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Brasil Uma
empresa chamada Minas Em apenas
dois anos, o estado sai do vermelho graças a um processo de saneamento
baseado em métodos da iniciativa privada  José
Edward e Cynara Menezes
Ana
Araújo
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O governador Aécio Neves: público não é sinônimo de ineficiente |
Minas
Gerais receberá uma ótima notícia nesta semana: depois de
uma década de desequilíbrio fiscal, o estado finalmente saiu do
vermelho. O feito, resultado da opção do governador Aécio
Neves (PSDB) por uma política administrativa austera e uma gestão
baseada nos métodos da iniciativa privada, reforça uma constatação
e consolida uma tendência. A constatação é que a solução
para o caos fiscal nos estados passa, obrigatoriamente, pelo rigor administrativo.
A tendência é que, daqui para a frente, políticos em cargos
executivos terão de ser, antes de tudo, administradores eficientes. "A
boa gestão será o grande diferencial na política brasileira",
diz o economista Raul Velloso. No ano passado, nove estados brasileiros, além
do Distrito Federal, conseguiram fechar o ano com superávit nominal, ou
seja: com o orçamento no azul e os pagamentos em dia, incluindo o serviço
da dívida. São eles: São Paulo, Amapá, Amazonas, Espírito
Santo, Goiás, Pará, Rondônia, Tocantins e Rio de Janeiro (que,
neste ano, deve voltar a ser deficitário). O fato de Minas conseguir juntar-se
a esse time é ainda mais notável pela velocidade com que Aécio
Neves conseguiu tirar o estado do buraco profundo em que ele se encontrava. Ao
tomar posse, em janeiro do ano passado, o governador deparou com uma das piores
equações fiscais do Brasil. Herdou de seu antecessor, Itamar Franco,
além de 5 bilhões de reais em dívidas, um orçamento
anual com déficit de 2,4 bilhões de reais. Ou seja, se ele não
investisse um tostão em projetos, ainda assim terminaria cada mês
devendo 200 milhões de reais. Por causa desse desequilíbrio, Minas
encontrava-se inadimplente com a União, sem credibilidade para contrair
empréstimos internacionais e com dificuldades até mesmo para pagar
os servidores em dia. Em resumo, o Estado estava praticamente falido.
O saneamento da máquina em tempo recorde foi resultado de um plano de gestão
baseado no uso de ferramentas semelhantes às utilizadas nas grandes empresas.
Ao montar sua equipe, por exemplo, o governador de Minas contratou técnicos
competentes em vez de se cercar de compadres ou aliados políticos
e autorizou-os a tomar medidas tão duras quanto as que a situação
exigia. De janeiro de 2003 a setembro deste ano, Aécio extinguiu seis secretarias
e 447 unidades administrativas ligadas a elas, eliminou mais de 3.000 funções
e cargos públicos e fixou um teto salarial para o Poder Executivo
o que acabou por reduzir o seu próprio salário (de 19.000 reais
para 10.500 reais ao mês) e, conseqüentemente, os vencimentos de ocupantes
de cargos inferiores também. Até agora, os cortes na área
de pessoal resultaram numa economia de 130 milhões de reais e fizeram com
que o comprometimento da receita líquida com a folha de pagamento caísse
de 74% para 59%. "Só com o fechamento de alguns ralos, conseguimos nos
enquadrar nos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal", diz o secretário
de Planejamento e Gestão de Minas, Antonio Augusto Anastasia. A Lei de
Responsabilidade Fiscal é um dos instrumentos que mais têm impulsionado
a recente preocupação dos políticos com a gestão pública
profissionalizada. Promulgada em 2000, ela prevê punições
que vão da perda do cargo à prisão para governantes
que praticarem malversação de recursos, elevarem gastos sem fazer
cortes ou empenharem mais do que 60% da receita líquida em gastos com pessoal.
