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Presidência
A gravata e o poder
Documentário que estréia nos cinemas
revela os bastidores da campanha de 2002
e lança olhar íntimo e revelador sobre Lula

Roberto Pompeu de Toledo
Fotos Video Filmes
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| Os candidatos a presidente e vice no avião:
a equipe de filmagem teve autorização para captar
Lula na privacidade |
Lula tira a gravata, põe a gravata.
Dá nó na gravata. Escolhe uma gravata. Rejeita uma
gravata. Procura uma gravata. Filosofa sobre gravatas. A relação
do então candidato com as gravatas esparrama-se por várias
cenas do filme Entreatos, documentário do diretor
João Moreira Salles sobre os bastidores da campanha de Luiz
Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002.
"Sempre gostei de andar bem vestido", diz. "Sempre achei gravata
muito elegante." O filme tem estréia marcada nos cinemas
para sexta-feira 26. Junto, estreará Peões,
de Eduardo Coutinho, concebido para lhe fazer par. Enquanto o filme
de Salles evoca o agora presidente nos dias de maior glória,
o de Coutinho retrata antigos metalúrgicos do ABC paulista
que viveram as greves das quais Lula emergiu como nome nacional.
Assim, a partir de pontos de vista diversos, talvez até antagônicos,
dois dos principais documentaristas brasileiros, o João Moreira
Salles de Notícias de uma Guerra Particular e Nelson
Freire e o Eduardo Coutinho de Babilônia 2000 e
Edifício Master, oferecem a saga do lulismo em duas
vertentes. São dois filmes notáveis pela qualidade
artística e pelo que aportam à cultura política
do país.
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| Lula às voltas com o nó da gravata,
momento que, repetido em várias cenas do filme, se torna
revelador do personagem |
Entreatos conta o que a cobertura de
imprensa deixa de contar, numa campanha política. A câmera
imiscui-se na casa do candidato, no quarto dos hotéis onde
se hospeda, nos camarins onde se veste, no avião onde viaja,
nos estúdios onde grava a propaganda política, nas
salas onde mantém as reuniões com a equipe. Lula concordou
em deixar-se perseguir nos momentos de intimidade, em primeiro lugar,
porque estava persuadido de que a campanha marcava "uma novidade
histórica", merecedora de registro, segundo disse quando
Salles lhe levou a proposta, e em segundo porque recebeu a garantia
de que nada do filme vazaria antes da eleição, nem
nos meses subseqüentes.
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| As instruções de Duda Mendonça
eram sempre no sentido de arquivar o sindicalista em favor do
líder sereno e confiante |
Faltam seis dias para o primeiro turno da eleição
e Lula, celular ao ouvido, senta-se na cadeira de barbeiro. Esta
é uma das primeiras seqüências, e nela se revela
o espírito do filme. A linha é a que os documentaristas
chamam de "cinema de observação". Põe-se a
câmara a trabalhar e seja o que Deus quiser. Lula está
dando uma entrevista, é o que logo se percebe, enquanto o
barbeiro faz a sua parte. Ele fala de dívida externa e de
comércio exterior. Enfim, agradece aos ouvintes da rádio
e desliga. Quando o serviço termina, mira-se no espelho e
comenta que, se a mãe o visse, diria: "Eta, baianinho jeitoso".
Video Filmes
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| O casal Lula segue, na TV, a vitória
no segundo turno |
Lula boa gente, Lula espontâneo, Lula
engraçado, Lula generoso: eis o personagem que ressalta do
filme. Um Lula universal, capaz de arrancar tanto o entusiasmo de
um grupo de sindicalistas ("Sou fruto da consciência política
da classe trabalhadora", lhes diz) quanto a adesão do maior
produtor mundial de suco de laranja, José Luís Cutrale
(com quem Lula conta ter jantado e para quem a equipe de campanha
providencia um texto de declaração formal de apoio).
Quando termina com o cabelo e a barba, dirige-se ao barbeiro, brincalhão:
"Veja o seu privilégio. Segunda-feira, que é o dia
de eu fazer barba, eu posso vir aqui às 9 horas já
como presidente da República eleito".
Que diferença do Lula que aparece em
Peões, recuperado de cenas do tempo das greves. Peões
consiste num encadeamento de depoimentos de operários na
maioria já aposentados, alguns ainda vivendo em São
Bernardo do Campo, outros de volta ao lugar de origem no Nordeste.
