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História
A vitória da burguesia
Os indenizados da ditadura reafirmam
a estrutura de classes contra a qual
diziam lutar: rico pega uma bolada.
Os pobres, apenas um troco

Malu Gaspar
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O operário Manoel Fiel Filho e o jornalista
Carlos Heitor Cony são duas vítimas do regime militar
cada um a seu modo. Cony, um ilustre membro da Academia Brasileira
de Letras, nunca militou em nenhuma organização de
esquerda nem participou de passeatas ou movimentos políticos.
Mesmo assim, durante a ditadura, foi demitido do jornal em que trabalhava,
uma novela que escrevia para a TV foi retirada do ar e, sem condições
de trabalho, acabou decidindo mudar-se para o exterior. Morou na
França e em Cuba, até regressar ao Brasil, onde foi
detido quatro vezes. Suas filhas adolescentes sofreram ameaça
de seqüestro. O jornalista pediu uma reparação
ao Estado por tudo o que passou. Em junho passado, a Comissão
de Anistia julgou procedente sua reclamação e concedeu-lhe
uma indenização de 1,4 milhão de reais, além
de uma pensão mensal vitalícia de 23.000
reais. Cony, porém, vai receber apenas 19.000,
o teto máximo que a lei permite. Para chegar a esses valores,
a comissão calculou o salário médio de um editor
de opinião, cargo que o jornalista ocupava quando foi demitido.
A parte milionária vem da soma dos salários que ele
deixou de receber nos últimos anos. Para Cony, fez-se justiça.
J. F Diorio/AE
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/AE
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Manoel Fiel Filho não pôde buscar
essa mesma justiça. Ele morreu em janeiro de 1976. Thereza,
sua mulher, soube que o pior havia ocorrido quando um homem que
se identificou como funcionário do Hospital das Clínicas,
em São Paulo, deixou na porta de sua casa um saco de lixo
com o macacão que o marido vestia quando desapareceu, no
dia anterior. Com o uniforme estavam os documentos do operário
e seus pertences uma nota de 10 cruzeiros dentro de um envelope
em papel timbrado do Exército. A família só
conseguiu liberar o corpo de Manoel depois de se comprometer com
a polícia que o velório seria rápido e que
o caixão permaneceria lacrado. Cumpriu-se apenas metade do
acordo. A visão do que sobrou de Fiel Filho era assustadora:
o corpo apresentava um corte do queixo até a garganta, seus
dentes estavam cerrados e havia manchas nos pulsos, na cabeça
e no pescoço sinais evidentes de tortura. Pelos jornais,
Thereza ficou sabendo que o marido foi preso, acusado de distribuir
um jornal comunista clandestino. Segundo a versão oficial,
o operário teria se suicidado na cela usando as próprias
meias. Deixou duas filhas pequenas e a mulher desempregada.
Depois de perambular anos por delegacias de
polícia e quartéis em busca de informações,
a família decidiu processar a União. Thereza sustentou
a filha mais nova com o salário de auxiliar de cozinha. Em
1980, a União foi condenada a pagar seis salários
mínimos como indenização pela morte do operário,
mas o governo recorreu três vezes. Thereza Fiel, hoje com
72 anos de idade, conseguiu enfim receber a indenização
em 1997. Suas filhas já estão criadas e ela mora numa
casa que comprou com o dinheiro que recebeu. "Comecei a trabalhar
para comer", conta ela. Para Thereza, mais do que o aperto financeiro,
o pior foi esperar 21 anos o reconhecimento do Estado pela morte
de seu marido. Sua pensão mensal foi fixada em 900 reais.
"O dinheiro que recebemos ajudou, mas o que eu queria mesmo era
poder morrer sabendo da verdade", afirma. Provavelmente nunca saberá,
já que o governo não pretende abrir os arquivos (veja
quadro). O laudo do Instituto Médico Legal
atesta que Fiel Filho morreu por estrangulamento. Como oficialmente
ele se suicidou, é um caso raro de auto-estrangulamento.
Desde que foi instalada, em setembro de 2001,
a Comissão de Anistia já recebeu 60.000
pedidos, julgou 15.000 processos e concedeu
o status de anistiado político, além de uma indenização
pelos prejuízos sofridos na época da ditadura, a 6.184
brasileiros. Outros 31.000 processos
esperam julgamento na comissão, formada por notáveis
escolhidos pelo ministro da Justiça. O caso de Carlos Heitor
Cony não é único, mas ele ilustra o triste
fato de que as reparações pecuniárias refletem
a mesma estrutura de classe contra a qual os militantes diziam lutar:
rico recebe um dinheirão dos cofres públicos. Os pobres
devem se contentar com muito menos.
Dezenas de pessoas receberam indenizações
milionárias que somam 1,5 bilhão de reais só
em benefícios retroativos. Na Argentina e no Chile, países
que enfrentaram ditaduras sanguinárias, os anistiados também
tiveram direito à indenização, mas nada comparável
ao que ocorreu no Brasil. "A lei contém distorções
graves e permite o enriquecimento de algumas pessoas", afirma Nilmário
Miranda, secretário dos Direitos Humanos. O advogado Belisário
dos Santos Junior, membro da Comissão de Mortos e Desaparecidos,
também critica o critério estabelecido para a reparação
aos perseguidos pela ditadura: "Um ex-operário que não
tinha carteira assinada nunca vai receber mais, ou talvez a mesma
coisa, que outros que tinham profissão e um bom salário".
A luta de classes, mesmo entre personagens vivos e mortos, continua,
e a burguesia, de novo, pode comemorar.
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Arquivo fechado
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| Pinaud pediu demissão por não
conseguir abrir arquivos |
Há quase um mês, sobrevive um debate estéril
sobre a conveniência de abrir ou não os
arquivos de documentos oficiais produzidos durante a
ditadura militar. Na semana passada, o advogado João
Luiz Pinaud, presidente da Comissão de Mortos
e Desaparecidos, pediu demissão. Motivo: não
conseguiu ver os tais arquivos. A polêmica sobre
a abertura dos arquivos é uma daquelas questões
sobre a qual se discute tudo, menos o essencial. Ou
seja, o que realmente são esses arquivos? O presidente
Lula informou-se sobre esse ponto e descobriu que foi
destruída a imensa maioria de documentos que
permitiria esclarecer as circunstâncias das mortes
e do desaparecimento de militantes. Sobraram aquelas
fichas e informações produzidas por espiões,
cujos relatórios, como se sabe, de tão
inexatos beiram a comicidade. A um colega de partido
Lula disse estar convencido de que a divulgação
dessas fichas em nada contribuiria para reconstruir
esse pedaço da história e poderia até
causar alguns constrangimentos dada a imprecisão
das anotações dos arapongas. Além
do erro da imprecisão, o governo desconfia que
muitas das fichas podem ter sido fraudadas com o objetivo
de denegrir a vida pessoal de alguns militantes. Oficialmente,
a justificativa do governo para não abrir os
arquivos é um decreto assinado pelo ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, quatro dias antes de deixar
o poder, que preserva o segredo dos documentos oficiais
por até cinqüenta anos. Lula foi informado
da medida pouco antes de FHC assiná-la e concordou
com o texto. O presidente não está sozinho
na tese da inconveniência. Alinham-se com ele
o ministro da Secretaria de Comunicação,
Luiz Gushiken, e o líder do governo no Senado,
Aloizio Mercadante.
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