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Congresso
A justiça, enfim,
começa a mudar
Depois de anos tramitando, o
Congresso finalmente aprova
a reforma que deve agilizar o
sistema judiciário do país

Alexandre Oltramari
Joedson Alves/AE
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| O presidente do STF, Nelson Jobim, defensor
das mudanças: fim do sufoco |
O Congresso Nacional deu, na semana passada,
o primeiro passo para remover dois dos mais resistentes obstáculos
ao progresso do país, a lentidão e a ineficiência
da Justiça. Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) constatou que a insegurança provocada pela
morosidade do trabalho dos juízes atrapalha fortemente o
crescimento do país. Calcula-se que o Brasil deixe de produzir
5 bilhões de dólares em riquezas, o equivalente a
1% do PIB, apenas em razão da desconfiança que investidores
internacionais têm sobre o funcionamento do Judiciário.
Não é para menos. Nos Estados Unidos, uma disputa
judicial dura em média quatro meses até ser julgada.
No Brasil, essa média chega a doze anos. Existem casos grotescos
de ações que tramitam na Justiça há
mais de meio século e decisões que são anunciadas
quando o interessado já morreu. As medidas aprovadas na semana
passada são um formidável avanço na direção
correta.
Uma das causas da lentidão da Justiça
é que existem processos demais para os magistrados analisarem
e muitos deles tratam do mesmo tema. O Supremo Tribunal Federal,
por exemplo, julga anualmente 10.000
ações. Oitenta por cento desse volume se refere a
assuntos idênticos. As mudanças acabam com esse procedimento
insano. Toda vez que o STF julgar determinado caso e a decisão
tiver sido tomada por oito dos onze integrantes do Supremo, os juízes
de instâncias inferiores terão, obrigatoriamente, de
decidir da mesma maneira em processos semelhantes. No jargão
jurídico é o que se chama de "súmula vinculante".
Na prática, isso significa que uma decisão final,
que antes levava anos para ser conhecida, poderá ter um desfecho
em meses. Estima-se que a medida vá eliminar metade das ações
em curso nos tribunais brasileiros. Esse instrumento ardentemente
defendido pelo presidente do STF, Nelson Jobim é o
que garante a funcionalidade e a presteza do sistema jurídico
britânico. "Isso significa que as pessoas e as empresas terão
mais segurança, pois o grau de imprevisibilidade das sentenças
cai muito", explica Antônio de Moura Borges, professor de
direito internacional da Universidade de Brasília.
Nelio Rodrigues
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| Processos demais: sistema lento e ineficiente
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A necessidade de oito votos em onze para que
uma decisão se torne uma súmula foi a garantia que
os legisladores encontraram para minimizar riscos. Eles pensaram
especialmente nos riscos que uma decisão sumulada teria de
quebrar as finanças do governo. Exemplo: um aposentado ganha
uma causa contra a União e, instantaneamente, sem que haja
direito a recursos, todos os outros milhões de brasileiros
inativos na mesma situação teriam direito à
mesma compensação financeira. Com a exigência
de maioria tão ampla, a probabilidade de uma decisão
como a exposta acima se tornar súmula é quase nula.
Uma segunda mudança destinada a desemperrar
a engrenagem judicial é a criação de um instrumento,
chamado de repercussão geral. Essa medida estabelece que
o STF só analisará os casos de interesse amplo da
sociedade e não mais casos bizarros como briga de
vizinhos. A partir de agora, antes de aceitar um litígio,
os ministros vão avaliar se aquela discussão tem ou
não reflexo no conjunto da sociedade. As que não preencherem
esse requisito serão descartadas. Os juízes da Suprema
Corte dos Estados Unidos julgam em média apenas onze processos
por ano. Aqui, os ministros analisam 10.000
ações no mesmo período. O STF vem funcionando
como a última instância para quase toda querela jurídica.
Há duas semanas, o ministro Carlos Velloso gastou algumas
horas para analisar um processo no qual uma pessoa era acusada de
matar um papagaio com arma de fogo e envenenar uma cadela. Isso
acabou. Questões como essa não chegarão mais
ao STF. Que até a semana passada tenham chegado é
uma dessas situações absurdas que desafiam a inteligência
coletiva brasileira.
"Abrimos a porta para um mundo novo. Apenas
a percepção de que as coisas começaram a mudar
já influencia positivamente as visões de futuro e
as avaliações de risco dos investidores", diz o ex-ministro
Mailson da Nóbrega, que considera a reforma do Judiciário
uma peça essencial para o bom funcionamento da economia.
Mas ainda há muito que fazer. Um entrave que precisa ser
atacado é a burocracia que impera durante a tramitação
dos processos. Em alguns, um bom advogado é capaz de usar
até 120 tipos de recurso para protelar uma sentença.
Isso faz uma ação na Justiça vaguear anos e
anos por cortes diferentes. O Ministério da Justiça
deverá enviar ao Congresso Nacional nas próximas semanas
doze projetos de lei restringindo os recursos meramente protelatórios.
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