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Um
bom transgênico
Luiz
Fernando Carvalho
conseguiu: transformou em filme
o "infilmável" Lavoura Arcaica
Isabela
Boscov
Divulgação
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| Medeiros,
como Pedro, e Simone, que vive Ana: meses de ensaios |
Publicado
há mais de um quarto de século, o romance Lavoura Arcaica,
do paulista Raduan Nassar, tem uma legião de admiradores e é
o mais próximo que se tem de uma unanimidade na literatura contemporânea
brasileira. Mas, até este ano, nunca tinha originado uma versão
cinematográfica. Lavoura é, na verdade, aquele tipo
de livro "infilmável". Primeiro porque não há propriamente
um enredo, e sim um fluxo de consciência do protagonista, André,
que se confronta com os sentimentos que o levaram a abandonar a família
a revolta com a opressão paterna e o amor incestuoso pela irmã.
A prosa do autor complica a tarefa: abstrata e profusa, ela não
se dobra à forma de um roteiro. E há, por fim, a lenda que
acompanha o livro. Ao mesmo tempo em que anunciou o início da carreira
de Raduan, Lavoura Arcaica prenunciou o seu fim. Em 1978, ele lançaria
seu segundo romance, Um Copo de Cólera, e em seguida trocaria
a literatura pelo trabalho na sua fazenda, no interior de São Paulo.
Não é de estranhar, portanto, que tenha demorado tanto a
haver um Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), como o que estréia
nesta sexta-feira no Rio. O fato admirável, aqui, é a estatura
do filme dirigido pelo carioca Luiz Fernando Carvalho.
Antonio Milena
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Fernando Martinho
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Raduan e Carvalho: texto quase na íntegra |
Admirável,
mas não surpreendente, ao menos para quem conhece o trabalho de
Carvalho na televisão e aí se pode incluir boa parte
da população brasileira. Em 1993, ele estreou na direção-geral
de novelas com Renascer. Ao retratar a saga que se iniciava com
o drama da jovem Santinha, alvo da paixão de seu pai, Carvalho
sepultou aquele Nordeste folclórico e assanhado dos folhetins globais.
Criou em seu lugar um território de mito. Foi um sucesso. Sobretudo
no início, antes que Renascer caísse naquela modorra
que invariavelmente acomete as novelas, Carvalho mostrou que a má
qualidade do conteúdo não é um imperativo da televisão.
É uma opção cínica que ele recusou também
em trabalhos como O Rei do Gado e a minissérie Os Maias.
Em Lavoura Arcaica, sua estréia em longa-metragem, o diretor
demonstra novamente essa seriedade. Embora seja uma estrela da Globo (na
qual deve dirigir a próxima novela de Benedito Ruy Barbosa), ele
não levou seu projeto à produtora cinematográfica
da emissora. Foi convidado a realizá-lo na Videofilmes, dos irmãos
João e Walter Salles, e aceitou prontamente.
Divulgação
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Selton Mello, como André,
o protagonista: atormentado |
Lavoura
Arcaica se inicia quando Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito
de um clã de imigrantes libaneses, vai buscar André (Selton
Mello) na pensão em que ele se refugiou. Para Pedro e seu pai (Raul
Cortez), a família é o que há de mais sagrado, e
André deve ser persuadido a voltar para ela. Do diálogo
entre os dois irmãos e dos assomos de memória do protagonista
começa a emergir o passado de André seu tormento com
os longos sermões morais do pai, sua afinidade com o ramo materno
da família e sua catastrófica obsessão pela irmã
Ana (Simone Spoladore). Raduan escreve essa história torrencialmente,
em parágrafos que ocupam capítulos inteiros e que raramente
têm pontos. Em vez de tentar simplificar o impossível, Carvalho
tratou de abraçá-lo. Filmou sem roteiro, depois de meses
de ensaios numa fazenda em São José das Três Ilhas,
em Minas Gerais. Amparado no talento do diretor de fotografia Walter Carvalho,
tirou desse processo iniciado em 1998 uma "prosa visual" que é
o equivalente exato da prosa literária de Raduan. Esta, no entanto,
continua presente, já que Carvalho colocou quase a íntegra
do texto original na boca dos protagonistas. "A idéia é
que os atores contracenassem também com o texto", explicou o diretor
a VEJA.
Uma diferença significativa, porém, separa o livro do filme.
Em ambos, André é um personagem que beira o narcisismo e
gira em torno do seu próprio sofrimento. A parte da tragédia
que cabe ao restante da família fica reservada às entrelinhas.
No filme, esses personagens têm feições definidas,
e também sua dor fica mais palpável. Às vezes ela
chega a ser bem mais tocante que a dor de André como quando
sua mãe (numa atuação belíssima de Juliana
Carneiro da Cunha) o vê partir, ou no diálogo torturante
que o pai trava com o filho quando este regressa a casa. É um olhar
mais compassivo que o do escritor. Mas não altera o fato de que
Lavoura Arcaica é uma das adaptações mais
intransigentes já feitas, tão difícil e tão
compensadora quanto o livro. Que ninguém espere três horas
de entretenimento. Quem estiver em busca de uma experiência radical,
contudo, já sabe onde encontrá-la.
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