Euler
Junior/Estado de Minas
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Oficinas mecânicas da polícia serão terceirizadas: menos despesas para o governo
e mais policiais na rua |
O
choque de gestão empreendido por Aécio Neves em Minas tem clara
inspiração na experiência realizada por Mário Covas
em São Paulo. Na década de 90, o então governador paulista,
entre outras iniciativas, demitiu mais de 100.000 funcionários, modernizou
o processo de compras do estado e promoveu uma devassa no sistema de terceirização
de serviços. As medidas, amargas, produziram um dos episódios mais
lastimáveis da história do governo paulista: Covas, morto em 2001,
chegou a ser apedrejado durante uma manifestação de professores.
O tempo mostrou que ele estava certo. São Paulo se mantém superavitário
até hoje, e seu atual governador, Geraldo Alckmin, seguidor da cartilha
de Covas, reelegeu-se em 2002 e tem um dos maiores porcentuais de aprovação
do eleitorado.
No caso de Minas, para a conquista do equilíbrio orçamentário,
além do enxugamento da máquina administrativa, contribuíram
métodos relativamente simples de gerenciamento como a definição
de metas para a arrecadação fiscal e a implantação
de sistemas de controle nas compras do governo. A principal medida, no que se
refere às despesas, foi a criação de uma central que gerencia
todas as compras feitas pelo estado, a qual está integrada a um sistema
de acompanhamento financeiro. O objetivo é assegurar que a aquisição
de produtos e a contratação de serviços só sejam efetivadas
se houver reserva orçamentária correspondente e dinheiro em caixa.
Ao garantir aos fornecedores que a despesa será quitada no prazo acertado,
eles não precisam embutir taxas de risco sobre os preços e até
se dispõem a conceder descontos. "No governo de Minas, proibimos a emissão
de cheques pré-datados", compara Aécio Neves.
Luiz
Carlos Murauskas/Folha Imagem
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O governador Geraldo Alckmin (em primeiro plano):
seguindo a cartilha de Covas |
Só
a obrigatoriedade de realização de pregões para as aquisições
feitas pelas repartições públicas gerou uma economia de 144
milhões de reais para os cofres públicos. Para quitar a dívida
de 1,3 bilhão de reais com fornecedores, herdada da gestão anterior,
o governo instituiu uma forma de leilão público que funciona de
maneira inversa à tradicional: recebe primeiro o credor que oferece ao
governo o maior desconto. Outra medida simples, mas de retorno garantido, deverá
ser implantada em breve. O estado está fazendo uma licitação
para terceirizar a gestão da frota da polícia. Continuará
a comprar os carros, mas deixará sua manutenção por conta
de empresas privadas. Dessa forma, poderá desativar parte de suas oficinas
mecânicas e transferir para funções de policiamento os quase
100 PMs que hoje se ocupam com o conserto, desamassamento e pintura de veículos.
O dinheiro economizado será suficiente para aumentar em 24% o número
de viaturas na região metropolitana de Belo Horizonte.
Ao ajustar as contas de seu estado, o governante garante uma administração
baseada no planejamento, e não no improviso. O equilíbrio fiscal
traz a recuperação da capacidade de investimento, atrai o interesse
da iniciativa privada e facilita a obtenção de empréstimos
externos. O saneamento de Minas cuja credibilidade internacional era zero
desde a moratória decretada por Itamar Franco, em 1999 levou, por
exemplo, o Banco Mundial a tomar uma decisão inédita em sua história:
vai liberar 170 milhões de dólares para financiar projetos no estado
sem exigir do governo nenhuma contrapartida financeira, como é praxe nas
instituições de fomento. "A contrapartida serão as práticas
de boa governança, que já estão sendo executadas", explica
o diretor do Banco Mundial para o Brasil, Vinod Thomas. Equilíbrio fiscal,
como se vê, não serve apenas para exibir contas que fecham, mas,
sobretudo, para aplainar o terreno para que o Estado possa cumprir melhor seu
papel: o de atender às demandas sociais e criar condições
para a prosperidade da população.
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