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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
Brasil Reforma agrária

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Férias com o MST

Já se pode comprar pacotes de
turismo
para os assentamentos
da reforma agrária

O cardápio de sugestões para as próximas férias ganhou uma opção inusitada. São seis novos roteiros em fazendas nas regiões mais bonitas do Rio Grande do Sul, incluindo locações na Lagoa dos Patos e na Serra Gaúcha. A comida não tem agrotóxicos e é toda produzida nas próprias fazendas. O visitante pode conhecer as lavouras e as criações. E, claro, pode comprar artesanato e compotas nas lojinhas. As acomodações são despojadas, mas o preço compensa. O valor da diária começa em 40 reais e vai até 120, a mais cara com pernoite e todas as refeições incluídas. E mais, o preço do transporte de Porto Alegre até a fazenda está incluído. Tudo isso nos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Neste mês começou a funcionar em Porto Alegre a primeira agência especializada exclusivamente em pacotes turísticos nos assentamentos. Por enquanto, só dá para visitar os da Região Sul. No próximo verão também vão ser oferecidos pacotes para os assentamentos no Nordeste. No futuro, a idéia do projeto "MSTur", como foi batizado pelo MST, é permitir o acesso de turistas somente por meio de agências credenciadas.

Os acampamentos sempre estiveram abertos a visitantes que nunca precisaram pagar nada. O MST fez as contas e percebeu que o turismo engajado pode render um dinheirinho razoável. Perto de 45.000 pessoas visitam os assentamentos todo ano por conta própria, estudantes na maioria dos casos. Uma pequena parte vem do exterior. Pelo menos uma centena de estrangeiros se hospedou nos assentamentos da reforma agrária nos últimos anos. O MST já credenciou uma agência de turismo na Alemanha. O número de pessoas dispostas a pagar pela visita por enquanto é pequeno. Na média, os assentamentos receberam quarenta turistas por mês no começo do ano, na fase experimental do projeto. As expectativas são grandes. O mercado chama esse negócio de turismo "solidário", uma modalidade que cresce no mundo todo. As operadoras descobriram um filão de jovens dispostos a empregar seu tempo de lazer em atividades comunitárias e conhecer novas experiências sociais. Cuba sempre encontrou jovens dispostos a passar uma temporada de férias cortando cana de graça em troca da oportunidade de viver na pele a última grande experiência socialista no mundo. Jovens médicos da Inglaterra costumam passar alguns meses trabalhando em comunidades pobres do interior da Índia, sua ex-colônia. No ano passado, o príncipe William, filho do príncipe Charles e da falecida princesa Diana, passou dez semanas na Patagônia chilena. Ali, deu aulas de inglês a crianças carentes e ajudou a comunidade local a construir pontes. No Brasil, a prefeitura do Rio de Janeiro está apostando em uma variação dessa modalidade. Desde o começo do ano, ela treina moradores da favela da Rocinha para trabalhar como guias de turismo para receber os estrangeiros que costumam passear por lá. Em tempo, todos os passeios nos assentamentos incluem pelo menos uma hora de palestras sobre a reforma agrária. Para maiores informações, o endereço da agência na internet é www.pangea.com.br.

 
QUANTOS SÃO OS SEM-TERRA?

Há um ano, as famílias interessadas em se inscrever no programa de reforma agrária foram autorizadas pelo governo a requerer inscrição por meio dos correios. Antes disso, o cadastro era feito via Movimento dos Sem-Terra. Além de facilitar o acesso, o governo esperava com isso descobrir quantos sem-terra afinal existem no Brasil. O MST sempre defendeu que são 5 milhões de famílias nessa condição. Brasília trabalha com um número muito menor: 200 000 famílias. Pois bem. O número de inscritos pelos correios já é conhecido e ninguém fez questão de alardeá-lo. Até agora, 500 000 famílias se inscreveram – nem tão pouco quanto prega o governo e muito aquém dos dados do MST. Os sem-terra dizem que muitos ainda irão se inscrever. O governo acredita que há grande número de casos de registros duplicados.

 

 
 
   
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