São os fãs
do Radiohead que dizem:
o novo CD da banda vale entre 10 e 16 reais
Sérgio Martins
Nos últimos
anos, o mercado fonográfico tornou-se aquilo que os
economistas chamariam de "disfuncional". Produtores e consumidores
do mundo todo já não chegam a um acordo sobre
o valor de um CD. Os primeiros insistem que um disco precisa
custar cerca de 25 reais (ou o equivalente a isso, dependendo
da moeda). Os segundos acham o preço absurdo e se arranjam
trocando arquivos na internet ou nas bancas dos piratas. Há
duas semanas, o grupo inglês Radiohead, um dos mais
importantes do pop atual, resolveu abordar esse problema com
um experimento que faria sorrir Adam Smith, o pai da economia.
Eles apelaram à mão invisível do mercado.
Sem a intermediação de uma gravadora, o Radiohead
pôs na internet a íntegra de seu novo álbum,
In Rainbows. Em vez de estabelecer um preço,
deixou que cada pessoa decidisse quanto queria pagar pelas
canções. Segundo Bryce Edge, empresário
da banda, cerca de 500.000 pessoas fizeram download do disco
até agora. Fãs ardorosos desembolsaram o equivalente
a 400 reais. Outros não gastaram nem um tostão.
A maioria dos downloads, no entanto, ficou entre 10 e 16 reais.
Executivos das
grandes gravadoras torceram o nariz para o experimento do
Radiohead. Eles observam que o seu sistema de marketing custa
caro, e seria um dos motivos por que não se pode baixar
o preço de um CD normal. Por vários anos, o
Radiohead beneficiou-se desse sistema de divulgação,
e só assim conquistou a projeção que
tem hoje. Em outras palavras, brincar com o mercado quando
já se tem o nome estabelecido é fácil.
Tanto assim que o Radiohead promete lançar uma versão
especial de In Rainbows, com libreto e outros mimos,
com preço equivalente a 150 reais. O próprio
empresário da banda afirma que é necessário
ter cautela com as generalizações. "Ficamos
sabendo quanto as pessoas estão dispostas a pagar pelo
Radiohead. Mas o que se aplica a essa banda pode não
se aplicar às outras", diz Edge.
O mais interessante
no lançamento de In Rainbows, contudo, é
aquilo que ele revela sobre a psicologia do consumidor de
música. O resultado contradiz os pessimistas. É
mais um indício de que o mercado musical terá
de passar por uma grande metamorfose, mas não terá
necessariamente de morrer. Os fãs continuam dispostos
a pagar para ouvir as gravações de seus ídolos.
E não só com moedinhas tiradas do fundo do bolso.
Feita a média, In Rainbows aproximou-se de 50%
do preço que teria se fosse lançado nas lojas.
É bem menos do que querem as gravadoras. Mas é
dinheiro que vai para o cofre, ao contrário do que
ocorre nos downloads clandestinos e no mercado pirata. Segundo
o jornal inglês Daily Telegraph, outras duas
bandas populares da Inglaterra, o Oasis e o Jamiroquai, vão
seguir o exemplo do Radiohead. Farão seus próximos
lançamentos na internet, esperando que a mão
invisível os conduza ao público e a um
bom preço pelo seu trabalho.