Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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Presidência
A gravata e o poder

Documentário que estréia nos cinemas
revela os bastidores da campanha de 2002
e lança olhar íntimo e revelador sobre Lula


Roberto Pompeu de Toledo


Fotos Video Filmes
Os candidatos a presidente e vice no avião: a equipe de filmagem teve autorização para captar Lula na privacidade

Lula tira a gravata, põe a gravata. Dá nó na gravata. Escolhe uma gravata. Rejeita uma gravata. Procura uma gravata. Filosofa sobre gravatas. A relação do então candidato com as gravatas esparrama-se por várias cenas do filme Entreatos, documentário do diretor João Moreira Salles sobre os bastidores da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002. "Sempre gostei de andar bem vestido", diz. "Sempre achei gravata muito elegante." O filme tem estréia marcada nos cinemas para sexta-feira 26. Junto, estreará Peões, de Eduardo Coutinho, concebido para lhe fazer par. Enquanto o filme de Salles evoca o agora presidente nos dias de maior glória, o de Coutinho retrata antigos metalúrgicos do ABC paulista que viveram as greves das quais Lula emergiu como nome nacional. Assim, a partir de pontos de vista diversos, talvez até antagônicos, dois dos principais documentaristas brasileiros, o João Moreira Salles de Notícias de uma Guerra Particular e Nelson Freire e o Eduardo Coutinho de Babilônia 2000 e Edifício Master, oferecem a saga do lulismo em duas vertentes. São dois filmes notáveis pela qualidade artística e pelo que aportam à cultura política do país.


Lula às voltas com o nó da gravata, momento que, repetido em várias cenas do filme, se torna revelador do personagem

Entreatos conta o que a cobertura de imprensa deixa de contar, numa campanha política. A câmera imiscui-se na casa do candidato, no quarto dos hotéis onde se hospeda, nos camarins onde se veste, no avião onde viaja, nos estúdios onde grava a propaganda política, nas salas onde mantém as reuniões com a equipe. Lula concordou em deixar-se perseguir nos momentos de intimidade, em primeiro lugar, porque estava persuadido de que a campanha marcava "uma novidade histórica", merecedora de registro, segundo disse quando Salles lhe levou a proposta, e em segundo porque recebeu a garantia de que nada do filme vazaria antes da eleição, nem nos meses subseqüentes.

As instruções de Duda Mendonça eram sempre no sentido de arquivar o sindicalista em favor do líder sereno e confiante

Faltam seis dias para o primeiro turno da eleição e Lula, celular ao ouvido, senta-se na cadeira de barbeiro. Esta é uma das primeiras seqüências, e nela se revela o espírito do filme. A linha é a que os documentaristas chamam de "cinema de observação". Põe-se a câmara a trabalhar e seja o que Deus quiser. Lula está dando uma entrevista, é o que logo se percebe, enquanto o barbeiro faz a sua parte. Ele fala de dívida externa e de comércio exterior. Enfim, agradece aos ouvintes da rádio e desliga. Quando o serviço termina, mira-se no espelho e comenta que, se a mãe o visse, diria: "Eta, baianinho jeitoso".

Video Filmes
O casal Lula segue, na TV, a vitória no segundo turno

Lula boa gente, Lula espontâneo, Lula engraçado, Lula generoso: eis o personagem que ressalta do filme. Um Lula universal, capaz de arrancar tanto o entusiasmo de um grupo de sindicalistas ("Sou fruto da consciência política da classe trabalhadora", lhes diz) quanto a adesão do maior produtor mundial de suco de laranja, José Luís Cutrale (com quem Lula conta ter jantado e para quem a equipe de campanha providencia um texto de declaração formal de apoio). Quando termina com o cabelo e a barba, dirige-se ao barbeiro, brincalhão: "Veja o seu privilégio. Segunda-feira, que é o dia de eu fazer barba, eu posso vir aqui às 9 horas já como presidente da República eleito".