De entremeio, exibem-se imagens dos tempos das greves do ABC, e
então entra em cena um outro Lula. O Lula de barba negra
e cerrada daqueles tempos tinha cara de brabo, brandia ameaças
e falava com desdém dos patrões. Não ria. Principalmente,
não ria. O Lula da campanha de 2002, tal qual mostrado em
Entreatos, ri e brinca o tempo todo. Se o Lula de Peões
exibe um ar torturado e sofrido, o de Entreatos é
o epítome da pessoa à vontade e satisfeita consigo
mesma. Sua simpatia é muito possivelmente o que se imporá
de forma mais imediata ao espectador do filme. A um segundo olhar,
no entanto, as coisas ficam mais complexas. É quando se leva
em conta, primeiro, que esse personagem, sem deixar de ser o Lula,
é também uma criação de Duda Mendonça,
o mago do marketing político, e, segundo, que Lula, ainda
sem deixar de ser ele mesmo, é também o personagem
que está representando para o filme de João Moreira
Salles.
Uma das maiores contribuições
de Entreatos é trazer, para o público que não
é do ramo, vislumbres das entranhas do marketing político.
Duda Mendonça aparece dirigindo comerciais, ditando discursos
e instruindo o candidato. As lições, neste último
caso, são todas no sentido de ele arquivar o antigo Lula.
O candidato precisa ter "muito cuidado", diz, pois o grevista assusta
e o sindicalista espanta. Precisa apresentar-se como "o líder",
"o tranqüilo". Precisa transmitir "firmeza, simpatia". Não
que Lula não seja isso mesmo, ou não se tenha transformado
nisso. Mas a preleção insistente do marqueteiro, apoiada
na ciência da propaganda, torna-o mais "isso" ainda. Seria
exagero dizer que o Lula de 2002 foi tão produzido quanto
o Fernando Collor de 1989. Collor era embalado em mentiras como
a do "caçador de marajás". Mas Entreatos fornece
subsídios que fazem Lula merecedor do troféu de segundo
candidato presidencial mais produzido da história recente
do país.
Outro ponto, o de que Lula tinha sempre consciência
de que estava sendo filmado, representa um entrave ao bom fluxo
do "cinema de observação", e Salles é o primeiro
a reconhecê-lo. No entanto, o diretor minimiza seus efeitos.
"Lula atua para a câmera, o que para mim não é
um problema", diz. "Não acredito numa realidade intocada,
que não seja adulterada pela presença da câmera.
Teatro e verdade acontecem ao mesmo tempo." Resta ao espectador
o convite a matizar o que está vendo, nem sempre o aceitando
pelo valor de face.
Na perseguição a seu personagem,
a equipe de Salles colheu um total de 240 horas de material bruto.
Filmaram-se tanto os bastidores como as apresentações
públicas. Na montagem final, de uma hora e 57 minutos, Salles
escolheu ficar nos bastidores. Claro: eles representam novidade
muito maior. Se o filme acabou focado nos bastidores, tinha de mostrar
os camarins. Se tinha de mostrar os camarins, tinha de mostrar as
gravatas. E é aí que se impõe a presença
marcante, em Entreatos, dessa peça tão cheia
de significados do vestuário masculino. Numa cena, Lula pontifica,
com a sabedoria do especialista: "Impressionante como o nó
muda de gravata para gravata". Noutra, ao ouvir um elogio ao seu
nó, critica o do adversário, num dos debates: "O nó
do Serra estava horrível". Noutra ainda, fala da mensagem
que mandou a um militante que dissera preferir o Lula de macacão
de operário ao de gravata: "Diz que eu mando um macacão
para ele, em troca do paletó e gravata dele". Lula diz que
usou macacão vários anos e nunca se acostumou. Já
três dias de paletó e gravata bastaram para convertê-lo
em adepto.
Críticos mais intransigentes apontariam
no culto da gravata o "aburguesamento" do antigo operário.
Alguns identificariam nisso até um sinal de traição
à classe, aos ideais, sabe-se lá mais a quê.
Nem se precisaria dizer, mas diga-se, que nas cenas de Peões
em nenhum momento Lula se apresenta de gravata. Um traço
que parece negar as origens do operário-candidato, no entanto,
no fundo, pensando bem, as confirma. O apego à gravata evidencia
que, para ele, a peça tem o significado de uma conquista.
