O
filme não acabou
Guilherme Fontes acha que tem motivo
para rir. Mas talvez ele deva chorar
Marcelo
Carneiro
Roberto Valverde
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| Fontes:
quase 600 000 reais em notas frias |
Onze
milhões de reais é quantia mais do que suficiente para fazer
um filme nacional. Na verdade, dá para realizar até três
longas-metragens. Menos para Guilherme Fontes, o ator que virou cineasta.
Seu Chatô, o Rei do Brasil, baseado na biografia de Assis
Chateaubriand escrita por Fernando Morais, já consumiu toda essa
dinheirama (11,4 milhões, para ser exato), boa parte dela arrecadada
por meio de leis de incentivo fiscal. Mas, seis anos depois de iniciada
a produção, o filme ainda está inacabado. Guilherme
Fontes quer mais recursos, mas pesam sobre o moço suspeitas de
irregularidades cabeludíssimas entre as quais, o desvio
de dinheiro público. Na semana passada, porém, ele era todo
sorrisos. Uma notícia divulgada pela imprensa indicava que um relatório
de auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) inocentava o
cineasta. De fato, o documento do TCU, que ainda será analisado
pelos ministros do órgão, recomenda o arquivamento da "tomada
de contas especial", um pente-fino que o governo faz em projetos subsidiados
pelo Tesouro que exalem um certo odor de maracutaia. O problema é
que essa informação é uma meia verdade. Guilherme
Fontes sabe muito bem que, além do TCU, há outra instância
vasculhando o que há de errado em seu projeto. É a Comissão
de Valores Mobiliários (CVM), à qual compete fiscalizar
a emissão de certificados de investimento em filmes que captaram
recursos com as leis do audiovisual. O destino de Guilherme Fontes na
CVM será selado no mês que vem, quando o órgão
se pronunciará sobre um inquérito iniciado no ano passado.
VEJA teve acesso ao relatório final da Comissão de Inquérito.
O resultado é de arrepiar.
Alguns exemplos das irregularidades flagradas:
O cineasta apresentou uma montanha de notas frias
para justificar os gastos com a produção do filme. Os inspetores
da CVM analisaram notas fiscais supostamente expedidas por 52 empresas.
Encontraram de tudo: há firmas que negam ter emitido notas para
o filme, empresas com endereços fantasmas e firmas com endereços
em que funcionam outras empresas ou nos quais existem residências.
As notas frias somam quase 600.000 reais.
As contas de água, luz e telefone da Guilherme
Fontes Filmes, empresa do cineasta, bem como os salários dos funcionários
e até o "pró-labore" dos sócios foram pagos com recursos
do projeto Chatô. Isso é proibido pelas leis de incentivo.
A firma do cineasta não tem nenhum tipo
de controle sobre suas próprias prestações de contas.
"As alegações do senhor Guilherme Fontes evidenciaram a
desorganização da empresa, que nem sequer arquivava as informações
prestadas aos órgãos oficiais", diz um trecho do relatório
da CVM.
Não há registro de livros contábeis
da empresa no ano de 1999, justamente quando Guilherme Fontes captou mais
de 4 milhões de reais, o que representa quase a metade de tudo
o que foi arrecadado por ele através das leis de incentivo fiscal.
O trabalho dos inspetores da CVM foi minucioso. A julgar pelo que encontraram,
é difícil acreditar que o TCU, ou qualquer outro órgão
encarregado da fiscalização do bom uso de dinheiro público,
venha, ao final do processo, recomendar o arquivamento das denúncias
contra Guilherme Fontes. Entre os responsáveis pelas investigações,
já se sabe também que o cineasta melhorou muito de vida
justamente nos anos em que Chatô captou mais recursos. O
relatório a que VEJA teve acesso é a principal peça
do Inquérito Administrativo CVM nº 12/00, que apura as irregularidades
cometidas pela Guilherme Fontes Filmes.
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| Trecho
do relatório da CVM: uma penca de irregularidades |
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