Que diferença do Lula que aparece em Peões, recuperado de cenas do tempo das greves. Peões consiste num encadeamento de depoimentos de operários na maioria já aposentados, alguns ainda vivendo em São Bernardo do Campo, outros de volta ao lugar de origem no Nordeste. De entremeio, exibem-se imagens dos tempos das greves do ABC, e então entra em cena um outro Lula. O Lula de barba negra e cerrada daqueles tempos tinha cara de brabo, brandia ameaças e falava com desdém dos patrões. Não ria. Principalmente, não ria. O Lula da campanha de 2002, tal qual mostrado em Entreatos, ri e brinca o tempo todo. Se o Lula de Peões exibe um ar torturado e sofrido, o de Entreatos é o epítome da pessoa à vontade e satisfeita consigo mesma. Sua simpatia é muito possivelmente o que se imporá de forma mais imediata ao espectador do filme. A um segundo olhar, no entanto, as coisas ficam mais complexas. É quando se leva em conta, primeiro, que esse personagem, sem deixar de ser o Lula, é também uma criação de Duda Mendonça, o mago do marketing político, e, segundo, que Lula, ainda sem deixar de ser ele mesmo, é também o personagem que está representando para o filme de João Moreira Salles.

Uma das maiores contribuições de Entreatos é trazer, para o público que não é do ramo, vislumbres das entranhas do marketing político. Duda Mendonça aparece dirigindo comerciais, ditando discursos e instruindo o candidato. As lições, neste último caso, são todas no sentido de ele arquivar o antigo Lula. O candidato precisa ter "muito cuidado", diz, pois o grevista assusta e o sindicalista espanta. Precisa apresentar-se como "o líder", "o tranqüilo". Precisa transmitir "firmeza, simpatia". Não que Lula não seja isso mesmo, ou não se tenha transformado nisso. Mas a preleção insistente do marqueteiro, apoiada na ciência da propaganda, torna-o mais "isso" ainda. Seria exagero dizer que o Lula de 2002 foi tão produzido quanto o Fernando Collor de 1989. Collor era embalado em mentiras como a do "caçador de marajás". Mas Entreatos fornece subsídios que fazem Lula merecedor do troféu de segundo candidato presidencial mais produzido da história recente do país.

Outro ponto, o de que Lula tinha sempre consciência de que estava sendo filmado, representa um entrave ao bom fluxo do "cinema de observação", e Salles é o primeiro a reconhecê-lo. No entanto, o diretor minimiza seus efeitos. "Lula atua para a câmera, o que para mim não é um problema", diz. "Não acredito numa realidade intocada, que não seja adulterada pela presença da câmera. Teatro e verdade acontecem ao mesmo tempo." Resta ao espectador o convite a matizar o que está vendo, nem sempre o aceitando pelo valor de face.

Na perseguição a seu personagem, a equipe de Salles colheu um total de 240 horas de material bruto. Filmaram-se tanto os bastidores como as apresentações públicas. Na montagem final, de uma hora e 57 minutos, Salles escolheu ficar nos bastidores. Claro: eles representam novidade muito maior. Se o filme acabou focado nos bastidores, tinha de mostrar os camarins. Se tinha de mostrar os camarins, tinha de mostrar as gravatas. E é aí que se impõe a presença marcante, em Entreatos, dessa peça tão cheia de significados do vestuário masculino. Numa cena, Lula pontifica, com a sabedoria do especialista: "Impressionante como o nó muda de gravata para gravata". Noutra, ao ouvir um elogio ao seu nó, critica o do adversário, num dos debates: "O nó do Serra estava horrível". Noutra ainda, fala da mensagem que mandou a um militante que dissera preferir o Lula de macacão de operário ao de gravata: "Diz que eu mando um macacão para ele, em troca do paletó e gravata dele". Lula diz que usou macacão vários anos e nunca se acostumou. Já três dias de paletó e gravata bastaram para convertê-lo em adepto.

Críticos mais intransigentes apontariam no culto da gravata o "aburguesamento" do antigo operário. Alguns identificariam nisso até um sinal de traição – à classe, aos ideais, sabe-se lá mais a quê. Nem se precisaria dizer, mas diga-se, que nas cenas de Peões em nenhum momento Lula se apresenta de gravata. Um traço que parece negar as origens do operário-candidato, no entanto, no fundo, pensando bem, as confirma. O apego à gravata evidencia que, para ele, a peça tem o significado de uma conquista. Trata-se de algo que lhe foi negado, em boa parte da vida. Eis que, por essa via de cultuar o que lhe era negado, o que faz então, mesmo que inconscientemente, é trazer à tona a pessoa sofrida e despossuída que foi no passado.

