|
|
Medicina
A vitória de
chegar ao berço
A medicina
já consegue salvar bebês
nascidos com apenas cinco meses de
gestação e pouco mais de meio quilo

Karina Pastore e Giuliana Bergamo
Claudio Rossi
 |
Álbum de família
 |
| Isabella Kiehl hoje, aos 4 anos e 7 meses,
e com 2 semanas de vida (à dir.): 122 dias de
UTI e mais de vinte entubações por problemas respiratórios |
 |
Renata e
Roberto Kiehl esperavam ansiosos (e radiantes) a chegada do primeiro
bebê. Isabella foi uma criança desejadíssima.
"Mas, ao ver minha filha, tive muito medo de amá-la", diz
Renata. A menina nasceu em 10 de abril de 2000, na 26ª semana
de gestação três meses e meio antes do
previsto. Sua fragilidade era assustadora: ela pesava apenas 600
gramas. De tão transparente, a pele revelava o sangue correndo
pelas veias e artérias do corpinho de apenas 31 centímetros.
Renata receava amar Isabella porque temia perdê-la. Na UTI
neonatal do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a mãe
viu a filha ser entubada mais de vinte vezes por problemas respiratórios.
"Cada dia de vida a mais era uma vitória", lembra Renata.
Isabella ficou internada por 122 dias. Apesar da alta, mesmo em
casa, os pais não sossegaram. No primeiro mês, Renata
dormia vestida, com a chave do carro na mão, para o caso
de uma emergência noturna. Ela e Roberto pesavam o bebê
várias vezes ao dia. Cada grama de peso ganho era motivo
de festa. O casal fazia de tudo para a filha não chorar,
porque a energia gasta no choro poderia fazê-la perder peso.
Hoje, aos 4 anos e 7 meses, Isabella é uma menina absolutamente
normal. Nenhuma seqüela do parto prematuro? Bem, ela é
da turma das baixinhas.
A sobrevivência
de Isabella é fruto dos incríveis avanços da
neonatologia. Vinte anos atrás, cerca de 20% dos bebês
prematuros nascidos com quase 600 gramas sobreviviam. Hoje, 40%
das crianças que nascem com pouco mais de meio quilo vingam
(veja quadro). O cenário,
evidentemente, é o das melhores maternidades brasileiras,
acessíveis apenas a clientes de classe média alta
para cima. Nesses centros, as taxas de sobrevida dos prematuros
comparam-se às de países cujo sistema de saúde
é considerado de altíssima qualidade, como a Inglaterra.
No Hospital Albert Einstein, por exemplo, 90% dos bebês
nascidos com peso entre 750 e 999 gramas sobrevivem. A batalha é
longa e sofrida, mas pode ser vencida.
O que determina
a prematuridade é o que os médicos chamam de idade
gestacional. Para amadurecer naturalmente, um feto precisa de, em
média, quarenta semanas dentro do útero materno. Se
o bebê nasce antes da 37ª semana de gravidez, é
considerado prematuro. O principal índice do grau de prematuridade
é o peso. A criança entra para a faixa de risco quando
tem menos de 2,5 quilos. Atualmente, a neonatologia é capaz
de salvar bebês que nascem a partir da 22ª semana, com
500 gramas, em média. Antes disso, é impossível
e, provavelmente, será sempre. Isso porque a 22ª
semana é o ponto de viabilidade fetal, conforme definem os
médicos, quando os órgãos vitais finalmente
estão formados, ainda que funcionando de maneira incipiente.
"O
nosso maior objetivo hoje não é apenas fazer com que
essas crianças sobrevivam", diz o médico Luiz Carlos
Bueno Ferreira, chefe do serviço de neonatologia do Hospital
e Maternidade São Luiz, em São Paulo. "É fazer
também com que elas sobrevivam sem maiores seqüelas."
As conquistas no campo da neonatologia são notáveis,
mas não se podem desprezar os danos inerentes à prematuridade.
Os sintomas não aparecem necessariamente no nascimento. Muitos
só se manifestam a longo prazo. "É esperado que cerca
de 20% dos nascidos até a 26ª semana de gravidez apresentem
algum problema até os 5 anos", afirma o ginecologista e obstetra
Wladimir Taborda, coordenador do departamento de perinatalogia do
Hospital Albert Einstein. As seqüelas vão desde uma
simples miopia até complicações mais sérias,
como paralisia cerebral, retardo mental, distúrbio motor
e somático, surdez, cegueira ou alterações
da fala.
