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O
mal invisível
AP Photo
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UM
INIMIGO MICROSCÓPICO
Bombeiros da Flórida
passam por desinfecção depois
de recolher material num ambiente suspeito de contaminação |
O
esporo é a célula de reprodução do anthrax.
Na forma mais letal da doença, os esporos alojam-se no pulmão
da vítima. Nas mucosas do órgão, eles encontram as
condições ideais de umidade, calor e nutrientes para germinar,
como uma semente. A bactéria sintetiza uma proteína que
lhe permite desenvolver-se como um parasita. Multiplica-se rapidamente,
espalha toxinas e vai necrosando tecidos durante o processo. Uma vez iniciado
o crescimento, o prazo para a ingestão de antibióticos que
podem combater o mal é de apenas algumas horas. Não adianta
ter tomado o remédio anteriormente nem há certeza de que
quem foi vacinado resista a um ataque pulmonar da bactéria. Administrado
tarde demais, o antibiótico pode erradicar as bactérias,
mas as toxinas acumuladas no corpo já são suficientes para
levar à morte. A pessoa infectada apresenta, primeiro, sintomas
parecidos com os da gripe: febre, tosse, coriza e mal-estar. Dentro
do corpo, a doença avança como se houvesse ácido
dissolvendo as membranas dos pulmões. Antes de morrer, o doente
chega a expelir pedaços dos órgãos internos. Morrem
praticamente todos os que chegam a desenvolver essa modalidade de infecção.
Até o fim da semana passada, com a disseminação de
anthrax via correio nos Estados Unidos, um homem tinha morrido, sete pessoas
haviam desenvolvido formas menos violentas da doença e quase cinco
dezenas tomavam medicamentos porque se diagnosticou que foram infectadas
por esporos que não chegaram a germinar. O terror biológico
chegou. Passou pelas redações de jornais, alcançou
o Congresso dos Estados Unidos, foi diagnosticado na África e havia
sólida suspeita de que tenha mostrado sua face também na
Argentina. No Rio de Janeiro, uma carta enviada de Nova York ao escritório
local do jornal The New York Times estava sendo examinada na noite
da sexta-feira. Só se sabia então que havia uma bactéria
no envelope, mas não se de fato era do anthrax. Contra tudo o que
se imaginava, ninguém viu aviões agrícolas pulverizando
a peste nos céus das grandes cidades. Não há milhões
de pessoas infectando-se com doenças contagiosas. Não se
acham notícias sobre hospitais abarrotados, necrotérios
cheios ou cidadãos comuns andando nas ruas com máscaras
e roupas especiais. A principal característica desse ataque são
o pânico, a insegurança e a desordem que consegue provocar.
Um esporo de anthrax se mede em milionésimos de milímetro.
Pelo menos 8 000 deles são necessários para gerar uma infecção
pulmonar. Mas nem nessa quantidade podem ser vistos. São tão
pequenos que, para verificar se estão presentes num ambiente, é
preciso coletar amostras de ar para análise, como foi feito no
gabinete do governador de Nova York, George Pataki. O teste deu positivo.
Um
inimigo que não se vê não precisa estar por perto
para ser temido. Na semana passada, cartas contendo pó inócuo
representavam a maioria dos casos investigados pelas autoridades americanas.
Podem ter sido enviadas pelos mesmos terroristas que disseminavam a praga,
mas também se descobriram casos de gente que aproveitou para aterrorizar
um desafeto, fazer uma brincadeira com o chefe ou vingar-se de uma humilhação.
O efeito dos alarmes falsos era igual ao dos casos confirmados. Aviões
foram retidos, prédios evacuados, policiais mobilizados e pessoas
medicadas. O presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Dennis
Hastert, decidiu fechar a casa por alguns dias, preventivamente
e foi criticado por passar para a população uma mensagem
de medo A jornalista Judith Miller, do New York Times, uma das
autoras de um livro sobre bioterrorismo, descreveu a sensação
de abrir um envelope cheio de pó branco: "Agora eu seria a reportagem,
pensei". Esse era um alarme falso. Quando se estava verificando se uma
auxiliar do apresentador da rede de televisão CBS Dan Rather estava
contaminada, ele concluiu: "Nosso problema não é o anthrax.
