o mundo natural e, portanto, com os animais, nossos parceiros de evolução.
Parceiros tão leais e aos quais estamos tão ligados que, mesmo depois
de deixarmos de dividir com eles o ambiente selvagem, não nos permitimos
excluí-los da vida "civilizada". Reuters
 | AP
 | ESTÁ
NO GENE Animais domésticos ou selvagens despertam
profundo sentimento de fascínio e familiaridade – e suportam com dignidade até
o ridículo de roupinhas e laçarotes |
O
primeiro indício concreto do elo afetivo entre um humano e um animal data
de 12.000 anos. São os restos fossilizados de
uma mulher abraçada a um filhote de cão ou de lobo encontrados em
uma região que hoje corresponde a Israel. Mas suspeita-se que o homem tenha
começado a conviver com algumas espécies, em um regime de colaboração
mútua, muito antes de domesticá-las. Há mais de 140.000
anos, quando o homem ainda dependia da caça e da coleta para se alimentar,
alcatéias de lobos já seguiam os bandos nômades, a fim de
aproveitar as carcaças largadas pelo caminho. Há cerca de 10.000
anos, esse laço se estreitou (veja quadro).
O cão começou a entrar em casa e canalizou seu primitivo espírito
gregário e seu instinto de clã para aquele que veio a se tornar
seu proverbial melhor amigo: o homem. "A coragem e a tenacidade com que um cão
protege seu dono parecem ter origem na solidariedade que seus ancestrais selvagens
encontravam nas alcatéias. Nesse sentido, o cão atual é um
lobo que vive numa matilha humana", disse Edward Wilson a VEJA.
O homem, entretanto, escolhe bem as espécies com as quais vai compartilhar
laços de afeto e cooperação. Às demais ele dá
um destino bem diverso: o prato. O homem é, e sempre foi, um onívoro,
capaz de atacar em todas as escalas da vida animal para garantir suas necessidades,
inclusive a de satisfação do paladar, pois o prazer da carne é
quase insubstituível. A idéia tem gerado alguma controvérsia
nos últimos anos, mas continua bem estabelecida na antropologia: a ingestão
de carne foi um dos grandes propulsores da criação da cultura humana.
Em algum momento da evolução, os seres humanos tornaram-se muito
mais carnívoros do que a maioria dos primatas. A dieta rica em proteínas
acelerou o crescimento do cérebro e o cérebro grande levou
à criação da cultura. Ou seja, comer carne foi um dos pré-requisitos
para o desenvolvimento da cultura entre os homens.
O processo entrou num ritmo conhecido. Quanto mais bem nutrido, mais bem-sucedido
era o Homo sapiens daí, maior a população humana
e a necessidade de animais para mantê-la alimentada. Desde a época
de nossos antepassados nômades, onde quer que os humanos coloquem os pés
a vida selvagem corre risco de extinção. Foi o que aconteceu há
11.500 anos, logo após a chegada de grupos humanos
à América do Norte, quando 73% dos grandes mamíferos da região
desapareceram. Hoje, a expansão da população humana e suas
vastíssimas conseqüências ambientais têm tal escala que
alguns cientistas suspeitam estarmos diante da sexta extinção
a quinta aconteceu há 65 milhões de anos e varreu do planeta os
dinossauros. Para o biólogo inglês
Desmond Morris, autor de O Contrato Animal, de 1990, o crescimento descontrolado
da população humana é responsável por outro fenômeno
ainda: o recuo da natureza e o isolamento do homem. A necessidade cada vez maior
de alimentos e de terras cultiváveis levou à quebra das regras originais
que permitiam ao homem dividir o planeta de maneira equilibrada com as demais
espécies. Campos e matas, antes arenas de um embate justo entre presa e
predador, cederam lugar a aglomerações humanas cujo mero tamanho
implica a eliminação de populações inteiras de animais.
A redução das áreas selvagens do continente africano e das
florestas tropicais e equatoriais, como a Amazônia, últimas grandes
reservas, prenuncia um mundo irremediavelmente dividido de um lado, os
humanos; do outro, todas as demais espécies animais, ou as que restarem.
Os bichos destinados ao prato, em contrapartida,
acompanham o inchaço populacional. Para uma população mundial
de 6 bilhões de humanos, as fazendas criam 22 bilhões de espécimes
de bois e vacas, porcos, galinhas e perus. A transposição do sistema
de linha de montagem para o universo agropecuário, no início do
século XX, abriu a possibilidade de confinar grande número de aves
e bovinos em espaços exíguos, à espera de sua vez no abatedouro.
É um paradoxo: ao mesmo tempo que crescem a afeição dos homens
por seus bichos de estimação e sua preocupação com
a preservação dos animais selvagens, os espécimes domesticados
cada vez mais se tornam apenas um produto industrial.
Imagine-se uma fábula do "tempo em que os bichos falavam", na qual o homem
se sentasse à frente de um boi ou de uma galinha e, à moda dos casais
humanos modernos, se propusesse a "discutir a relação". É
bem provável que o animal começasse o diálogo com a questão:
"Você precisa mesmo nos comer?". Se o representante dos humanos fosse o
filósofo australiano Peter Singer, a resposta seria um sonoro "não".
