Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Internacional
A mulher mais poderosa
do mundo

Condoleezza Rice, a ideóloga da
guerra preventiva, é indicada para
o cargo de secretária de Estado


Diogo Schelp

AP
ASSESSORA E AMIGA
Rice e Bush no anúncio da nomeação dela: fins de semana com a família Bush

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Condoleezza Rice, indicada secretária de Estado na semana passada pelo presidente George W. Bush, tem doçura só no nome. Condoleezza é uma corruptela da expressão musical con dolcezza – "com doçura", em italiano. Rice é mais conhecida pelo caráter implacável, disciplinado e pouco afeito a sentimentalismo. Como secretária de Estado, ela poderá fazer abertamente o que, de muitas formas, fazia nos bastidores: dar as cartas na política externa americana. A importância do cargo e a influência que Rice exerce sobre Bush – algo que seu antecessor, Colin Powell, nunca conseguiu – fazem dela a mulher mais poderosa do mundo. Sua visão de política externa é mais agressiva que a de Powell e coincide quase que integralmente com o que pensa e quer Bush. Ela é uma das mentoras do princípio de guerra preventiva, adotado por Bush para ordenar a invasão do Iraque em março de 2003. Por essa doutrina, os Estados Unidos se consideram no direito de atacar qualquer país que possa representar uma ameaça no futuro, sem necessidade de buscar a aprovação da comunidade internacional. Powell defendia que uma guerra deve ser feita com o máximo de apoio internacional. É uma das razões para ele ter sido um estranho no ninho de falcões do governo americano, dominado por neoconservadores como o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Seu afastamento era esperado desde que o presidente decidiu invadir o Iraque sem consultá-lo. Em seu livro Plano de Ataque, o jornalista americano Bob Woodward escreveu que a única pessoa a quem Bush pediu opinião sobre o assunto foi a sua assessora de Segurança Nacional – ou seja, Condoleezza Rice.

Para o resto do mundo, há uma vantagem e duas desvantagens na indicação de Rice, que ainda precisa ser aprovada pelo Senado. O lado positivo é que, nas negociações diplomáticas com a secretária de Estado, os líderes mundiais saberão que o que ela disser representará a visão e o desejo do presidente dos Estados Unidos. Com Powell não era bem assim. Qualquer chefe de Estado sabia que ele e Bush tinham opiniões divergentes, e isso causava insegurança diplomática. Os pontos negativos estão relacionados ao currículo de Rice. Ela não tem experiência na diplomacia. Toda a sua carreira foi como cientista política e professora universitária. "Ela me explica a política externa de uma maneira que eu consigo entender", disse certa vez Bush. No governo ela não se mostrou capaz de transformar suas análises teóricas em ações de sucesso. Entre outras falhas, é acusada de ter recebido e ignorado, um mês antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, um relatório do serviço secreto intitulado "Bin Laden determinado a atacar dentro dos Estados Unidos".

A postura radical em relação à diplomacia já era acentuada na época em que Rice foi professora e reitora da Universidade Stanford. "Certa vez, assisti a um debate em Stanford em que ela disse que qualquer país que fosse contra os interesses americanos seria considerado inimigo", conta o advogado Osvaldo Agripino, de Florianópolis, que foi professor visitante de direito internacional na universidade americana. "Rice será uma servidora leal dos planos e da visão de mundo de Bush, e isso não é um bom sinal para quem esperava uma abordagem mais suave para a diplomacia americana", escreveu em editorial o jornal The New York Times, crítico contumaz do governo republicano.

Rice usufrui, mais do que Rumsfeld ou Cheney, de uma mercadoria preciosa em Washington: o tempo do presidente. Com 50 anos, a nova secretária de Estado nunca se casou e não tem filhos. Ela passa com freqüência o fim de semana com a família Bush e costuma assistir com o presidente a partidas de futebol americano pela TV. Especialista em União Soviética, Rice foi assessora do governo de Bush pai entre 1989 e 1991, período que marcou o desmonte do comunismo no Leste Europeu. Filha de professores universitários emigrados da Jamaica, Rice nasceu no Alabama em uma época de forte segregação racial. Entrou na universidade aos 15 anos, para estudar piano clássico. Josef Korbel, professor de política internacional, a fez mudar de curso. Korbel era pai de Madeleine Albright, que no governo de Bill Clinton foi a primeira mulher a ocupar a secretaria de Estado.

 
 
 
 
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