É o medo". Esse era um caso verdadeiro.
Para
as autoridades americanas, esse novo ataque terrorista foi tão
desconcertante como o dos aviões, ocorrido há um mês.
Agentes do FBI foram morar nas sedes regionais dos correios. Em uma semana
de trabalho, não divulgaram nenhuma descoberta importante. Duas
das cartas contaminadas têm letras parecidas no endereçamento.
Ambas foram enviadas de Nova Jersey, em datas diferentes. Podem ter sido
mandados tanto por terroristas estrangeiros quanto americanos ninguém
sabia. Mas nem sobre a variedade de anthrax usada em cada caso se conseguia
consenso. Uma, surgida na Flórida, seria semelhante à que
o laboratório da Universidade de Iowa estudou nos anos 50. Outra,
enviada ao líder democrata no Senado, Tom Daschle, teria características
de leveza e consistência, indicando ser produto de laboratórios
caros, grandes e sofisticados. O Iraque, que chegou a comprar legalmente
bactérias de anthrax nos Estados Unidos, em meados dos anos 80,
voltou para a mira dos órgãos americanos de defesa. Em princípio,
é fácil fazer uma cultura de bactérias, já
que a doença se manifesta em rebanhos de animais de vários
países, o Brasil entre eles.
AP
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AP
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Reuters
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PELO
CORREIO
As cartas enviadas à emissora NBC News e ao líder democrata
Tom Daschle foram postadas no mesmo lugar e apresentam caligrafias
muito semelhantes. O FBI conseguiu ir muito pouco além disso
em uma semana de investigação |
Mais
de dez países, incluindo o Japão, a China e a Inglaterra,
já fizeram experiências com o anthrax. No caso dos ingleses,
a pulverização da ilha escocesa de Gruinard, em 1942, resultou
num desastre ambiental. A descontaminação só foi
concluída na década passada. A produção de
uma cultura de bactérias de anthrax quase não requer tecnologia.
Bem mais difícil é manipular o material para obter, com
segurança, a variedade mais refinada e a quantidade necessária
a ataques como os registrados nos EUA. Para isso, são utilizados
equipamentos caros e grandes, as centrífugas numa instalação
que não passaria despercebida se funcionasse num fundo de quintal.
Só governos e grandes corporações criminosas têm
bala para tanto. Pavoroso na mão de terroristas, o anthrax é
considerado de baixa eficácia como arma de guerra, por não
ser contagioso e porque na maior parte dos casos produz infecções
cutâneas cuja letalidade fica abaixo de 20%. Também pode
causar uma devastadora infecção intestinal que mata até
60% dos contaminados, mas isso apenas quando a bactéria é
ingerida, mais comumente por quem come a carne malpreparada de algum animal
infectado.
Para os agentes do terror, ele tem vantagens. Um trunfo é a durabilidade.
Já se encontraram esporos que germinaram normalmente depois de
oito décadas no solo, à espera de um hospedeiro. O método
de disseminação, por seu lado, pode inviabilizar os tratamentos,
aumentando o número de contaminações. A Organização
Mundial de Saúde (OMS) estima que um ataque com 5 toneladas de
esporos atirados de avião sobre uma cidade pode ter o efeito de
três bombas atômicas, sem destruir um único prédio.
Variedades de anthrax geneticamente selecionado também podem se
tornar mais mortais. Há cepas da bactéria que se revelam
bem mais agressivas. Alguns pesquisadores relacionam ao anthrax a quinta
e a sexta pragas do Egito, descritas na Bíblia. Teoricamente, quem
teve contato com algum pó no qual haja esporos de anthrax só
precisa tomar um banho imediato, com água e sabão, para
se livrar do risco de contrair a forma cutânea da doença.
A questão é que a maior parte dos contaminados só
vai saber que precisava desse banho quando já é tarde demais.