De resto, muito ao contrário de negar o passado, Lula o cultiva obsessivamente. Lembranças dos tempos de carência estão presentes em muitos momentos do filme. Ora ele alude à Vila Carioca, o pobre bairro da infância, ora fala de um colega de fábrica que, ao contrário dele, e para sua frustração, sabia batucar muito bem. Na seqüência do trecho em que se refere ao companheiro que o prefereria de macacão, conta como era sua rotina de operário nas Indústrias Villares. Antes do almoço ele e os companheiros tomavam "três ou quatro" doses de pinga. Almoçavam um prato alto "como o Pão de Açúcar". Jogavam futebol, em seguida. E voltavam para o turno seguinte com o macacão "melequento, suado". O desconforto do ambiente, aquecido no limite do insuportável pelo teto de brasilit, tornava-se maior ainda.

O político Lula alimenta-se do Lula operário. Daí que, muito mais do que o comum das pessoas, ele evoque o passado, e isso não só no filme. Ele é refém do personagem do operário-que-se-tornou-presidente. É comum a crítica de que deveria ter aproveitado o tempo, ao se tornar um líder político, para estudar. Engano. Um Lula que deixasse de falar errado, ou, pior ainda, que se tornasse advogado, negaria o personagem, cristalizado como mito, do operário triunfante na seara dos doutores. Mas é curioso, ou melhor, revelador: Lula evoca muito o passado do pobre e do operário, mas pouco o do sindicalista. O sindicalista, censurado pelos Dudas Mendonças que o cercam, bem como por suas próprias percepções, fica relegado aos registros recuperados em Peões.

 

O garrafão foi de novo para o armário


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Luíza, depoente de Peões: o diretor decidiu cortar referência ao gosto de Lula pela bebida

A certa altura de Entreatos, Lula diz que, quando trabalhava como torneiro mecânico, ia com os amigos, antes do almoço, tomar "uns gorós". Bons tempos, aqueles – estamos ainda em 2002, muito antes da matéria do New York Times sobre sua suposta inclinação pelo álcool – em que podia falar livremente de bebida. Em outro trecho do filme, ele diz que o Palácio da Alvorada de Fernando Henrique Cardoso era triste porque seu ocupante não jogava futebol, não dançava nem bebia, e promete mudar tal situação. Mas o maior potencial de controvérsia está no outro filme, Peões, num trecho do depoimento de Luíza, uma trabalhadora que cuidava – e cuida ainda – da lanchonete do sindicato do qual Lula foi presidente. "Não pode falar isso muito alto, não", diz ela. "Lula bebia, bebia muito." E conta que ele tinha um armário em sua sala, onde guardava um garrafão de uísque.

O trecho está na cópia do filme exibida em pré-estréia e nos vídeos de divulgação, mas não estará em Peões, que vai entrar em circuito normal. O diretor Eduardo Coutinho decidiu cortá-lo – em respeito à depoente, segundo alegou.

É uma decisão que corre o risco de trazer mais estrago do que conserto. Peões é um filme bonito e sensível. Revela personagens comoventes como a ex-metalúrgica Elza, que diz admirar, no Hino Nacional, a frase "Verás que um filho teu não foge à luta", e conclui que Lula não fugiu: "Ele é o nosso Hino Nacional". Ou sagazes como outra mulher operária, Tê, que declara: "Gosto do Lula, acho ele muito inteligente, vou votar nele, mas acho que Lula é que está chegando à Presidência, não o PT". Peões, um filme baseado em entrevistas feitas pelo diretor, um estilo que se opõe ao de Entreatos, caracterizado pela postura passiva da câmera, está cheio de preciosidades semelhantes. No entanto, pode vir a ser lembrado como o filme em que arrancaram a referência aos hábitos alcoólicos de Lula. Vinte e tantos anos depois, o garrafão foi devolvido ao armário.

 
 
 
 
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