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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
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O forrobodó dos federais

Gravidez inexplicada expõe a balbúrdia
cotidiana da principal polícia do país

Vannildo Mendes

 
Nehil Hamilton

Magalhães Pinto, afastado do comando da PF em razão da gravidez da mexicana Gloria Trevi (à dir.)
Ana Araujo

O delegado Paulo Magalhães Pinto, 51 anos, realizou uma proeza na semana passada: conseguiu ser punido duas vezes. Na quinta-feira, ganhou uma suspensão de sete dias por ter assinado mais de 2.000 autorizações de porte de arma, que eram vendidas clandestinamente em São Paulo. Três dias antes, o delegado perdera a função de superintendente da Polícia Federal em Brasília, cargo que ocupava desde 1996. Desta vez, a punição foi resultado de um caso esdrúxulo: a cantora mexicana Gloria Trevi, presa há vinte meses na carceragem da PF em Brasília, está com cinco meses de gravidez. Como ela não tinha direito a visita íntima, a gravidez tornou-se um símbolo da incompetência da PF, que não conseguiu sequer vigiar a porta de uma cela. As investigações comandadas por Magalhães Pinto até agora não trouxeram a resposta à pergunta inevitável: afinal, como Gloria Trevi engravidou? Foi vítima de estupro? Um preso driblou a segurança e teve acesso a sua cela? Um policial federal se esgueirou até a cela da cantora?

A gravidez pode ajudar Gloria Trevi em sua batalha para refugiar-se no Brasil e evitar a extradição para o México, onde é processada por abuso sexual e corrupção de menores. A cantora, no entanto, não quer esclarecer o assunto e se recusou a fazer um exame de DNA, que identificaria o pai. Na presença de sua advogada, Sylvia Beeg, Gloria teve a seguinte conversa com VEJA:

Veja – Você foi vítima de estupro?
Gloria – Não vou falar. O que posso dizer é que não planejei ficar grávida na cadeia. Isso não ajuda em nada meu processo.

Veja – Houve conivência de policiais?
Sylvia – Não responda, Gloria.

Veja – Policiais e bandidos estão envolvidos nisso?
Gloria – Deixem meu filho em paz. Meu filho não é filho de ninguém. Não é filho de bandido. Não é filho de policial. É meu filho.

Veja – Se houve alguma cumplicidade policial...
Sylvia – Não insista. Ela não vai responder.

Veja – Por que você não revela a verdade?
Gloria – Temo pela minha segurança e a de meu filho. Corremos risco de vida no México e agora tenho motivos para ficar calada para não correr risco de vida também aqui.

Desde que o caso veio a público, a Polícia Federal se encarregou de espalhar versões. Primeiro, tentou responsabilizar um dos presos pela gravidez – o traficante Marcelo Borelli, detido na mesma carceragem que Gloria. A PF fez chegar aos demais detentos que Borelli estuprara a mexicana. Revoltados, os presos tentaram linchar o traficante, que acabou no pronto-socorro. Ao voltar, três dias depois, quase morreu asfixiado, quando os detentos atearam fogo em colchões e lençóis dentro de sua cela. Em seguida, a equipe de Magalhães Pinto especulou que a gravidez acontecera sem contato físico: um tubo de caneta esferográfica, carregado de esperma, chegara à cela de Gloria. É até possível, já que os espermatozóides resistem entre seis e doze horas, mas ficou outra dúvida: quem seria o doador? A hipótese mais escabrosa é que Gloria vinha sofrendo abusos sexuais por parte de detentos e até de policiais. Com tanta confusão, Magalhães Pinto foi afastado do comando da PF e das investigações. Nesta semana, o corregedor Antônio Pietro, novo responsável pela apuração, entregará relatório preliminar sobre o caso ao Ministério da Justiça.

O episódio Gloria Trevi é apenas um exemplo da balbúrdia da Polícia Federal. A corporação nunca teve tanto dinheiro, seu orçamento no ano passado passou de 1,5 bilhão de reais, mas uma parte desse bolo está indo pelo ralo ou desaparecendo no bolso de vivaldinos. No ano passado, por exemplo, a PF gastou 2 milhões de reais na confecção de placas de homenagem aos heróis da corporação, medalhas, painéis e símbolos... Em vez de investir em modernização, melhoria dos serviços e treinamento de pessoal, a PF torra dinheiro em móveis de escritório em compras suspeitas, uma penca de viagens e obras irregulares. Até reforma do prédio da superintendência da PF em Brasília, onde Gloria Trevi estava detida, está na lista das 141 obras apontadas como suspeitas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A Academia de Polícia Federal, também em Brasília, por onde passam todos os agentes federais do país, é outra obra da lista. Mas o que chama a atenção são as viagens.

