Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Brasil
A reforma de cola

A demissão do presidente do BNDES,
Carlos Lessa, precipita mudanças
no governo Lula


Felipe Patury e Otávio Cabral


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Mudança ministerial

O governo Lula começa a ganhar uma nova face. Em janeiro de 2003, quando tomou posse, Lula se cercou de companheiros de partido nos postos-chave da administração. Alguns setores funcionaram bem, como a economia, e outros nem tanto, como os ministérios das áreas sociais. No início deste ano, o presidente promoveu a primeira mudança. Precisava corrigir o que não estava andando direito e acomodar o PMDB, um aliado de peso que acabara de se enfileirar com o governo. Alguns ministérios, porém, continuaram sem apresentar resultados, o PT amargou derrotas importantes nas eleições municipais e os aliados começaram a exigir mais participação. Como reeleição rima com pragmatismo, Lula resolveu que os partidos aliados terão mais espaço e os velhos companheiros ficarão mais distantes. A mudança começou na semana passada com a demissão do economista Carlos Lessa, presidente do BNDES, que, desde que assumiu o cargo, se comportava como um estranho no ninho.

Lessa, que já sabia que ia perder o cargo, decidiu bancar o mártir desenvolvimentista. Nesse jogo de cena, atacou publicamente a política de juros de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Diante disso, não havia como não demiti-lo já. A saída do presidente do BNDES precipitou a reforma que deveria ocorrer a partir de dezembro. Para o lugar dele foi removido o ministro do Planejamento, Guido Mantega, avalizado dessa vez pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Com a cadeira de Mantega vaga, inicia-se a montagem do tabuleiro. As mudanças envolverão estratégia política e necessidade de ação administrativa. Está decidido, por exemplo, que Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social, será trocado. Ele não conseguiu fazer deslanchar os programas sociais do PT. Lula ainda tem esperança de convencer os eleitores de que sua administração, ao menos no que se refere aos problemas sociais, é diferente. Sabe que tem pouco tempo para isso e precisa de um gerentão. O nome mais cotado para o posto de Ananias é o do atual chefe da Casa Civil, José Dirceu. Para ocupar o lugar de Dirceu, Lula convidou o governador do Acre, Jorge Viana, que até agora não aceitou a proposta. A segunda opção do presidente é Jaques Wagner (PT-BA), atual ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

O PMDB conquistará um espaço maior, a velha e recorrente exigência do partido. O presidente já decidiu que o PMDB, além dos cargos que ocupa, terá mais um ministério com orçamento farto e muitas autarquias, o que permitirá ao partido acomodar todas as suas correntes. Duas pastas estão em estudo: a Integração Nacional ou Cidades. Para atender ainda ao PMDB, o governo enterrou definitivamente a emenda que permitiria a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Assim, Renan Calheiros, um dos mais influentes líderes peemedebistas, está praticamente certo na presidência do Senado. Para não deixar os petistas totalmente à deriva, procura-se um lugar para o senador Aloizio Mercadante. Uma das alternativas é o Ministério da Saúde. A outra é o Planejamento, vaga também pretendida por Ciro Gomes. A coordenação política sofrerá mudanças. Pode ser simplesmente extinta ou ser ocupada por João Paulo Cunha, hoje presidente da Câmara. O atual ministro Aldo Rebelo já sabe que vai sair, mas não sabe onde ficará. Ele tanto pode ser remanejado para o conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, um cargo sem importância, como assumir o Ministério do Trabalho. Ricardo Berzoini, nesse caso, talvez vá para a presidência do Banco do Brasil, que está vaga desde a semana passada, quando Cássio Casseb pediu demissão. Palocci prefere que o Banco do Brasil seja dirigido por Rossano Maranhão Pinto, que está interino no comando da instituição e é apadrinhado por José Sarney.

A reforma servirá principalmente para construir uma ampla coalizão. Alguém um dia imaginaria o PT e o PP de Paulo Maluf oficialmente juntos no governo do Brasil? O PP não só está junto como deve ganhar um ministério, provavelmente o do Esporte. Lula, em conversas reservadas na semana passada, avaliou que sua reeleição será muito difícil caso seu governo continue dominado pelo PT. Para facilitar sua chegada ao segundo mandato, o presidente decidiu fortalecer a coligação e garantir uma ampla aliança em 2006, com PMDB, PL, PTB, PSB, PPS e PC do B e o PP de Maluf, deixando na oposição apenas PSDB, PFL e PDT.

 
 
 
 
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