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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
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O baú do lobista

O maior lobista de Brasília denuncia
extorsão no Ministério da Saúde e
sua agenda, apreendida, revela
subornos e "esquemas"

Policarpo Junior

Bia Parreiras
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O empresário Nelson Tanure: informações sobre caixas de campanha, moedas podres e testa-de-ferro num banco. "Não vou comentar nada"

No dia 10 de outubro passado, uma equipe de policiais invadiu, com autorização judicial, o escritório do maior lobista de Brasília, Alexandre Paes dos Santos, dono de um plantel de trinta clientes de primeiríssima linha, todos multinacionais. Os policiais revistaram gavetas, abriram armários e, como o lobista perdera a chave de um cofre, arrombaram-no com uma furadeira, onde só encontraram maços de dinheiro. Saíram carregando uma caixa de papelão com treze microcassetes, dezenove fitas de vídeo, dois gravadores, dois aparelhos próprios para gravar conversas telefônicas, um punhado de documentos e o mais precioso de tudo: a agenda pessoal do lobista. Falta examinar parte do material apreendido, mas a agenda já foi esmiuçada. Homem meticuloso e organizado, APS, como é conhecido, anotava tudo ali com sua caligrafia miúda: encontros sigilosos, resumo de conversas, esboços de estratégias, planos de ataque, fraquezas dos inimigos e até intrigas de alcova. É a primeira vez que os segredos de um lobista tão poderoso em Brasília vêm a público. E são revelações de arrepiar.

No dia 5 de abril passado, seus apontamentos sugerem o pagamento de suborno. APS anota que o processo contra sua cliente, a White Martins, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), requeria uma defesa "tecnicamente muito bem elaborada, pois seria temerário não aplicar a multa", e acrescenta que a multa não pode ser cancelada para "não levantar dúvida sobre o Cade e a empresa". Mais adiante, chega a escrever que a tal multa deve ser de "mais ou menos 30 milhões de reais". Encerra os comentários afirmando que "o custo para a empresa perante o Cade será baixo, mais ou menos 100.000". Custo? Como se sabe, o Cade e seus conselheiros não cobram taxas por julgamento de processo. O processo da White Martins, de número 0800-022579/97-05, trocou de conselheiro e até hoje não foi julgado pelo Cade.

 
Ana Araujo
ujo
APS e sua agenda: achaque na Saúde foi contra Andreas Strakos, presidente no Brasil do laboratório Novartis

No dia 16 de fevereiro, as anotações sugerem sabotagem e superfaturamento em Furnas, uma das maiores do setor elétrico do país. Diz que a companhia encomendará, em caráter de urgência, dois transformadores à multinacional Asea Brown Boveri (ABB). Escreve que a operação foi feita às pressas, que os equipamentos explodiram, provavelmente em razão de "uma sabotagem". Em seguida, diz que uma empresa forneceria o mesmo transformador por 1,5 milhão de dólares, enquanto o da "ABB é quase o triplo". Furnas comprou, em regime de urgência e sem licitação, dois transformadores, ao custo total de 7 milhões de dólares, da suíça ABB. "Os transformadores antigos deram um defeito", informa a assessoria de Furnas.

No mesmo dia 16 de fevereiro, APS observa que existe um "esquema" em Furnas, estatal presidida pelo ex-ministro Luiz Carlos Santos. "Existe a suspeita muito forte de que o doutor Luiz Pardo leva os valores e os mesmos não chegam na sua totalidade às mãos de quem de direito. Existe um esquema Luiz Pardo." Luiz Pardo é diretor comercial da ABB, uma fornecedora de Furnas. Procurado por VEJA, Pardo mandou dizer que não comentaria o assunto. O curioso é que, entre os clientes de APS, inclui-se a própria ABB. Esse detalhe pode emprestar credibilidade à suspeita do lobista da existência de um "esquema", na medida em que seria descabido que anotasse na agenda calúnias sobre seu cliente.

 
Fernando Lemos/Strana
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Daniel Dantas, dono do banco Opportunity: ajuda de lobista para identificar seus inimigos

"Trastevere, 21 horas" –Os segredos de APS caíram nas mãos da polícia em razão de um caso de extorsão. No início de setembro, APS confidenciou a uma amiga jornalista que tinha em seu poder uma fita gravada na qual assessores do ministro da Saúde, José Serra, extorquiam dinheiro do executivo de uma indústria farmacêutica. Em troca da propina, destinada a financiar a campanha presidencial de Serra, a empresa seria autorizada a vender um de seus medicamentos no país. A jornalista contou a história a um assessor de Serra, que a relatou ao ministro, que chamou a polícia, que invadiu o bunker do lobista. A tal fita, se existe, não foi encontrada. Acuado, o lobista se apressou em dizer que foi mal interpretado. Disse que não falou em fita, não a tem em seu poder, não sabe se existe extorsão no ministério nem teve intenção de chantagear ninguém. "Queria apenas alertar sobre boatos de uma suposta tentativa de achaque", diz ele. Na sexta-feira, porém, em entrevista a VEJA, o lobista resolveu contar tudo o que sabe.

