Contos de fadas
não são apenas histórias para entreter
crianças, brinquedos que adultos não devem levar
a sério. O fio vermelho que liga os 103 Contos
de Fadas recontados pela escritora inglesa Angela
Carter (tradução de Luciano Vieira Machado;
Companhia das Letras; 499 páginas; 46 reais) é
a experiência comum com a fantasia, que vale para qualquer
idade. Sem uma fantasia rica, dizia o psicólogo austríaco
Bruno Bettelheim em suas clássicas análises
sobre esse gênero literário, não há
chance de uma compreensão do que chamamos de realidade.
A característica
fantástica dos contos oriundos de diversas culturas
reescritos por Angela Carter aparece junto a outro aspecto
caro à sua literatura: o feminismo sutil que trata
a narrativa como uma ferramenta para ensejar mudanças
de perspectivas não só estéticas, mas
também morais. O feminismo do século XX desmistificou
o ideal histórico da mulher passiva que tem seu ápice
com as princesas adormecidas do romantismo do século
XIX, como Branca de Neve. Angela Carter que morreu
em 1992, aos 51 anos inverte a lógica mostrando
que é a vez de as moças acordarem os rapazes
(O Príncipe Adormecido) ou modelarem a seu gosto
o objeto de seus sonhos eróticos (O Rapaz Feito
de Gordura).
Contos de fadas,
na visão da escritora, não precisam ser apenas
histórias de elfos, sereias ou princesas desacordadas
em busca do marido ideal, mas narrativas que abordam os labirintos
do desejo e da formação interior de cada um.
Eles representam uma oportunidade de dar forma simbólica
ao que há de assustador no mundo do desejo. As crianças
sabem da obscuridade desse mundo e por isso convivem tão
bem com os contos que poderiam iluminar também a vida
de homens e mulheres, mesmo adultos. É o que pode ensinar,
por exemplo, o conto russo Vassilissa, a Filha do Clérigo,
cuja protagonista é uma moça de gestos e hábitos
masculinos que desperta o interesse de um rei, que faz de
tudo para descobrir sua verdadeira identidade sexual. Muito
além até dos tempos atuais, Vassilissa não
apenas não cai nas armadilhas que o rei lhe prepara,
como ainda o surpreende, rindo-se de suas trapaças
e preservando sua liberdade. Nessa história, não
há reconciliação.
A diversão
é ler Angela Carter a contar tais histórias
de modo irônico, com total permissividade para o final
feliz, o que em geral significa a vitória das heroínas
sobre seus potenciais conquistadores. Sem bater pé
em nenhum fundamentalismo feminista, ela não perde
a chance do encontro amoroso quando a situação
vale a pena, como no conto cigano Casaco de Musgo ou
no birmanês A Donzela Sapa. O livro de Angela
Carter é uma espécie de espelho mágico
em que cada leitor pode se encantar com a cor da própria
sombra. Ou, no mínimo, aprender por que vale a pena
contar uma boa história.
Impróprio para uma
donzela
"Em
certa terra, em certo reino, havia um clérigo
chamado Vassily, que tinha uma filha chamada Vassilissa
Vassilyevna. Ela usava roupas de homem, andava a cavalo,
tinha boa pontaria com o rifle, e fazia tudo de maneira
rude, e por isso poucos sabiam que era uma moça;
muita gente pensava que ela era homem e a chamavam de
Vassily Vassilyevich, ainda mais que Vassilissa Vassilyevna
gostava de vodca, o que, como todos sabem, é
absolutamente impróprio para uma donzela..." Trecho do conto Vassilissa, a Filha do
Clérigo