O autor de Libertação Animal, de 1975, e pai de um dos movimentos
mais radicais de defesa dos animais, considera que o caráter utilitário
que permeia o relacionamento com os animais é fruto do preconceito que
o homem tem em relação às outras espécies o
que ele chamou de especicismo , comparável apenas aos maiores horrores
cometidos contra a própria humanidade, como a escravidão dos negros.
Para Singer, que leciona bioética na Universidade Princeton, nos Estados
Unidos, os animais devem usufruir os mesmos direitos concedidos a qualquer humano,
por uma única razão: como nós, eles também têm
capacidade de sofrer física e psicologicamente. Para o filósofo
que abraçou o vegetarianismo por razões éticas ,
a questão central do relacionamento entre homens e animais é exatamente
essa: por que comê-los? (veja artigo).
AFP
 | OS
PREDADORES A caçada na Romênia: onde há humanos,
a vida selvagem corre risco; escala atual é trágica |
A
resposta provavelmente é: porque podemos. A velha idéia, porém,
de "superioridade" humana é cada vez mais contestada. No livro Humankind,
a Brief History (Humanidade, uma Breve História, não traduzido
para o português), o historiador inglês Felipe Fernández-Armesto,
da Universidade de Londres, afirma que a ciência tem desmontado o arcabouço
de argumentos sobre o qual se pôs a humanidade como uma categoria especial.
Segundo ele, não existe nenhuma justificativa filosófica, antropológica,
biológica ou paleontológica que legitime o poder que nos atribuímos.
O código genético que define o homem, por exemplo, é 98%
idêntico ao código de um chimpanzé. A própria separação
entre macacos e humanos, ao longo da evolução, é confusa.
O homem de Neandertal, por exemplo, recentemente foi reclassificado e excluído
da árvore genealógica da espécie humana.
Não existiria, tampouco, nenhuma característica comportamental que
defina os humanos como uma espécie única, separada de todas as demais
nem o domínio da linguagem nem a construção de ferramentas.
Vários estudos de biólogos e psicólogos, realizados principalmente
a partir da segunda metade do século XX, demonstram quanto é difícil
delimitar as fronteiras entre o mundo humano e o animal. Um dos estudos mais impressionantes
é o da especialista em comportamento animal Irene Pepperberg, da Universidade
do Arizona. Irene se dedica a pesquisar a capacidade que aves "falantes" têm
de se comunicar e de aprender. O maior sucesso de seus experimentos é "Alex",
um papagaio-do-congo que não se restringe a repetir palavras. Alex conhece
cores e domina conceitos abstratos, como a quantidade, as dimensões e a
posição de objetos que lhe são mostrados o que, na
explicação de Irene, indica que essas aves são capazes de
raciocinar como qualquer um de nós. Outro exemplo são os trabalhos
da bióloga inglesa Jane Goodall com chimpanzés da Tanzânia.
Em quarenta anos de pesquisa, Jane flagrou um dia-a-dia surpreendentemente humano.
Os chimpanzés não só constroem ferramentas como varas
para "pescar" cupins e pedras para esmagar nozes como transmitem a técnica
de uma geração a outra, num processo extremamente semelhante ao
que ocorre entre pais e filhos humanos e que define o que chamamos cultura.
Por que então os animais não compuseram sinfonias, escreveram romances
ou inventaram a roda, o avião ou a bomba atômica? Fernández-Armesto
diz que as conquistas intelectuais e tecnológicas nos separam de alguns
animais apenas em gradação, não em essência. Ele conclui
ousadamente: "Outros primatas próximos do homem não enveredaram
pela aventura intelectual porque ela simplesmente em nada servia a seu estilo
de vida. A evolução não os obrigou, como a nós, a
produzir ferramentas mais requintadas do que as que possuem".
Por tudo isso, Fernández-Armesto acha que é hora de repensar o que
define a humanidade e, a partir daí, a relação entre
homens e animais. Nesse ponto, poodles brincalhões ou lânguidos siameses
possam talvez ter alguma utilidade além de nos dar conforto e companhia.
Os animais domésticos simbolizam há muito o elo que manteve o homem
intimamente ligado à natureza durante milhões de anos um
elo perdido durante o processo civilizatório. É por meio deles que
temos a sensação de pertencer a um mundo que vai além do
egoísmo e admite a possibilidade de que valha a pena olhar para o outro.
A psicóloga e antropóloga Barbara Smuts, da Universidade de Michigan,
parece ter encontrado a receita para retomar o caráter essencialmente natural
do homem. Depois de anos estudando 140 babuínos na África, Barbara
descreve, em A Vida dos Animais, de J.M. Coetzee, como só é
possível manter um relacionamento de igual para igual com os animais de
outras espécies ao abrir mão do papel de criador e reconhecer em
cada criatura sua personalidade. Voltando à fábula de Anatole France:
ao final da assembléia, Deus resolve conceder uma alma aos pingüins
e, por conseqüência, transforma-os em homens. Talvez os animais possam
devolver o favor e, ascendendo a algum desvão esquecido, chamado memória
coletiva ou "alma", contribuam à sua humilde maneira para salvar o homem
do seu maior inimigo: ele mesmo. 
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