O momento é
especial para a Argentina: o país está prestes
a entronizar uma nova dinastia, a dos Kirchner. No próximo
domingo, 28, Cristina Fernández de Kirchner deverá
ser eleita presidente sem precisar fazer grande esforço.
Ela não compareceu aos debates, não explicou
seu programa de governo e não deu entrevista. Sua folgada
posição à frente das pesquisas de intenção
de voto nem sequer oscilou com a crise energética e
os escândalos de corrupção envolvendo
o governo de seu marido, o presidente Néstor Kirchner,
que incluem a descoberta de uma bolsa recheada com dólares
no banheiro da ministra da Economia. Se confirmados os prognósticos,
Cristina deverá ficar cerca de 20 pontos porcentuais
à frente do segundo candidato. Mesmo em um improvável
segundo turno, que poderá ocorrer caso ela não
alcance 40% dos votos válidos, sua vitória é
dada como certa.
Não é
a primeira vez que os argentinos se deixam enfeitiçar
pela mulher do presidente. Nas duas ocasiões anteriores
a experiência terminou em tragédia. Evita Perón
morreu jovem, de câncer. Isabelita, viúva e herdeira
de Juan Domingo Perón, foi derrubada por um golpe militar.
O que será da Argentina no segundo governo da dinastia
Kirchner? VEJA fez essa pergunta a dez intelectuais, políticos
e economistas argentinos, todos eles referências em
suas áreas de atuação. O que se lê
nesta reportagem é baseado em suas respostas. Leia
entrevistas mais completas.
Natacha Pisarenki/AP
Fila em açougue de Buenos Aires:
limite à exportação de carne para baixar os preços internos
A sucessão
se dará em um cenário favorável aos planos
da dinastia (que são Kirchner suceder a Cristina na
eleição seguinte, e assim por diante). O atual
presidente teve a sorte de governar a Argentina durante a
fase de recuperação que se seguiu a uma crise
de quatro anos, a qual terminou em 2002. O período
de bonança pode perfeitamente perdurar por mais quatro
anos, mas o mais provável é um futuro problemático.
Cristina terá de arcar com as conseqüências
das decisões populistas tomadas pelo marido para acelerar
o crescimento econômico do país de maneira drástica.
Nos últimos doze meses, o aumento explosivo do consumo
e dos gastos públicos fez com que a inflação
real não a maquiada pelo governo, mas a dos
economistas independentes alcançasse níveis
próximos a 20%. Ao mesmo tempo, os investimentos externos
caíram como resultado, em parte, de uma postura hostil
de Kirchner em relação a empresas estrangeiras
e de sua política de controle de preços.
Por enquanto, os
efeitos desses problemas não foram suficientes para
mudar o humor dos argentinos. Isso porque, embora o PIB do
país ainda não tenha chegado aos níveis
de 1998 quando medido em valores correntes que expressam
a riqueza do país em relação a outras
nações , a Argentina está se recuperando
de maneira surpreendente. Desde a crise provocada pela paridade
forçada entre o dólar e o peso, a economia cresce
a taxas de quase 9% ao ano. O desemprego baixou de 22,5% para
7,7%, no mês passado, e os elegantes cafés de
Buenos Aires estão lotados de portenhos e de turistas.
Hoje, 27% dos argentinos vivem em situação de
pobreza. É uma boa notícia. Há cinco
anos, mais da metade da população estava nessa
condição.
Juan Mabromata/AFP
Chávez e Kirchner: bom amigo,
ele patrocinou o ingresso do coronel no Mercosul
Em meio a um ambiente tão favorável, Kirchner
e sua sucessora dão de ombros a qualquer previsão
de tempo ruim. Nas últimas semanas, Kirchner adotou
medidas populistas para estimular ainda mais o consumo. Pressionados
pelo governo, os bancos passaram a oferecer empréstimos
que, considerando a taxa de inflação real, terão
juros negativos. "O resultado inevitável será
mais inflação", diz o economista Daniel Marx,
um dos principais negociadores da dívida externa argentina
nas décadas de 80 e 90. Na tentativa de esconder o
problema debaixo do tapete, Kirchner passou os últimos
dois anos pressionando as redes de supermercado a fazer congelamento
voluntário de preços.