Diz que, no dia 14 de agosto passado, o checo Andreas Strakos, presidente no Brasil da Novartis, o maior laboratório farmacêutico do mundo, esteve em Brasília. APS encontrou Strakos no hotel Bonaparte, de onde o levou até um restaurante de comida italiana, o Trastevere. Strakos jantou com dois assessores de Serra, que condicionaram a comercialização do Glivec, medicamento da Novartis usado no combate à leucemia, a uma contribuição financeira para a campanha do ministro. No dia seguinte ao jantar, do qual APS diz que não participou, Strakos esteve no escritório do lobista. Contou que fora achacado pelos assessores. Qual o valor do achaque? APS não diz, mas seus amigos mais próximos contam que ouviram falar em 500.000 dólares. Um dos assessores identificados é Renilson Rehem, secretário de Assistência à Saúde. Ele se mostra injuriado com a acusação e diz que jamais esteve no Trastevere. Andreas Strakos também descartou qualquer possibilidade de ter participado do jantar no restaurante italiano.

 
Jorge Araujo/Folha Imagem

O deputado Faria de Sá, que deu um crachá para o lobista: "É meu amigo"

Confrontado por VEJA com a informação de que esteve em Brasília no dia 14 de agosto – chegou a bordo do vôo 5186, da Rio-Sul, procedente de São Paulo, e desembarcou às 20h27 –, Strakos voltou atrás e admitiu que esteve na capital naquele dia e também reconheceu que jantou no Trastevere. Com quem? Com um amigo que ele se recusa a identificar. Na semana passada, depois que o caso veio a público, APS conta que recebeu vários telefonemas de Strakos, nos quais o executivo lhe pedia que negasse a história para a imprensa e combinaram romper o contrato de ambos. O rompimento aconteceu na terça-feira, mas ambos concordaram em colocar uma data retroativa, de 2 de outubro, para não dar na vista. APS então cedeu ao pedido de Strakos durante toda a semana, negando a história, mas na sexta-feira decidiu contar. Um dado reforça sua versão de que o jantar pode mesmo ter acontecido. Na agenda do lobista apreendida pela polícia está registrado o seguinte com referência ao dia 14 de agosto: "Andreas – 19h30. Jantar com dr. Renilson. Trastevere. 21 horas".

Lista de inimigos – Com sugestões de caixinhas, esquemas, chantagem, superfaturamento e suborno, os segredos de APS mostram que sua atuação vai além da atividade normal de um lobista, de fazer contatos, abrir portas e gerar influência. Num papel timbrado da Câmara dos Deputados, por exemplo, ele descreve todo o organograma dos inimigos do banco Opportunity, que há três anos trava uma guerra fratricida com a TIW, operadora canadense, pelo controle de duas telefônicas, a Telemig Celular e a Tele Norte Celular. Na anotação, o lobista sugere que a TIW conta com a simpatia de um naco poderosíssimo do governo. Mas o maior amigo da TIW está fora do governo, segundo as anotações: é o empresário Nelson Tanure. Em seus rascunhos, o lobista informa que Tanure, dono do Jornal do Brasil, foi caixa de campanha do ex-senador Jader Barbalho e do senador Gilberto Mestrinho, de quem conseguiu arrancar facilidades junto à Zona Franca de Manaus. Tanure ainda aparece como financiador das campanhas do senador Bernardo Cabral, do deputado José Carlos da Fonseca Junior, ex-assessor do ministro Pedro Malan, e de Luiz Paulo Velloso Lucas.

"É absurdo. Faz mais de dez anos que não troco palavra com Tanure. Isso é mentira", reage Cabral. Se o organograma de APS estiver correto, o empresário Nelson Tanure já foi, ou tentou ser, uma porção de coisas diferentes. Diz que Tanure vitaminava seus negócios com a ajuda dos fundos de pensão. Que atuou no mercado de moedas podres usando informações privilegiadas do Banco Central, que recebia diretamente da presidência e da diretoria de fiscalização. Diz, ainda, que Tanure é sócio oculto de um banco carioca, o Fator, no qual usa como seu testa-de-ferro o economista João Maia, ex-assessor de Zélia Cardoso de Mello. "Não vou comentar nada", Tanure mandou dizer a VEJA. Com escritórios em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Miami, APS é um lobista de sucesso. Entre seus clientes, dos quais não cobra menos de 20.000 reais por mês, incluem-se gigantes como Johnson & Johnson, Carrefour e Pirelli. Em Brasília, circula com desenvoltura pelo Congresso. Tem até crachá de livre trânsito na Câmara. Foi presente do deputado Arnaldo Faria de Sá, do PPB paulista. "Ele é meu amigo", diz o deputado. De fato, não há dúvida de que APS tem muitos amigos – e informações escaldantes.

 

Com reportagem de Malu Gaspar

 
 
   
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