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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
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Um bom transgênico

Luiz Fernando Carvalho
conseguiu: transformou em filme
o "infilmável" Lavoura Arcaica

Isabela Boscov

 
Divulgação
Medeiros, como Pedro, e Simone, que vive Ana: meses de ensaios

Publicado há mais de um quarto de século, o romance Lavoura Arcaica, do paulista Raduan Nassar, tem uma legião de admiradores e é o mais próximo que se tem de uma unanimidade na literatura contemporânea brasileira. Mas, até este ano, nunca tinha originado uma versão cinematográfica. Lavoura é, na verdade, aquele tipo de livro "infilmável". Primeiro porque não há propriamente um enredo, e sim um fluxo de consciência do protagonista, André, que se confronta com os sentimentos que o levaram a abandonar a família – a revolta com a opressão paterna e o amor incestuoso pela irmã. A prosa do autor complica a tarefa: abstrata e profusa, ela não se dobra à forma de um roteiro. E há, por fim, a lenda que acompanha o livro. Ao mesmo tempo em que anunciou o início da carreira de Raduan, Lavoura Arcaica prenunciou o seu fim. Em 1978, ele lançaria seu segundo romance, Um Copo de Cólera, e em seguida trocaria a literatura pelo trabalho na sua fazenda, no interior de São Paulo. Não é de estranhar, portanto, que tenha demorado tanto a haver um Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), como o que estréia nesta sexta-feira no Rio. O fato admirável, aqui, é a estatura do filme dirigido pelo carioca Luiz Fernando Carvalho.

Antonio Milena
Fernando Martinho
Raduan e Carvalho: texto quase na íntegra

Admirável, mas não surpreendente, ao menos para quem conhece o trabalho de Carvalho na televisão – e aí se pode incluir boa parte da população brasileira. Em 1993, ele estreou na direção-geral de novelas com Renascer. Ao retratar a saga que se iniciava com o drama da jovem Santinha, alvo da paixão de seu pai, Carvalho sepultou aquele Nordeste folclórico e assanhado dos folhetins globais. Criou em seu lugar um território de mito. Foi um sucesso. Sobretudo no início, antes que Renascer caísse naquela modorra que invariavelmente acomete as novelas, Carvalho mostrou que a má qualidade do conteúdo não é um imperativo da televisão. É uma opção cínica – que ele recusou também em trabalhos como O Rei do Gado e a minissérie Os Maias. Em Lavoura Arcaica, sua estréia em longa-metragem, o diretor demonstra novamente essa seriedade. Embora seja uma estrela da Globo (na qual deve dirigir a próxima novela de Benedito Ruy Barbosa), ele não levou seu projeto à produtora cinematográfica da emissora. Foi convidado a realizá-lo na Videofilmes, dos irmãos João e Walter Salles, e aceitou prontamente.

 
Divulgação
Selton Mello, como André, o protagonista: atormentado

Lavoura Arcaica se inicia quando Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito de um clã de imigrantes libaneses, vai buscar André (Selton Mello) na pensão em que ele se refugiou. Para Pedro e seu pai (Raul Cortez), a família é o que há de mais sagrado, e André deve ser persuadido a voltar para ela. Do diálogo entre os dois irmãos e dos assomos de memória do protagonista começa a emergir o passado de André – seu tormento com os longos sermões morais do pai, sua afinidade com o ramo materno da família e sua catastrófica obsessão pela irmã Ana (Simone Spoladore). Raduan escreve essa história torrencialmente, em parágrafos que ocupam capítulos inteiros e que raramente têm pontos. Em vez de tentar simplificar o impossível, Carvalho tratou de abraçá-lo. Filmou sem roteiro, depois de meses de ensaios numa fazenda em São José das Três Ilhas, em Minas Gerais. Amparado no talento do diretor de fotografia Walter Carvalho, tirou desse processo – iniciado em 1998 – uma "prosa visual" que é o equivalente exato da prosa literária de Raduan. Esta, no entanto, continua presente, já que Carvalho colocou quase a íntegra do texto original na boca dos protagonistas. "A idéia é que os atores contracenassem também com o texto", explicou o diretor a VEJA.

Uma diferença significativa, porém, separa o livro do filme. Em ambos, André é um personagem que beira o narcisismo e gira em torno do seu próprio sofrimento. A parte da tragédia que cabe ao restante da família fica reservada às entrelinhas. No filme, esses personagens têm feições definidas, e também sua dor fica mais palpável. Às vezes ela chega a ser bem mais tocante que a dor de André – como quando sua mãe (numa atuação belíssima de Juliana Carneiro da Cunha) o vê partir, ou no diálogo torturante que o pai trava com o filho quando este regressa a casa. É um olhar mais compassivo que o do escritor. Mas não altera o fato de que Lavoura Arcaica é uma das adaptações mais intransigentes já feitas, tão difícil e tão compensadora quanto o livro. Que ninguém espere três horas de entretenimento. Quem estiver em busca de uma experiência radical, contudo, já sabe onde encontrá-la.

   
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