
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A conta está
errada
Lula superfatura
o número de miseráveis e propõe que o Brasil só
exporte alimentos depois que os pobres estiverem sem fome
Eraldo Peres/AP

Fernando
Henrique, anunciando o Bolsa-Escola: o social será o tema da
eleição de 2002
|
Luís
Inácio Lula da Silva atravessa o melhor momento de sua carreira
política. Nas pesquisas eleitorais, aparece com 35% das intenções
de votos. O segundo colocado, Ciro Gomes, está 20 pontos atrás.
Mantido o atual cenário, a presença de Lula no segundo turno
de 2002 é quase certa, e os especialistas afirmam que pela primeira
vez o PT pode, sim, eleger o presidente. Por se tratar de um eventual
chefe de governo a partir de 2003, as declarações de Lula
despertam um interesse especial, muito diferente do que acontecia em 1998,
quando o candidato tentava debater idéias com Fernando Henrique
Cardoso, o pai do Real, e ninguém o ouvia com atenção.
Na semana passada, Lula reuniu a imprensa para divulgar um programa chamado
"Fome Zero". O projeto contém um diagnóstico sobre os contornos
da pobreza, acompanhado da lista de propostas para erradicá-la.
O trabalho representa um marco na história de um partido que se
acostumou a criticar os sucessivos governos, sem jamais propor alternativas.
Em junho, o PT mudou o estilo e apresentou uma primeira alternativa. Seus
economistas expuseram o programa de governo para 2003. Agora, o PT disse
o que fará contra a pobreza, caso seja eleito.
No anúncio
do programa econômico, em junho, o partido demonstrou dois avanços
significativos: reconhece o equilíbrio fiscal e a estabilidade
da moeda como valores a ser preservados. Erroneamente, continua a defender
a intervenção do Estado na economia, o planejamento central
das áreas a ser desenvolvidas, o subsídio à exportação,
o estímulo à substituição de importações
e maior proteção trabalhista. Aconteceu o mesmo com o "Fome
Zero". O programa contém duas virtudes. Primeiro, ele chama a atenção
para a miséria e a disparidade de renda entre pobres e ricos. Depois
reconhece que, mesmo que Lula seja eleito, o governo federal não
será capaz de enfrentar o problema sem a ajuda da sociedade.
O que torna
o trabalho frustrante é que o PT mantém-se fiel ao velho
estilo de contrariar a lógica. No caso do "Fome Zero", Lula afirmou
que existem 44 milhões de miseráveis no Brasil. Ou seja,
uma em cada quatro pessoas estaria passando fome. Há controvérsias
entre os estudiosos sobre o contingente de miseráveis. Tudo depende
da metodologia utilizada. Por definição, miserável
é quem não possui renda para ingerir uma quantidade mínima
de calorias. E qual é essa quantidade de caloria diária?
Há trabalhos falando em 2.000 calorias,
e outros, em 2.300. Depois, é necessário
calcular quanto se precisa gastar para comprar os alimentos. Também
aí há opções mais modestas levando-se
em conta que boa parte da população carente mantém
uma horta e algumas galinhas no quintal de casa ou mais caras,
trabalhando a partir do preço da comida nos centros urbanos. Recentemente,
a Fundação Getúlio Vargas divulgou um trabalho com
base nas opções mais caras. Chegou a uma população
miserável da ordem de 50 milhões de pessoas.
Os trabalhos
menos controversos nesse campo estimam a faixa mais carente do Brasil
em algo entre 14 e 20 milhões de pessoas o que já
é muito. Como se sabe, uma das formas de não resolver um
problema é superdimensioná-lo. Foi o que fizeram Lula e
seus técnicos. Como idéia central, o partido quer que cada
miserável tenha direito a receber um cupom que pode ser trocado
por comida numa rede credenciada. Como o trabalho estimou a população
faminta em 44 milhões de pessoas, o custo do "Fome Zero" foi calculado
em 20 bilhões de reais por ano outro exagero.
Um dos principais
debates no campo da assistência social diz respeito ao modelo que
se deve empregar para ajudar os mais carentes. Até pouco tempo,
distribuíam-se cestas básicas, compradas aos milhares. Em
vez de melhorar a vida dos mais pobres, em muitos casos a aquisição
das cestas resolvia o problema eleitoral ou bancário de alguns
políticos inescrupulosos. Com o tempo, migrou-se para o atual modelo,
o da Bolsa-Escola, empregado em diversas prefeituras, muitas delas do
PT, e pelo governo federal. Pelo sistema, os mais pobres recebem uma quantia
em dinheiro todo mês, que podem sacar por meio de cartões
magnéticos. Em troca, matriculam os filhos no colégio. O
governo exige a contrapartida, mas não monitora o destino dos recursos.
Cada beneficiado compra o que quiser com o dinheiro. O "Fome Zero" está
um passo atrás na discussão. O grande receio nesses casos
é que se crie um mercado paralelo, onde cupons são trocados
por dinheiro, com deságio.
Durante
o lançamento do "Fome Zero", não foi apenas o programa que
chamou a atenção, mas uma declaração de Lula.
Disse ele: "O que não dá é que temos que exportar
ou morrer vendo as pessoas morrendo aqui dentro. Nosso povo tomou café
da manhã, almoçou e jantou? Então vamos exportar
o que sobrou". Perguntado sobre o sentido de sua frase, Lula explicou
que o Brasil deve se preocupar primeiro em matar a fome dos mais pobres
para só então exportar. "Não existe incompatibilidade
entre exportar e fazer programas contra a fome", diz o economista Fabio
Giambiagi, do BNDES. Ele explica: o Brasil precisa exportar para conseguir
dólares a fim de equilibrar suas contas. Sem isso, não sobra
dinheiro para investir na construção de escolas e hospitais
e executar programas de combate à fome.
Existe ainda
um equívoco subsidiário na proposta de Lula, ligado à
execução de seu modelo de controle de exportação.
O economista Gustavo Franco analisou as conseqüências da implantação
da idéia de Lula. O governo poderia criar multas para inibir a
exportação ou usar o dinheiro do contribuinte para comprar
a produção por um preço mais alto. O resultado seria
o congelamento de preços. "Haveria contrabando, caixa dois, superfaturamentos",
diz. "Ao pagar mais e a preço garantido, o governo estimularia
a incompetência e o atraso tecnológico. A economia do país
seria abalada e a estabilidade econômica inviabilizada." Felizmente,
Lula ainda tem tempo de mudar seus planos.
|
|
 |