Autran, na coxia: só ele duvidaria
de que foi o maior
Pergunte-se a qualquer ator qual o sentimento mais marcante
em sua carreira, e a resposta será sempre a mesma:
o medo da rejeição em testes para papéis,
por parte do público, vinda dos pares. Seria possível
imaginar que, com seis décadas de uma carreira brilhante
no teatro, durante a qual atuou ocasionalmente também
no cinema e na televisão, Paulo Autran estaria indiferente
a esse fantasma. "O temor não diminui. Na verdade,
fica maior a cada vez", disse, já sexagenário,
às vésperas de uma estréia. Morto no
último dia 12, aos 85 anos, de um câncer de pulmão,
Autran atravessou todos os modismos do teatro nesses sessenta
anos e sobreviveu não apenas a eles, como também
às mudanças de sua principal ferramenta
seu físico. Começou jovem e belo, depois de
abandonar a advocacia, em peças como Um Deus Dormiu
Lá em Casa sua estréia profissional,
em 1949. Foi incomparável na meia-idade (na qual fez
seu filme mais célebre, Terra em Transe, de
Glauber Rocha) e expôs-se frágil, mas sempre
atilado, na velhice. Tanta longevidade não decorreu
só da versatilidade, que lhe permitia atacar de comédias
ligeiras a Pirandello e Shakespeare sem desafinar, ou da disposição
e da saúde a qual só no último
ano lhe faltou de fato. Autran renovou a si mesmo e ao teatro
sobretudo por causa desse temor tão salutar que, aliado
à sua vontade pelo que fazia, o manteve lúcido
e inquieto. De acordo com os colegas, Autran era o padrão-ouro.
Para o público de teatro, era a única recomendação
necessária para que se decidisse comprar um ingresso.
Nas poucas novelas que fez, magnetizou espectadores que nunca
o haviam visto no palco ou numa tela. Teria sido, enfim, uma
unanimidade, não houvesse uma pessoa sempre pronta
a discordar de sua presumível infalibilidade
ele próprio.