Trata-se de algo que lhe foi negado, em boa parte da vida. Eis que,
por essa via de cultuar o que lhe era negado, o que faz então,
mesmo que inconscientemente, é trazer à tona a pessoa
sofrida e despossuída que foi no passado.
De resto, muito ao contrário de negar
o passado, Lula o cultiva obsessivamente. Lembranças dos
tempos de carência estão presentes em muitos momentos
do filme. Ora ele alude à Vila Carioca, o pobre bairro da
infância, ora fala de um colega de fábrica que, ao
contrário dele, e para sua frustração, sabia
batucar muito bem. Na seqüência do trecho em que se refere
ao companheiro que o prefereria de macacão, conta como era
sua rotina de operário nas Indústrias Villares. Antes
do almoço ele e os companheiros tomavam "três ou quatro"
doses de pinga. Almoçavam um prato alto "como o Pão
de Açúcar". Jogavam futebol, em seguida. E voltavam
para o turno seguinte com o macacão "melequento, suado".
O desconforto do ambiente, aquecido no limite do insuportável
pelo teto de brasilit, tornava-se maior ainda.
O político Lula alimenta-se do Lula
operário. Daí que, muito mais do que o comum das pessoas,
ele evoque o passado, e isso não só no filme. Ele
é refém do personagem do operário-que-se-tornou-presidente.
É comum a crítica de que deveria ter aproveitado o
tempo, ao se tornar um líder político, para estudar.
Engano. Um Lula que deixasse de falar errado, ou, pior ainda, que
se tornasse advogado, negaria o personagem, cristalizado como mito,
do operário triunfante na seara dos doutores. Mas é
curioso, ou melhor, revelador: Lula evoca muito o passado do pobre
e do operário, mas pouco o do sindicalista. O sindicalista,
censurado pelos Dudas Mendonças que o cercam, bem como por
suas próprias percepções, fica relegado aos
registros recuperados em Peões.
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O garrafão foi de novo para
o armário
Video Filmes
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| Luíza, depoente de Peões:
o diretor decidiu cortar referência ao gosto
de Lula pela bebida |
A certa altura de Entreatos,
Lula diz que, quando trabalhava como torneiro mecânico,
ia com os amigos, antes do almoço, tomar "uns
gorós". Bons tempos, aqueles estamos ainda
em 2002, muito antes da matéria do New York Times
sobre sua suposta inclinação pelo álcool
em que podia falar livremente de bebida. Em outro
trecho do filme, ele diz que o Palácio da Alvorada
de Fernando Henrique Cardoso era triste porque seu ocupante
não jogava futebol, não dançava
nem bebia, e promete mudar tal situação.
Mas o maior potencial de controvérsia está
no outro filme, Peões, num trecho do depoimento
de Luíza, uma trabalhadora que cuidava
e cuida ainda da lanchonete do sindicato do qual
Lula foi presidente. "Não pode falar isso muito
alto, não", diz ela. "Lula bebia, bebia muito."
E conta que ele tinha um armário em sua sala,
onde guardava um garrafão de uísque.
O trecho está na cópia
do filme exibida em pré-estréia e nos
vídeos de divulgação, mas não
estará em Peões, que vai entrar
em circuito normal. O diretor Eduardo Coutinho decidiu
cortá-lo em respeito à depoente,
segundo alegou.
É uma decisão que
corre o risco de trazer mais estrago do que conserto.
Peões é um filme bonito e sensível.
Revela personagens comoventes como a ex-metalúrgica
Elza, que diz admirar, no Hino Nacional, a frase "Verás
que um filho teu não foge à luta", e conclui
que Lula não fugiu: "Ele é o nosso Hino
Nacional". Ou sagazes como outra mulher operária,
Tê, que declara: "Gosto do Lula, acho ele muito
inteligente, vou votar nele, mas acho que Lula é
que está chegando à Presidência,
não o PT". Peões, um filme baseado
em entrevistas feitas pelo diretor, um estilo que se
opõe ao de Entreatos, caracterizado pela
postura passiva da câmera, está cheio de
preciosidades semelhantes. No entanto, pode vir a ser
lembrado como o filme em que arrancaram a referência
aos hábitos alcoólicos de Lula. Vinte
e tantos anos depois, o garrafão foi devolvido
ao armário.
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