Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Oriente Médio
Onde está o dinheiro?

Palestinos querem saber do paradeiro
da fortuna de Yasser Arafat


José Eduardo Barella


AP
Suha Arafat: disputa com líderes palestinos pelo espólio do marido

De todos os segredos que Yasser Arafat levou para o túmulo, os palestinos só querem saber de dois – o tamanho de seu império financeiro e quais os códigos que dão acesso ao dinheiro. As estimativas da fortuna pessoal do líder palestino variam de 300 milhões a 5 bilhões de dólares, mas é provável que o valor exato jamais seja conhecido. Arafat administrava os recursos das instituições palestinas como se fossem seus, e nunca confiou em ninguém. Por quatro décadas, ele controlou pessoalmente o fluxo de dinheiro doado para a causa palestina, depositando somas milionárias em contas abertas em seu nome ou de assessores próximos. O montante entrava e saía sem registros formais. A movimentação era de conhecimento dos demais dirigentes palestinos, mas apenas Arafat sabia onde cada centavo estava aplicado. Uma auditoria do Fundo Monetário Internacional descobriu que, entre 1994 e 2003, Arafat desviou 900 milhões de dólares dos cofres da Autoridade Palestina (AP) para investir no exterior. Boa parte do dinheiro foi devolvida no ano passado e colocada em um fundo sob supervisão internacional.

O espólio de Arafat que precisa ser encontrado se refere ao dinheiro da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e de outras entidades palestinas, recursos que ele continuou movimentando em seu nome. "Esse dinheiro pertence ao povo palestino", diz Hassan Khreisheh, presidente do Parlamento palestino, que exige uma investigação completa. A CIA, o serviço secreto americano, estima que o montante possa chegar a 1,5 bilhão de dólares. O império financeiro que Arafat criou inclui aplicações em fundos de investimentos, participações acionárias em companhias telefônicas e fábricas no mundo árabe, além de rede de hotéis na Europa. Há outros milhões em nome de laranjas ou depositados em contas secretas que dificilmente serão recuperados. Algumas pistas já surgiram. Em 2002 e 2003, 11,5 milhões de dólares foram transferidos de um banco suíço para a conta de Suha, esposa de Arafat, em Paris. A viúva já avisou aos caciques palestinos que não abrirá mão do que tem direito, ou seja, o dinheiro em nome de Arafat. O governo palestino já cortou pela metade a mesada de 100.000 dólares que ela e a filha, Zahwa, de 9 anos, recebem.

As doações internacionais para a OLP giravam em torno de 200.milhões de dólares anuais até a Guerra do Golfo, em 1991. Então, a fonte secou. O maior doador, a Arábia Saudita, cortou a verba para punir Arafat por ter apoiado Saddam Hussein. A ajuda internacional cresceu novamente depois dos acordos de Oslo, em 1993, que criaram o governo semi-autônomo da Autoridade Palestina nos territórios ocupados. A ironia é que o líder palestino levou uma vida austera. Sua estratégia era usar o dinheiro como instrumento de poder. Ele financiava dúzias de organizações políticas e mantinha uma política de troca de favores. Os manda-chuvas próximos a Arafat têm o monopólio de vários serviços essenciais, como a venda de cimento, a distribuição de gasolina e o serviço de telefonia fixa. Uma certeza é que, apesar de a maioria dos palestinos viver na miséria, seus dirigentes estão milionários.

 
 
 
 
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