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24 de outubro de 2007
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Lambe-lambes da nação

O nacionalismo já foi obrigação dos escritores
brasileiros. Os talentosos souberam driblá-la


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

"Um escritor nasce em França e acha, por assim dizer, uma pátria feita. Aqui, ele deve escrever fazendo-a ao mesmo tempo", afirmou o romancista Ernesto Sábato. Na frase, o "aqui" se refere à Argentina, país natal do autor. Mas poderia perfeitamente dizer respeito a qualquer país latino-americano – inclusive o Brasil, onde vigorou, pelo menos até metade do século XX, uma exigência difusa de que o escritor fosse uma espécie de lambe-lambe da alma nacional, dedicado à produção de retratos do país. Nos ensaios de Vira e Mexe, Nacionalismo (Companhia das Letras; 246 páginas; 45,50 reais), a crítica Leyla Perrone-Moisés, professora da Universidade de São Paulo, analisa – como diz o subtítulo do livro – os "paradoxos do nacionalismo literário". A obra aponta algumas ilusões que rondam os nacionalismos latino-americanos: o culto ao "folclore", a valorização da pobreza (material e de idéias) como traço distintivo, o provincianismo.

Professora da área de literatura francesa, Leyla privilegia, na sua análise, a relação da cultura brasileira com a França, cuja influência foi dominante no século XIX e início do XX. É um caso curioso, pois contraria os que imaginam que a "dependência cultural" vem a reboque da "dominação" política e econômica. Salvo uma breve e fracassada experiência no século XVI, a França não foi colonizadora do Brasil. Aliás, esse fato, aliado à mística de "pátria da Revolução e da Liberdade", fez com que a França fosse vista com simpatia pelos intelectuais nativos, desejosos de cortar as amarras que os prendiam à antiga metrópole, Portugal (onde, ironicamente, a cultura francesa também era sinônimo de "civilização"). Como o nacionalismo não vive sem inimigos, sem um "outro" contra o qual se bater, a língua e a literatura francesas logo se tornariam alvo da crítica patriótica. No século XIX, houve uma cerrada vigilância gramatical contra a importação de galicismos para o português (recentemente, o deputado Aldo Rebelo propôs reeditar os expurgos lingüísticos, dessa vez banindo as importações do inglês).

O nacionalismo peca por um desejo de isolamento cultural que nunca se mostrou possível na realidade das trocas culturais – e que hoje perdeu mais ainda o sentido. No limite, essas reivindicações de pureza redundam em racismo – até mesmo quando valorizam a "mestiçagem" (Leyla lembra o exemplo do antropólogo Darcy Ribeiro, que desejava excluir o Uruguai e a Argentina da América Latina sob a alegação de que eram países muito "brancos"). A recusa terminal do passado europeu é outra ilusão recorrente, às vezes culminando em uma valorização folclórica dos elementos indígenas (expediente que hoje alimenta a demagogia do protoditador boliviano Evo Morales). "A América Latina é cria da cultura européia e, em vez de rejeitar essa filiação, deve reivindicá-la", diz Leyla. Foi o que fizeram autores como o brasileiro Machado de Assis e o argentino Jorge Luis Borges. Leyla apresenta análises instigantes desses escritores, mas se mostra demasiado generosa no exame dos autores-fetiche da USP: Mário e Oswald de Andrade. Ela insiste em elevar a decantada e desgastada antropofagia de Oswald à condição de teoria crítica da nacionalidade. Há muito pouca crítica – e certamente nenhuma autocrítica – no modo como Oswald afirma a originalidade edênica do Brasil tupi: "Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade", diz o Manifesto Antropófago.

É talvez injusto criticar um livro pelo que ele deixa de dizer – mas Vira e Mexe, Nacionalismo comportaria um capítulo alentado sobre o papel da crítica no reforço das ideologias patrioteiras. No século XIX, o crítico Sílvio Romero reforçou a exigência de nacionalismo, patrulhando escritores (inclusive Machado de Assis) que não se enquadravam nesse ideário. No século XX, Antonio Candido levou a tocha adiante. O seu clássico Formação da Literatura Brasileira – que está para a maioria dos departamentos de letras do Brasil como o Corão para os aiatolás do Irã – afirma, já no prefácio: "Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. (...) Se não a amarmos, ninguém o fará por nós". Há um fundo autoritário nessa bobagem: quem nos obriga a amar uma literatura fraca? E quem diz que um livro inglês, alemão ou americano não pode "nos exprimir"?

O nacionalismo por muito tempo foi uma virtual imposição para o escritor brasileiro. Foi assim com o indianismo romântico e modernista e também com o regionalismo dos anos 30 e 40 – o sertão, afinal, era o "Brasil profundo", e o sertanejo parecia ter mais dignidade literária do que o cidadão urbano. A geração atual de escritores não carrega mais esse fardo – o que não significa que fará uma literatura melhor. O nacionalismo, afinal, ronda a literatura de vários países há muito tempo (veja alguns exemplos). Mas os bons escritores sempre souberam driblar restrições ideológicas para expressar sua individualidade. James Joyce definiu bem sua relação criativa com a pátria em um diálogo de Ulisses. "Você suspeita que eu posso ser importante porque pertenço à Irlanda", diz Stephen Dedalus, alter ego do autor. "Mas eu suspeito que a Irlanda deve ser importante porque me pertence."

 
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Nesta reportagem
Quadro: Patriotadas literárias

 




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