Buscar
meios para diminuir os riscos de problemas decorrentes da prematuridade
é especialmente importante numa época em que é
cada vez maior o número de crianças nascidas antes
da hora. Nos Estados Unidos, a incidência de partos prematuros
cresceu quase 30% desde 1980. O principal fator para esse fenômeno
é o aumento das gestações múltiplas,
provocadas pelos tratamentos de fertilidade. Na ânsia por
um bebê, boa parte dos casais com dificuldade para ter filhos
opta pela implantação de quatro a oito embriões.
Com a tecnologia disponível, não é incomum
que mais de dois deles vinguem. É impossível medir
o impacto das gestações múltiplas na população
brasileira como um todo. Mas ele é bem evidente nos principais
hospitais privados do Brasil. Na Maternidade Santa Joana, em São
Paulo, o índice de partos prematuros, causados por gestações
múltiplas, cresceu 45% entre 1996 e 2003. A explicação
é prosaica: as mulheres não foram programadas para
gerar mais de um feto por vez. Até dois, a natureza consegue
dar conta do recado com certa tranqüilidade. A partir de três,
as complicações são inevitáveis. Um
estudo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, mostra que a probabilidade
de uma mulher grávida de um só feto dar à luz
um prematuro extremo é de menos de 2%. No caso de gêmeos
ou trigêmeos, os riscos saltam para 12% e 60%, respectivamente.
Essa "epidemia" de gêmeos, trigêmeos e quadrigêmeos
com nascimento antes do previsto fez com que algumas maternidades
criassem UTIs destinadas especialmente a crianças de extremo
baixo peso. É o caso dos hospitais paulistas São Luiz,
Pro Matre e Albert Einstein. Assim que soube que estava grávida
de três meninos, no início de 2002, a psicóloga
Ana Paula Dantas Rameh se preparou para as aflições
da quase certa prematuridade. No curso para gestantes, enquanto
as outras grávidas visitaram os quartos de maternidade, Ana
Paula foi conhecer a UTI neonatal do São Luiz (veja
depoimento).
O primeiro
desafio para um bebê nascido antes do tempo é respirar.
Os pulmões estão entre os últimos órgãos
a amadurecer o que acontece geralmente na 35ª semana
de gestação. No nascimento de um bebê gerado
no prazo normal, quando o médico corta o cordão umbilical,
a criança fica momentaneamente sem oxigênio. Ela precisa,
então, fazer um esforço descomunal para que seus pulmões
entrem em funcionamento o choro é o resultado dessa
luta. As crianças que nascem antes da hora, sobretudo os
prematuros extremos, além de não ter os pulmões
inteiramente amadurecidos, não dispõem de força
para buscar o ar. Seu organismo também não produz
em quantidade suficiente uma substância chamada surfactante,
que evita que os alvéolos dos pulmões se grudem uns
nos outros no movimento de aspiração e expiração.
Uma versão sintética da substância surfactante,
desenvolvida no Japão no início da década de
80, passou a ser usada em larga escala no Brasil há cerca
de dez anos. Aplicada diretamente na traquéia do recém-nascido,
ela favorece o amadurecimento pulmonar. Graças à invenção,
a sobrevida dos prematuros vítimas de insuficiência
respiratória aumentou em até 30%.
A síntese
em laboratório do surfactante foi o grande passo da neonatologia.
A ela se seguiu uma série de inovações. As
incubadoras mais modernas são capazes de detectar as mínimas
alterações nos sinais vitais do bebê. A alimentação
parenteral foi aperfeiçoada. Se antes ela consistia apenas
em glicose, agora combina proteínas, sais minerais, vitaminas
e gorduras nas quantidades exatas para não irritar o sistema
digestivo, ainda incapaz de processar até mesmo o leite materno.
Sondas, cateteres e agulhas do diâmetro de um fio de cabelo
foram desenhados de forma tal que não impingem maiores sofrimentos
a crianças tão frágeis. Em meados da década
de 80, os pequenos ficaram livres das coletas de sangue freqüentemente,
mais de uma vez por dia para a análise do nível
de oxigênio. Essa medição começou a ser
feita por um aparelho externo, preso por velcro ao pulso do recém-nascido.
"Não ter de coletar sangue com tanta freqüência
foi um progresso indizível, já que alguns prematuros
têm um volume de sangue equivalente ao de uma xícara
de cafezinho", diz o médico Luis Eduardo Miranda, chefe da
UTI neonatal da Casa de Saúde São José, no
Rio de Janeiro.