O
uso de uma arma biológica por terroristas leva o mundo a pensar
no que pode ocorrer se houver opção por alternativas ainda
mais danosas. Nesse arsenal, o vírus Ebola é considerado
um dos piores. Mata praticamente 100% das pessoas contaminadas e é
contagioso. Em sua forma natural, é preciso contato com secreções
de um doente para que haja o contágio. Há alguns anos, o
cientista russo Ken Alibek contou ter colaborado na fabricação
de toneladas de vírus de varíola geneticamente fundidos
com o Ebola. A nova arma ganhou a potência mortal do vírus
de origem africana combinada com o alto grau de contágio da doença
considerada extinta desde a década de 70. Um dos últimos
casos conhecidos de epidemia de varíola dá a medida de seu
potencial de contágio. Um único doente contaminou outras
38 pessoas na ex-Iugoslávia, em 1972. Levou um mês para as
autoridades descobrirem a doença, o suficiente para que ela atingisse
10.000 pessoas, das quais 35 morreram.
É
a primeira vez que o terrorismo recorre com sucesso às armas biológicas,
mas elas não são novidade na história da humanidade.
Nas guerras da Idade Média, era comum que exércitos lançassem
com catapultas, para dentro das muralhas atacadas, pedaços de corpos
de gente que morrera de peste ou varíola. No século XVI,
o governador do Rio de Janeiro Antônio de Salema espalhou no lugar
onde hoje está o bairro da Gávea roupas e objetos contaminados
com varíola, para matar os tamoios daquelas matas. O método
funcionou, assim como deu certo durante o processo pelo qual os ingleses
exterminaram tribos inteiras de índios americanos distribuindo
presentes infectados entre eles. São cenários assim, de
pilhas de corpos que precisam ser queimados para cortar um surto, que
se evocam na Europa quando se trata da ameaça bioterrorista. Três
epidemias de peste mataram 200 milhões de pessoas naquele continente.
Hoje, a variedade bubônica, transmitida do rato para o homem, está
praticamente descartada como arma. Nos laboratórios militares já
se cultiva um bacilo transmissível de pessoa para pessoa, pelo
ar. Basta o infectado tossir para pôr em circulação
milhões de outros bacilos. Segundo o infectologista Kleber Luz,
do Centro Aventis-Paster de Doenças Tropicais, 50 quilos dessa
praga atirados sobre a área metropolitana do Rio de Janeiro matariam
pelo menos 180.000 pessoas.
Ao optar pela arma biológica, os terroristas que agem contra os
Estados Unidos também miraram na direção de conseqüências
econômicas. Mais do que o transtorno de mudar redações
de lugar, paralisar prédios públicos ou reter aviões,
o ataque mantém o nível de insegurança numa economia
sacudida pelos atentados anteriores. O mercado de seguros entra em pane.
Empresas que usam os correios como canal de negócios se vêem
à beira do abismo. As companhias aéreas continuam cancelando
vôos e contabilizando prejuízos. A instabilidade alcança
o cenário político, já que as autoridades têm
poucos progressos a apresentar nas investigações e acabam
elas próprias vítimas dos ataques, como aconteceu com o
governador de Nova York. Na semana passada, qualquer das instituições
americanas poderia ser paralisada com a simples remessa de uma carta.
A multiplicação de equipes de especialistas procurando anthrax
em vários pontos dos Estados Unidos leva para as ruas um cenário
ocupado por homens de roupas coloridas que só se viu em fotos do
espaço e em filmes de ficção científica. É
caro, difícil e demorado examinar um edifício à procura
de esporos da doença. O governo americano tem vacinas contra o
anthrax. Foram aplicadas pela primeira vez nas tropas que lutaram na guerra
contra o Iraque. Os estoques dos EUA são suficientes apenas para
imunizar seus soldados, e a pressão popular pela vacinação,
na hipótese de continuar crescendo o número de contaminações,
pode se tornar outra vitória parcial dos terroristas. A imunização
em massa não é recomendada pela Organização
Mundial de Saúde, por várias razões. Ela não
funciona para a infecção pulmonar e sujeita quem recebe
cada dose a vários tipos de reação adversa, como
náuseas, vômitos, diarréias, febres e feridas na pele.
Há casos de soldados que preferiram pedir baixa do Exército
a completar o processo de imunização. Leva mais de um ano,
com várias doses, para que isso aconteça. Na prática,
contra o terror biológico ainda não se encontraram as armas
de prevenção.
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