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Roberto
Pompeu de Toledo
Em torno do
xador (II)
Um pouco
mais sobre
a mulher
como pólo de estranhamento
entre os ocidentais e os muçulmanos
Maomé
teve mais de dez mulheres. As mais famosas são a primeira, Khadidja,
com quem viveu monogamicamente até a morte dela, e Aisha, a queridinha
da fase poligâmica que se seguiu. Chegou a ficar casado com nove
a um tempo. Não se tratava de furor pela prática do sexo,
embora o profeta não escondesse que a apreciava. Os casamentos
constituíam-se em recurso para firmar alianças com diferentes
clãs. Maomé era carinhoso e atencioso com as esposas. Dormia
uma noite com cada uma, em sistema de rodízio. À parte o
fato de a poligamia, quando só permitida para o homem, constituir-se
em si numa violência contra as mulheres, era o mais justo e bondoso
possível.
Jesus de
Nazaré não casou, segundo o entendimento dominante. Mantinha
relações, porém, relações sociais,
bem entendido, assíduas e naturais, com as mulheres. Para apóstolos,
é verdade, escolheu só homens. Mas um punhado de amigas
desfilam nos evangelhos Marta e Maria de Betânia, Maria Madalena,
Joana e Susana, estas duas, menos conhecidas, citadas por Lucas entre
as "várias" mulheres que o seguiam nas peregrinações
pelos povoados da Galiléia. Há cenas de carinho entre Jesus
e as mulheres. Numa delas, Maria de Betânia lava os pés de
Jesus com um perfume e enxuga-os com os próprios cabelos.
Embora a
sexualidade explícita do primeiro não se confirme no segundo,
tanto um como o outro dos fundadores das duas maiores religiões
monoteístas conviviam tranqüilamente com as mulheres. Eis
um ponto de coincidência entre ambos. Nos dois casos, foi aos herdeiros
que coube iniciar a escalada discriminatória que, quando não
condenava, isolava ou diminuía as mulheres. Entre os muçulmanos,
Omar, o segundo califa, foi quem baixou os decretos mais cruéis
para elas. Determinou que ficassem confinadas em seus quartos, de onde
só poderiam sair cobertas da cabeça aos pés, que
tivessem lugares separados para fazer as orações e que as
adúlteras fossem castigadas com a morte por apedrejamento.
No cristianismo,
a lenta elaboração de um pensamento que estigmatizava o
sexo e, de cambulhada, a mulher desembocou, na virada do século
IV para o V, nas construções teóricas de Santo Agostinho,
o grande Santo Agostinho, ele que tanto pecara na juventude. "Estou convencido
de que nada afasta mais o espírito do homem das alturas do que
os carinhos da mulher e aqueles movimentos do corpo sem os quais um homem
não pode possuir sua esposa", escreveu. Segundo o biógrafo
Possídio, Agostinho não permitia que mulher ingressasse
em sua casa se não houvesse ali uma terceira pessoa, sem exceção
para a irmã nem para as três sobrinhas, todas freiras. Tal
comportamento fixaria um padrão de longa duração.
O papa João XXIII, o maior reformador da Igreja no século
XX, escreveria 1.500 anos depois em seu diário
como lhe foi benéfica a educação que recebeu do bispo
de Bergamo, Radini Redeschi, que lhe falava de tudo menos de mulheres.
"Era como se não existissem mulheres no mundo", deixou registrado,
para concluir: "Essa falta de familiaridade com relação
ao sexo oposto foi uma das mais poderosas e profundas lições
em minha juventude como padre, e ainda hoje preservo, grato, a excelente
e benéfica lembrança daquele homem que me educou nessa disciplina".
Tudo isso
é para dizer, neste momento em que tanto se comparam as culturas
muçulmana e cristã, que em si, no que se refere à
crucial questão da mulher, as duas religiões não
diferem tanto. Certo, o cristianismo jamais prescreveu o apedrejamento
das adúlteras. Em compensação, mandou-as para a fogueira,
as adúlteras e outras que, ao explorar, ou imaginar-se que exploravam,
os dengos femininos, caíam na fúria da Inquisição.
O que distingue de verdade os povos cristãos e muçulmanos
é a maneira como eles interagiram, a partir de certo momento, e
interagem ainda, com as respectivas religiões. As sociedades ocidentais,
robustecidas por períodos de afirmação humanística
como o Renascimento e o Iluminismo, deram como que um chega-pra-lá
no império da religião. Não é apenas que,
como um dos fundamentos da democracia, tenham consagrado o princípio
da divisão entre Igreja e Estado. Também na vida íntima,
os cidadãos esvaziaram o poder legiferante da Igreja. Tomem-se
os anticoncepcionais. O papa os proíbe, mas quem se importa com
isso? Mesmo robustecidas por períodos de afirmação humanística
como o Renascimento e o Iluminismo, deram como que um chega-pra-lá
no império da religião. Não é apenas que,
como um dos fundamentos da democracia, tenham consagrado o princípio
da divisão entre Igreja e Estado. Também na vida íntima,
os cidadãos esvaziaram o poder legiferante da Igreja. Tomem-se
os anticoncepcionais. O papa os proíbe, mas quem se importa com
isso? Mesmo católicos que vão à missa não
se importam.
Salto semelhante
ficou faltando nas sociedades muçulmanas. Talvez isso se deva,
entre outros motivos, ao fato de Maomé, fundador, de um só
golpe, da fé muçulmana e do império árabe,
ter criado ao mesmo tempo uma religião e um Estado. Ficou mais
difícil separá-los. Até hoje, monarquias como as
da Arábia Saudita e da Jordânia são conduzidas por
dinastias que se dizem herdeiras do profeta. Daí que, nessa confusão,
as leis da religião sirvam ao Estado e vice-versa. O resultado
é o xador que tanta estranheza causa a um ocidental. Ou, inversamente,
a minissaia e a mulher ao volante que tanto escandalizam os muçulmanos
ortodoxos.
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