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Uma ode a Juscelino

Mais do que compreender a
trajetória do político, um novo
livro quer mesmo é celebrar JK

Carlos Graieb


Brasília, em construção: afinal, quanto custou?

Algumas biografias são feitas para celebrar, outras para destruir. As melhores querem apenas compreender. Produto de oito anos de trabalho do jornalista Claudio Bojunga, JK – O Artista do Impossível (Objetiva; 800 páginas; 53,90 reais) tem muitas características desse modelo ideal. O livro inclui uma enorme quantidade de informações (nenhuma delas bombástica) sobre a trajetória de Juscelino Kubitschek, que presidiu o país entre 1956 e 1961. Ele oferece, ainda, um bom panorama da história brasileira entre as décadas de 30 e 80. São dezenas de perfis de personagens e discussões sobre questões políticas, econômicas e culturais que atravessaram o período. Em suas palavras, Bojunga tentou redigir um "ensaio sobre a modernização brasileira no século XX". Pena que não se tenha mantido exclusivamente nesse caminho. Logo no prefácio, ele avisa que pretende "refutar infâmias" e "reparar injustiças cometidas contra Kubitschek". Cumpre a promessa à risca, promovendo uma celebração incondicional do legado e da personalidade do estadista mineiro.

Quando fala em reparar injustiças, Bojunga pensa no processo de perseguição política empreendido contra JK durante o regime militar. Duas décadas atrás, essa preocupação seria legítima. Hoje, é mais difícil compreendê-la. Os últimos anos foram generosos com o ex-presidente. Ressaltaram a sua capacidade de produzir consenso e superar impasses políticos, a clareza com que enxergou a importância do capital estrangeiro para gerar desenvolvimento e seu dom para mobilizar os cidadãos. As virtudes de JK são amplamente reconhecidas e o ambiente seria propício para uma avaliação objetiva. Mas o desejo de "salvá-lo" leva Bojunga a omissões e interpretações tendenciosas, em campos que vão da vida amorosa à economia. Uma das "infâmias" cometidas contra JK, segundo o autor, é dizer que ele inventou a hiperinflação brasileira, que se tornaria um flagelo nas décadas seguintes. O autor se esforça para destruir essa tese. É bem-sucedido. Mas isso não significa que a gestão econômica de JK tenha sido isenta de traços irresponsáveis. O presidente sabia que seu sucessor herdaria contas públicas em frangalhos e não se afligia com isso – um fato que seria necessário enfatizar. Em sua pesquisa, tão minuciosa em outros aspectos, Bojunga também passa batido por um mistério: quanto custou Brasília? Não haverá biografia definitiva de JK até que se tente fazer uma conta dessa empreitada e avaliar seu impacto para a economia nacional. Podem-se contar nos dedos os trechos em que o autor faz críticas ao "presidente bossa-nova". Ele aponta a tendência de JK de cooptar aliados por meio de sinecuras (de resto, um esporte nacional) e, numa passagem interessante, narra suas manobras bem pouco democráticas para afastar o virulento Carlos Lacerda da televisão. Em seu afã de louvar, Bojunga não consegue despertar no leitor entusiasmo igual ao seu.

   
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