Com um efetivo de 7.000 funcionários, entre delegados, agentes, policiais e técnicos, a PF nunca gastou tanto em diárias de viagens. No ano passado, foram 31 milhões de reais – o que dá mais de 4.000 reais para cada funcionário. Só em agosto e setembro, o Diário Oficial da União registrou 94 viagens de delegados e agentes ao exterior. Há expedições curiosas. Os delegados Carlos Tasso, Antônio Lessa e Maria Izabel Feijó, além da perita Fernanda Scarton, ficaram uma semana em Havana, Cuba. Foram a um seminário sobre falsificação e contrabando de tabacos cubanos – só cubanos. Um dia depois, outro delegado, Mário Seiken Nakasa, integrou-se à comitiva. Mais um exemplo: entre 26 de setembro e 2 de outubro, o delegado João Alberto Pellegatti esteve na capital da Alemanha. Para quê? Participando da maratona de Berlim. Em agosto, um curso sobre "operações rurais de fronteiras", nos Estados Unidos, atraiu nada menos que 24 policiais. A turma ficou um mês no exterior.


Joedson Alves/AE
O diretor-geral da PF, Agílio Monteiro: cancelando compras e diárias de viagens

Desde a posse de Agílio Monteiro Filho como diretor-geral da PF, em junho de 1999, as diárias e passagens consumiram 72 milhões de reais. Só com diárias, foram mais de 50 milhões de reais. É uma farra nacional. Funciona assim: o policial de um Estado realiza uma missão em outro Estado e, com isso, recebe uma diária que pode dobrar seu salário. O rodízio é uma delícia. O escrivão Geovane de Aguiar Santoro, por exemplo, de Pernambuco, realiza missões em Brasília desde abril do ano passado. Isso mesmo: há um ano e meio. O policial Cláudio Nogueira é lotado em Juiz de Fora, onde reside sua família, e cumpre missão só no Rio. Desde março de 2000. A coisa chegou a tal ponto que, no mês passado, Agílio Monteiro suspendeu todos os gastos com viagens. Terá prejuízos pessoais: ele próprio, adepto da jornada parlamentar de trabalho, aquela que começa na terça e acaba na quinta, costuma arranjar missões especiais às vésperas do fim de semana em cidades com conexão aérea com Belo Horizonte, onde mora sua família.

Em Rio Branco, no Acre, a gastança já produziu um recorde nacional. É um presídio novo, construído para abrigar o ex-deputado Hildebrando Pascoal, aquele que serrava gente. Apelidada de "Papudinha", a prisão custa 1 milhão de reais por mês ao Erário. Há trinta policiais federais tomando conta de trinta presos, todos em rodízio. Em vez de montar uma equipe fixa, a PF escala, todo mês, um grupo de oito a dez policiais para uma temporada de três meses em Rio Branco. A disputa é ferrenha, pois cada agente engorda sua renda mensal com 3.800 reais. Feitas as contas, constata-se que cada preso na Papudinha custa 33.000 reais – enquanto a média nacional não chega a 700 reais por preso. "Formamos um grupo de 46 agentes penitenciários a pedido do governo do Acre, mas, quando eles souberam quem ia tomar conta na Papudinha, nenhum quis tomar posse. Estamos lá provisoriamente", diz Agílio Monteiro.

Em meio a esse salseiro, a PF está às voltas com uma suspeita de corrupção. Há um ano, o coordenador-geral de planejamento, José Francisco Mallmann, resolveu aplicar um programa de padronização da mobília usada pela PF. Pediu à indústria de móveis Giroflex, de São Paulo, a descrição de seus móveis para escritório. A descrição, em seus mínimos detalhes, foi usada num memorando dirigido a todas as superintendências da PF no país, orientando-as para que só comprassem móveis com aquelas características. "Nosso objetivo era padronizar as cores do mobiliário, dentro de uma visão moderna de layout. Não foi uma imposição", diz Mallmann. As superintendências de Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, desconfiadas, se recusaram a fazer as compras. Por via das dúvidas, Agílio Monteiro mandou cancelar as aquisições. Com tudo isso acontecendo, alguém se surpreende que uma presa sem direito a visita íntima tenha engravidado nas barbas da PF?

 
 
   
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