Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Polícia
Gloria Trevi
livre e amada

Absolvida, a cantora mexicana que esteve
presa no Brasil volta a fazer sucesso


José Eduardo Barella

 
AP
Gloria ao lado do filho, Angel Gabriel: sua história vai virar telenovela

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A cantora mexicana Gloria Trevi, que esteve presa três anos no Brasil à espera de extradição e engravidou num xadrez da Polícia Federal, conseguiu uma proeza entre as celebridades encrencadas com a Justiça: emergiu do escândalo de exploração sexual de menores em que esteve envolvida nos últimos cinco anos com a popularidade nas nuvens. De vilã, Gloria foi alçada à condição de mártir, vítima da manipulação e dos desvios sexuais de seu empresário, produtor e amante, Sergio Andrade. Pelo menos é assim que os fãs da cantora encaram o desfecho do caso, cujos contornos são escabrosos. A reviravolta teve início em setembro, quando Gloria Trevi foi absolvida pela Justiça mexicana por falta de provas. Nem a cantora esperava a absolvição. Gloria era acusada de corrupção de menores e aliciamento de dezenas de adolescentes contratadas por Andrade para dividir o palco com ela. Como o processo judicial se estendeu por vários anos, as meninas que poderiam confirmar as denúncias preferiram esquecer o assunto. Algumas delas por terem se casado. Outras, acredita-se, optaram pelo silêncio com medo de represálias. Andrade, que continua preso à espera de julgamento, é irmão de um político poderoso e, dizem, vingativo.

Gloria Trevi saiu da prisão direto para as paradas de sucesso. Em apenas dois meses, ela produziu um disco, fez fotos sensuais para uma revista masculina e direcionou sua carreira para o mercado fonográfico americano, onde pode atingir um público de 20 milhões de mexicanos, entre imigrantes e descendentes. A volta aos palcos, numa premiação de cantores latinos em Los Angeles, foi uma celebração popular. Diante do entusiasmo do público, os organizadores criaram uma categoria nova, o Prêmio Alma do Povo, especialmente para ela. Aos 36 anos, a cantora anunciou a venda dos direitos de sua saga à TV, que vai transformá-la em telenovela. Gloria, que durante anos defendeu Andrade com unhas e dentes, diz agora ter se livrado da influência nefasta do empresário. Pode ser que sim, mas o novo namorado, um advogado, é igualmente do tipo amor bandido. Logo que o casal desembarcou nos Estados Unidos, ele foi preso pela polícia americana por lavagem de dinheiro.

 
Fotos Reuters
Fãs da cantora comemoram sua absolvição em Monterrey. À direita, o amante, Sergio Andrade

Antes do escândalo, Gloria Trevi era a cantora mais popular do México, cativando adolescentes com suas roupas provocantes, a coreografia sensual e as letras agressivas de suas músicas. Devia a Andrade sua estréia nos palcos, aos 16 anos. A cantora era acompanhada por uma banda formada por meninas, todas com menos de 15 anos. A primeira denúncia surgiu em 1998. Aline Hernández, que participara da banda e fora casada com Andrade dos 16 aos 19 anos, contou num livro que era forçada pelo marido e pela cantora a tomar parte em orgias. Ela não era a única, escreveu. Dúzias de meninas tinham sido seduzidas com promessas de estrelato. Quando Aline abandonou o grupo, o harém de Andrade era formado por treze adolescentes. Em 1999, veio a denúncia oficial – dessa vez, dos pais de uma das meninas da banda, revoltados por descobrir que o empresário tinha engravidado a filha. Foi quando o casal decidiu sumir. Gloria e Andrade estiveram escondidos em pelo menos três países. Um ano depois, foram presos no Rio de Janeiro – onde viviam com mais quinze adolescentes mexicanas. Do grupo, cinco estavam grávidas de Andrade, incluindo duas irmãs. Outra tinha abandonado um filho recém-nascido na Espanha.

Um dos mistérios é o domínio total que o empresário exercia sobre Gloria. "Andrade é inteligente, carinhoso, atencioso e muito carente", derrete-se a despachante Silvia Beeg, que prestou serviços para o casal mexicano em Brasília. Os dois tiveram uma filha logo que desembarcaram no Brasil, mas o bebê recém-nascido morreu no berço, sufocado pelo próprio vômito. Gloria, o empresário e outra artista, Maria Portillo, conhecida como Mary Boquitas – mais uma que teve um filho com Andrade –, foram presos no Brasil a pedido da Justiça mexicana. Passaram mais de um ano na carceragem da Polícia Federal em Brasília, convivendo com traficantes e lutando contra a extradição. Foi nesse período que se descobriu que a cantora estava grávida. O escândalo da presa que engravidou derrubou o superintendente da PF em Brasília. A questão era saber quem era o pai. Como Gloria se recusou a colaborar com as investigações, apesar de insinuar que tinha sido estuprada pelos carcereiros, a PF fez uma lista de 75 suspeitos, entre detentos e policiais – e submeteu todos eles a um exame de DNA até chegar ao pai da criança: Sergio Andrade.

Mas como e quando tinha ocorrido a concepção? A polícia levantou a hipótese de que o objetivo da gravidez era o nascimento de um filho brasileiro, o que em teoria poderia impedir a extradição – uma jogada semelhante à que garantiu a permanência no Brasil do inglês Ronald Biggs, que roubou um trem pagador na Inglaterra. Para reforçar a hipótese, a PF divulgou a estranha versão de que um tubo de caneta Bic carregado de esperma poderia ter chegado à cela da cantora. De uma hora para outra, Gloria desistiu de lutar contra a extradição e aceitou a deportação para o México, em dezembro de 2002. O filho, que nasceu em Brasília, recebeu o nome de Angel Gabriel.

Ela permaneceu mais de um ano detida no México antes de sair livre. Maria Portillo também foi absolvida. O julgamento de Andrade ainda não foi marcado. Ele terá de explicar ao juiz sua obsessão em namorar adolescentes de 12 a 16 anos. A expectativa é que também seja absolvido por falta de provas.

 
 
 
 
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