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24 de outubro de 2007
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Fada subversiva

A inglesa Angela Carter reescreve contos
tradicionais. Sem garantia de final feliz


Márcia Tiburi

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Trecho do livro

Contos de fadas não são apenas histórias para entreter crianças, brinquedos que adultos não devem levar a sério. O fio vermelho que liga os 103 Contos de Fadas recontados pela escritora inglesa Angela Carter (tradução de Luciano Vieira Machado; Companhia das Letras; 499 páginas; 46 reais) é a experiência comum com a fantasia, que vale para qualquer idade. Sem uma fantasia rica, dizia o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim em suas clássicas análises sobre esse gênero literário, não há chance de uma compreensão do que chamamos de realidade.

A característica fantástica dos contos oriundos de diversas culturas reescritos por Angela Carter aparece junto a outro aspecto caro à sua literatura: o feminismo sutil que trata a narrativa como uma ferramenta para ensejar mudanças de perspectivas não só estéticas, mas também morais. O feminismo do século XX desmistificou o ideal histórico da mulher passiva que tem seu ápice com as princesas adormecidas do romantismo do século XIX, como Branca de Neve. Angela Carter – que morreu em 1992, aos 51 anos – inverte a lógica mostrando que é a vez de as moças acordarem os rapazes (O Príncipe Adormecido) ou modelarem a seu gosto o objeto de seus sonhos eróticos (O Rapaz Feito de Gordura).

Contos de fadas, na visão da escritora, não precisam ser apenas histórias de elfos, sereias ou princesas desacordadas em busca do marido ideal, mas narrativas que abordam os labirintos do desejo e da formação interior de cada um. Eles representam uma oportunidade de dar forma simbólica ao que há de assustador no mundo do desejo. As crianças sabem da obscuridade desse mundo e por isso convivem tão bem com os contos que poderiam iluminar também a vida de homens e mulheres, mesmo adultos. É o que pode ensinar, por exemplo, o conto russo Vassilissa, a Filha do Clérigo, cuja protagonista é uma moça de gestos e hábitos masculinos que desperta o interesse de um rei, que faz de tudo para descobrir sua verdadeira identidade sexual. Muito além até dos tempos atuais, Vassilissa não apenas não cai nas armadilhas que o rei lhe prepara, como ainda o surpreende, rindo-se de suas trapaças e preservando sua liberdade. Nessa história, não há reconciliação.

A diversão é ler Angela Carter a contar tais histórias de modo irônico, com total permissividade para o final feliz, o que em geral significa a vitória das heroínas sobre seus potenciais conquistadores. Sem bater pé em nenhum fundamentalismo feminista, ela não perde a chance do encontro amoroso quando a situação vale a pena, como no conto cigano Casaco de Musgo ou no birmanês A Donzela Sapa. O livro de Angela Carter é uma espécie de espelho mágico em que cada leitor pode se encantar com a cor da própria sombra. Ou, no mínimo, aprender por que vale a pena contar uma boa história.

 

Impróprio para uma donzela

"Em certa terra, em certo reino, havia um clérigo chamado Vassily, que tinha uma filha chamada Vassilissa Vassilyevna. Ela usava roupas de homem, andava a cavalo, tinha boa pontaria com o rifle, e fazia tudo de maneira rude, e por isso poucos sabiam que era uma moça; muita gente pensava que ela era homem e a chamavam de Vassily Vassilyevich, ainda mais que Vassilissa Vassilyevna gostava de vodca, o que, como todos sabem, é absolutamente impróprio para uma donzela..."
Trecho do conto Vassilissa, a Filha do Clérigo




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