"Um escritor nasce em França
e acha, por assim dizer, uma pátria feita. Aqui, ele
deve escrever fazendo-a ao mesmo tempo", afirmou o romancista
Ernesto Sábato. Na frase, o "aqui" se refere à
Argentina, país natal do autor. Mas poderia perfeitamente
dizer respeito a qualquer país latino-americano
inclusive o Brasil, onde vigorou, pelo menos até metade
do século XX, uma exigência difusa de que o escritor
fosse uma espécie de lambe-lambe da alma nacional,
dedicado à produção de retratos do país.
Nos ensaios de Vira e Mexe, Nacionalismo (Companhia
das Letras; 246 páginas; 45,50 reais), a crítica
Leyla Perrone-Moisés, professora da Universidade de
São Paulo, analisa como diz o subtítulo
do livro os "paradoxos do nacionalismo literário".
A obra aponta algumas ilusões que rondam os nacionalismos
latino-americanos: o culto ao "folclore", a valorização
da pobreza (material e de idéias) como traço
distintivo, o provincianismo.
Professora
da área de literatura francesa, Leyla privilegia, na
sua análise, a relação da cultura brasileira
com a França, cuja influência foi dominante no
século XIX e início do XX. É um caso
curioso, pois contraria os que imaginam que a "dependência
cultural" vem a reboque da "dominação" política
e econômica. Salvo uma breve e fracassada experiência
no século XVI, a França não foi colonizadora
do Brasil. Aliás, esse fato, aliado à mística
de "pátria da Revolução e da Liberdade",
fez com que a França fosse vista com simpatia pelos
intelectuais nativos, desejosos de cortar as amarras que os
prendiam à antiga metrópole, Portugal (onde,
ironicamente, a cultura francesa também era sinônimo
de "civilização"). Como o nacionalismo não
vive sem inimigos, sem um "outro" contra o qual se bater,
a língua e a literatura francesas logo se tornariam
alvo da crítica patriótica. No século
XIX, houve uma cerrada vigilância gramatical contra
a importação de galicismos para o português
(recentemente, o deputado Aldo Rebelo propôs reeditar
os expurgos lingüísticos, dessa vez banindo as
importações do inglês).
O nacionalismo peca por um desejo
de isolamento cultural que nunca se mostrou possível
na realidade das trocas culturais e que hoje perdeu
mais ainda o sentido. No limite, essas reivindicações
de pureza redundam em racismo até mesmo quando
valorizam a "mestiçagem" (Leyla lembra o exemplo do
antropólogo Darcy Ribeiro, que desejava excluir o Uruguai
e a Argentina da América Latina sob a alegação
de que eram países muito "brancos"). A recusa terminal
do passado europeu é outra ilusão recorrente,
às vezes culminando em uma valorização
folclórica dos elementos indígenas (expediente
que hoje alimenta a demagogia do protoditador boliviano Evo
Morales). "A América Latina é cria da cultura
européia e, em vez de rejeitar essa filiação,
deve reivindicá-la", diz Leyla. Foi o que fizeram autores
como o brasileiro Machado de Assis e o argentino Jorge Luis
Borges. Leyla apresenta análises instigantes desses
escritores, mas se mostra demasiado generosa no exame dos
autores-fetiche da USP: Mário e Oswald de Andrade.
Ela insiste em elevar a decantada e desgastada antropofagia
de Oswald à condição de teoria crítica
da nacionalidade. Há muito pouca crítica
e certamente nenhuma autocrítica no modo como
Oswald afirma a originalidade edênica do Brasil tupi:
"Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha
descoberto a felicidade", diz o Manifesto Antropófago.
É talvez injusto criticar
um livro pelo que ele deixa de dizer mas Vira e
Mexe, Nacionalismo comportaria um capítulo alentado
sobre o papel da crítica no reforço das ideologias
patrioteiras. No século XIX, o crítico Sílvio
Romero reforçou a exigência de nacionalismo,
patrulhando escritores (inclusive Machado de Assis) que não
se enquadravam nesse ideário. No século XX,
Antonio Candido levou a tocha adiante. O seu clássico
Formação da Literatura Brasileira
que está para a maioria dos departamentos de letras
do Brasil como o Corão para os aiatolás
do Irã afirma, já no prefácio:
"Comparada às grandes, a nossa literatura é
pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos
exprime. (...) Se não a amarmos, ninguém o fará
por nós". Há um fundo autoritário nessa
bobagem: quem nos obriga a amar uma literatura fraca? E quem
diz que um livro inglês, alemão ou americano
não pode "nos exprimir"?
O nacionalismo por muito tempo
foi uma virtual imposição para o escritor brasileiro.
Foi assim com o indianismo romântico e modernista e
também com o regionalismo dos anos 30 e 40 o
sertão, afinal, era o "Brasil profundo", e o sertanejo
parecia ter mais dignidade literária do que o cidadão
urbano. A geração atual de escritores não
carrega mais esse fardo o que não significa
que fará uma literatura melhor. O nacionalismo, afinal,
ronda a literatura de vários países há
muito tempo (veja
alguns exemplos). Mas os bons escritores sempre souberam
driblar restrições ideológicas para expressar
sua individualidade. James Joyce definiu bem sua relação
criativa com a pátria em um diálogo de Ulisses.
"Você suspeita que eu posso ser importante porque pertenço
à Irlanda", diz Stephen Dedalus, alter ego do autor.
"Mas eu suspeito que a Irlanda deve ser importante porque
me pertence."