Há
que levar em conta ainda o aperfeiçoamento das técnicas
cirúrgicas em prematuros. Os instrumentos foram miniaturizados.
Para uma cirurgia de pulmão, por exemplo, é preciso
afastar uma costela da outra. Num adulto, esse procedimento é
feito com uma pinça de 30 centímetros de comprimento.
Num prematuro, utiliza-se hoje um aparelho de 3 centímetros,
originalmente desenhado para manter as pálpebras de um adulto
abertas durante uma cirurgia de olho. "As intervenções
exigem tanta delicadeza e precisão que o treinamento para
operar prematuros é feito em ratos de laboratório",
diz Pedro Muñoz Fernandez, cirurgião pediatra das
maternidades Santa Joana e Pro Matre.
Há
muitos fatores que levam à prematuridade, além das
gestações múltiplas. Entre eles estão
a hipertensão e o diabetes maternos, infecções
vaginais e partos prematuros prévios. Salvar bebês
que nascem antes do previsto é uma das frentes da medicina.
A outra é evitar esse tipo de nascimento. Certas medidas
são capazes de retardar por algum tempo os partos precoces
(veja quadro), o que não raro
pode ser decisivo: a prática médica mostra que, entre
a 23ª e a 26ª semana de gestação, cada dia
a mais dentro do útero materno aumenta em 3% a chance de
sobrevivência da criança.
|
Drama
previsto
Fotos Claudio Rossi
 |
"Eu soube que teria uma gravidez complicada desde o
segundo ultra-som, quando descobri que teria três
bebês. Desde então fui me preparando. Fiz
o curso para gestantes antes do período normal
e, enquanto as outras grávidas visitavam os quartos
da maternidade, eu visitava a UTI para prematuros. Não
foi fácil, é claro. Mas esperava um quadro
até pior. Comecei a sentir contrações
na 23ª semana de gravidez e precisei ser internada
por cerca de cinqüenta dias para segurar o trabalho
de parto. Eu achava que meus filhos não chorariam
ao nascer. Mas eles choraram um a um. Eles nasceram
com 30 semanas e todos com menos de 1,5 quilo. Apesar
de todos os receios, deu tudo certo. Hoje eles têm
quase 3 anos e apresentam um desenvolvimento normal,
sem nenhuma seqüela."
Ana
Paula Dantas Rameh,
de
33 anos, psicóloga, com o
marido,
Sérgio,
e
os trigêmeos Guilherme, Rodrigo e Gabriel
|
|
|
Perigo
em dose dupla
"Eu já tinha
pressão alta, mas no quinto mês de gravidez
o quadro ficou muito pior. Na 36ª semana de gestação,
fui internada e os médicos decidiram que o melhor
era fazer o parto, pois a nutrição e o
crescimento da minha filha estavam comprometidos. O
feto estava em sofrimento, como dizem os médicos.
Depois que recebi alta, soube que nós duas havíamos
corrido risco de morte e que meu marido tinha sido alertado
sobre a possibilidade de ter de optar pela vida de uma
ou de outra. Maria Clara nasceu com 36 semanas e apenas
1,6 quilo. Ela ficou um mês na UTI. Seu aparelho
digestivo funcionava muito mal, e ela não ganhava
peso. Maria Clara começou a melhorar de verdade
quando passei a ter um contato físico mais intenso
com ela, a partir da sua segunda semana de vida."
Aline
Virgínia Gomes da Silva,
de
33 anos, securitária, com
a filha,
Maria Clara, de
3 meses e 2 quilos
|
|
|
A prematura que entrou
para
a história da medicina
Fotos AP
 |
 |
Madeline
Mann tem apenas 15 anos, mede cerca de 1,40 metro, pesa
pouco mais de 27 quilos e já é uma recordista.
Quando nasceu, nos Estados Unidos, com 27 semanas de
gestação, a menina pesava apenas 284 gramas
e media 25 centímetros, o suficiente para caber
numa lata de refrigerante e sumir na mão de uma
enfermeira. Suas dimensões lhe renderam o título
de o menor bebê prematuro da história da
medicina. Na época, os médicos não
duvidavam que ela até pudesse sobreviver, mas
tinham certeza de que a pequena seria vítima
de graves seqüelas decorrentes da extrema prematuridade.
"Sua sobrevivência não foi um milagre,
mas seu desenvolvimento foi", diz o médico Jonathan
Muraskas, responsável por cuidar da menina. Madeline,
hoje, destaca-se pela maestria com que toca violino.
As únicas seqüelas de seu nascimento precoce
são suas medidas mirradas e uma asma.
|
|
|