O casal Kirchner
se mostra indiferente aos riscos dessa estratégia.
O presidente e sua mulher beneficiam-se do chamado efeito
teflon nenhuma notícia ruim cola neles. Em parte,
isso se deve a políticas assistencialistas, como conceder
aposentadoria a 1,4 milhão de pessoas sem que tenham
contribuído para a Previdência. Recursos para
isso o governo tem tirado do aumento da arrecadação
de impostos e do crescimento na exportação de
grãos. "A soja está para Kirchner como o petróleo
está para o venezuelano Hugo Chávez", diz o
advogado Mariano Grondona, colunista do diário La
Nación.
Descobrir se Cristina
fará alguma alteração nas políticas
do marido é tão difícil quanto saber
o número de plásticas que ela já fez.
A candidata, de 54 anos, já dá palpite nos rumos
do governo: as decisões políticas do casal Kirchner
são tomadas apenas entre os dois. No atual governo,
nem sequer há reuniões com os ministros. Os
vagos slogans da campanha de Cristina também trazem
poucas respostas. Por todo o país, a frase ao lado
de sua foto é: "Sabemos quais são os problemas.
Sabemos o que fazer". A economista e deputada Mercedes Marcó
del Pont (veja a entrevista)
é uma das poucas pessoas habilitadas a falar sobre
o plano de governo de Cristina. Suas opiniões, centradas
no aumento da intervenção do estado na economia,
permitem antever um pouco mais do mesmo. Há, no entanto,
um elemento positivo na personalidade de Cristina. O marido,
antes apenas um obscuro governador de província sem
importância, é ríspido e avesso a conversas
com adversários. Ela é afável nas negociações
políticas. Senadora há três mandatos,
Cristina está habituada ao jogo do ceder-para-receber
da política.
No plano externo,
há esperanças de que ela inicie uma maior abertura
do país, contrariando a tendência argentina ao
isolamento. Isso porque, ao contrário do marido, ela
recebe embaixadores estrangeiros e gosta de viajar ao exterior.
Nos últimos meses, Cristina reuniu-se com Lula, o premiê
espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a primeira-ministra
alemã, Angela Merkel, e o ex-presidente americano Bill
Clinton. Esse tipo de aproximação é necessário
para fazer desvanecer as desconfianças dos investidores
estrangeiros. Não faz muito tempo, Kirchner bradava
a empresários europeus que não toleraria aumento
de tarifas de serviços públicos porque todos
já haviam ganho dinheiro demais no país. As
afrontas ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que
levou da Argentina o maior calote de sua história,
continuam em curso. Em um comercial de televisão de
Cristina que estreou na última semana, o locutor afirma
que "queremos que os filhos de seus filhos não tenham
idéia do que significa o FMI". Na boca de Kirchner,
esse tipo de retórica fez com que os investimentos
externos diretos na Argentina caíssem 4% em 2006, enquanto
no Brasil houve um aumento de 25%. "Outro sinal de temor externo
é que poucos estrangeiros se aventuram na Bolsa de
Buenos Aires, onde o volume movimentado representa apenas
1,3% do da Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa",
diz o investidor Eduardo Costantini.
Restaria, então,
contar com os investidores nacionais, mas estes andam igualmente
ressabiados. O congelamento de preços e as dificuldades
impostas à exportação inibem os investimentos.
Durante três meses do ano passado, os produtores de
carne foram impedidos de exportar. A justificativa do governo
é que o bife poderia escassear nos açougues
nacionais, pressionando os preços para cima. Hoje,
há um limite para a exportação, e muitos
pecuaristas estão deixando de investir no rebanho para
plantar soja, quatro vezes mais rentável. No ano passado,
o número de cabeças de gado encolheu 7%. "Para
o governo, os pecuaristas já foram muito privilegiados",
diz Luciano Miguens, presidente da Sociedade Rural Argentina.
