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Brasil
A reforma de cola
A demissão do presidente do BNDES, Carlos Lessa, precipita mudanças no
governo Lula
 Felipe
Patury e Otávio Cabral
O
governo Lula começa a ganhar uma nova face. Em janeiro de 2003, quando
tomou posse, Lula se cercou de companheiros de partido nos postos-chave da administração.
Alguns setores funcionaram bem, como a economia, e outros nem tanto, como os ministérios
das áreas sociais. No início deste ano, o presidente promoveu a
primeira mudança. Precisava corrigir o que não estava andando direito
e acomodar o PMDB, um aliado de peso que acabara de se enfileirar com o governo.
Alguns ministérios, porém, continuaram sem apresentar resultados,
o PT amargou derrotas importantes nas eleições municipais e os aliados
começaram a exigir mais participação. Como reeleição
rima com pragmatismo, Lula resolveu que os partidos aliados terão mais
espaço e os velhos companheiros ficarão mais distantes. A mudança
começou na semana passada com a demissão do economista Carlos Lessa,
presidente do BNDES, que, desde que assumiu o cargo, se comportava como um estranho
no ninho.
Lessa, que já sabia que ia perder o cargo, decidiu bancar o mártir
desenvolvimentista. Nesse jogo de cena, atacou publicamente a política
de juros de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Diante disso, não
havia como não demiti-lo já. A saída do presidente do BNDES
precipitou a reforma que deveria ocorrer a partir de dezembro. Para o lugar dele
foi removido o ministro do Planejamento, Guido Mantega, avalizado dessa vez pelo
ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Com a cadeira de Mantega vaga, inicia-se
a montagem do tabuleiro. As mudanças envolverão estratégia
política e necessidade de ação administrativa. Está
decidido, por exemplo, que Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social,
será trocado. Ele não conseguiu fazer deslanchar os programas sociais
do PT. Lula ainda tem esperança de convencer os eleitores de que sua administração,
ao menos no que se refere aos problemas sociais, é diferente. Sabe que
tem pouco tempo para isso e precisa de um gerentão. O nome mais cotado
para o posto de Ananias é o do atual chefe da Casa Civil, José Dirceu.
Para ocupar o lugar de Dirceu, Lula convidou o governador do Acre, Jorge Viana,
que até agora não aceitou a proposta. A segunda opção
do presidente é Jaques Wagner (PT-BA), atual ministro do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social.
O PMDB conquistará um espaço maior, a velha e recorrente exigência
do partido. O presidente já decidiu que o PMDB, além dos cargos
que ocupa, terá mais um ministério com orçamento farto e
muitas autarquias, o que permitirá ao partido acomodar todas as suas correntes.
Duas pastas estão em estudo: a Integração Nacional ou Cidades.
Para atender ainda ao PMDB, o governo enterrou definitivamente a emenda que permitiria
a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Assim,
Renan Calheiros, um dos mais influentes líderes peemedebistas, está
praticamente certo na presidência do Senado. Para não deixar os petistas
totalmente à deriva, procura-se um lugar para o senador Aloizio Mercadante.
Uma das alternativas é o Ministério da Saúde. A outra é
o Planejamento, vaga também pretendida por Ciro Gomes. A coordenação
política sofrerá mudanças. Pode ser simplesmente extinta
ou ser ocupada por João Paulo Cunha, hoje presidente da Câmara. O
atual ministro Aldo Rebelo já sabe que vai sair, mas não sabe onde
ficará. Ele tanto pode ser remanejado para o conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social, um cargo sem importância, como assumir o Ministério
do Trabalho. Ricardo Berzoini, nesse caso, talvez vá para a presidência
do Banco do Brasil, que está vaga desde a semana passada, quando Cássio
Casseb pediu demissão. Palocci prefere que o Banco do Brasil seja dirigido
por Rossano Maranhão Pinto, que está interino no comando da instituição
e é apadrinhado por José Sarney.
A reforma servirá principalmente para construir uma ampla coalizão.
Alguém um dia imaginaria o PT e o PP de Paulo Maluf oficialmente juntos
no governo do Brasil? O PP não só está junto como deve ganhar
um ministério, provavelmente o do Esporte. Lula, em conversas reservadas
na semana passada, avaliou que sua reeleição será muito difícil
caso seu governo continue dominado pelo PT. Para facilitar sua chegada ao segundo
mandato, o presidente decidiu fortalecer a coligação e garantir
uma ampla aliança em 2006, com PMDB, PL, PTB, PSB, PPS e PC do B e o PP
de Maluf, deixando na oposição apenas PSDB, PFL e PDT. |