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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
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Esse Garoto...

Garotinho acusa Benedita de desviar
500 000 reais, não prova e se desdiz

Ronaldo França

 
Ricardo Fasanello/Strana
Otávio Magalhães/AE
Garotinho e Benedita: acusações expõem confusões no governo
do Rio

Denúncias de malversação de recursos públicos, longe de ser novidade no Brasil, são incômoda rotina. Mesmo assim, foi inusitada a acusação, na semana passada, de que a vice-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, em conluio com a ONG Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, desapareceu com 500.000 reais doados por empresas privadas para a construção de restaurantes populares. O que causou estranheza foi o fato de o acusador ter sido o próprio governador do Estado, Anthony Garotinho. O caso ganhou contornos de lorota quando ele voltou atrás e mudou sua versão da história. Agora, tem-se o caso inverso: a vice Benedita, acusada por Garotinho, quer levá-lo à Justiça para desmoralizar a insinuação – o que, se der certo, também desmoralizará o próprio governador.

Inicialmente, Garotinho e sua mulher, a secretária de Ação Social, Rosinha Matheus, afirmaram que Benedita da Silva repassou pessoalmente o dinheiro à ONG, e esta teria sumido com a verba. "A dona Benedita entregou para a ONG, que pegou os 500.000 e não apresentou restaurante nenhum", afirmou o governador. A doação, disseram, teria sido feita pela Telemar, a operadora de telefonia fixa do Rio. Em cada detalhe, essa história reproduzia um boato que havia dois anos passeava pelos salões da burocracia fluminense sem nunca ter sido investigado. Desmentido pela própria Telemar, o casal governante mudou a versão. Disse que o dinheiro teria sido repassado, na verdade, pela Credicard e diretamente à Ação da Cidadania. Foi a vez de a Credicard negar que tivesse feito qualquer doação. Sem ter como provar o que disse, Garotinho passou de acusador a acusado.

Especulou-se que as acusações seriam uma ofensiva no jogo da sucessão ao governo do Estado. As relações entre Garotinho e sua vice estão estremecidas desde o ano passado. Quem convive com o governador, no entanto, afirma que o cenário desejado por Garotinho é ver o PT na administração do Rio. Candidato à sucessão presidencial, ele deixará o cargo no ano que vem e a vice ficará em seu lugar. A aposta é que, com os problemas do Rio se avolumando, Benedita – que estará debutando numa função dessa envergadura – termine por projetar na candidatura Lula à Presidência da República uma imagem de incompetência. Mas, com acusações não comprovadas, foi Garotinho quem acabou embaçando a própria imagem política.

 
 
   
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