"É uma lástima não poder aproveitar um
momento tão bom do mercado internacional." Um fato
desalentador é que, analisando-se a história
argentina, poucos políticos conseguiram manter uma
linha moderada de governo, como seria de desejar. "Governar
a Argentina é como dirigir um carro em alta velocidade
na lama: o mais difícil é ficar no meio da pista",
diz o historiador Fernando Devoto, da Universidade de Buenos
Aires. Cristina Kirchner não parece que será
uma exceção.
Com reportagem de Denise Dweck
A FUTURA
SENHORA DA ECONOMIA
A deputada
Mercedes Marcó del Pont, 48 anos, prepara-se
para assumir o Ministério da Economia no governo
Cristina Kirchner. Porta-voz em economia da candidata
peronista e diretora da Fundação de Pesquisas
para o Desenvolvimento (Fide), um instituto de Buenos
Aires que se propõe ser um "contraponto ao neoliberalismo",
Mercedes concedeu a seguinte entrevista a VEJA em seu
gabinete, no Congresso Nacional, em Buenos Aires:
Editoral Perfil
O ATUAL RITMO DE CRESCIMENTO DO PIB ARGENTINO É
SUSTENTÁVEL? A economia mundial passa por uma fase prolongada
de crescimento. Precisamos aproveitar esse cenário.
A Argentina deve manter o crescimento por mais dez anos.
Provavelmente não no ritmo atual de quase 9%
ao ano, mas ainda em níveis altíssimos.
Alguns economistas dizem que seremos forçados
a reduzir para uma taxa anual de 4%. Essa idéia
não tem fundamento. Os prognósticos são
todos favoráveis. Os investimentos, a demanda
interna e o comércio continuam aumentando.
A POLÍTICA
ECONÔMICA DE NÉSTOR KIRCHNER SERÁ
MANTIDA? Cristina tem dito claramente que pretende continuar
com as linhas estratégicas do atual governo.
Vamos trabalhar pela inclusão social e pela melhoria
dos salários, para aumentar o consumo sobretudo
nas classes média e baixa. Também vamos
procurar maior interação dentro de um
Mercosul ampliado com o ingresso da Venezuela, da Bolívia
e do Chile.
QUE MEDIDAS
SERÃO TOMADAS PARA CONTER A INFLAÇÃO? A inflação na Argentina não
se deve ao aumento do consumo, pois o país tem
capacidade para suprir a demanda. O problema são
os preços dos alimentos no mercado internacional.
Eles subiram demais, o que termina por pressionar o
custo dos produtos no mercado nacional. Outro fator
que eleva os preços é a existência
de oligopólios. As empresas são poucas,
o que lhes dá poder para determinar os preços.
Os empresários querem aumentar os lucros de imediato
porque dizem não saber como será o futuro.
Por isso, precisamos de um estado que intervenha e regule,
controlando os preços e definindo os volumes
de exportações.
POLÍTICAS
DESSE TIPO COSTUMAM AFASTAR OS INVESTIDORES EXTERNOS...
Precisamos explicar aos investidores estrangeiros
que não há perigo na Argentina. Há
quatro anos não mudamos as regras do jogo. Não
há condições para uma espiral inflacionária,
e o Banco Central seguirá atuando para manter
o câmbio. Por outro lado, é correta a idéia
de que continuaremos com intervenções
e arbitragens na economia. Evidentemente, isso pode
causar receio. Mas foi essa política que nos
permitiu crescer quase 9% ao ano. O que não vamos
fazer é recorrer à fórmula dos
anos 90 para atrair investimentos estrangeiros a qualquer
custo. Esse modelo incluía flexibilizar a legislação
trabalhista e deixar que o mercado decidisse tudo, possibilitando
a certos setores da economia uma rentabilidade exagerada.