Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
Especial

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Geral
Internacional
Especial
  Anthrax, a bactéria do terror
O impacto da guerra biológica nos correios
Os próximos passos da luta no Afeganistão
Os riscos da opção de Arafat
O que é proibido no fundamentalismo
O mundo se preocupa com os monumentos
A teologia da fanatização
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Hipertexto
VEJA on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

O mal invisível

 
AP Photo
UM INIMIGO MICROSCÓPICO
Bombeiros da
Flórida passam por desinfecção depois de recolher material num ambiente suspeito de contaminação

O esporo é a célula de reprodução do anthrax. Na forma mais letal da doença, os esporos alojam-se no pulmão da vítima. Nas mucosas do órgão, eles encontram as condições ideais de umidade, calor e nutrientes para germinar, como uma semente. A bactéria sintetiza uma proteína que lhe permite desenvolver-se como um parasita. Multiplica-se rapidamente, espalha toxinas e vai necrosando tecidos durante o processo. Uma vez iniciado o crescimento, o prazo para a ingestão de antibióticos que podem combater o mal é de apenas algumas horas. Não adianta ter tomado o remédio anteriormente nem há certeza de que quem foi vacinado resista a um ataque pulmonar da bactéria. Administrado tarde demais, o antibiótico pode erradicar as bactérias, mas as toxinas acumuladas no corpo já são suficientes para levar à morte. A pessoa infectada apresenta, primeiro, sintomas parecidos com os da gripe: febre, tosse, coriza e mal-estar. Dentro do corpo, a doença avança como se houvesse ácido dissolvendo as membranas dos pulmões. Antes de morrer, o doente chega a expelir pedaços dos órgãos internos. Morrem praticamente todos os que chegam a desenvolver essa modalidade de infecção.

Até o fim da semana passada, com a disseminação de anthrax via correio nos Estados Unidos, um homem tinha morrido, sete pessoas haviam desenvolvido formas menos violentas da doença e quase cinco dezenas tomavam medicamentos porque se diagnosticou que foram infectadas por esporos que não chegaram a germinar. O terror biológico chegou. Passou pelas redações de jornais, alcançou o Congresso dos Estados Unidos, foi diagnosticado na África e havia sólida suspeita de que tenha mostrado sua face também na Argentina. No Rio de Janeiro, uma carta enviada de Nova York ao escritório local do jornal The New York Times estava sendo examinada na noite da sexta-feira. Só se sabia então que havia uma bactéria no envelope, mas não se de fato era do anthrax. Contra tudo o que se imaginava, ninguém viu aviões agrícolas pulverizando a peste nos céus das grandes cidades. Não há milhões de pessoas infectando-se com doenças contagiosas. Não se acham notícias sobre hospitais abarrotados, necrotérios cheios ou cidadãos comuns andando nas ruas com máscaras e roupas especiais. A principal característica desse ataque são o pânico, a insegurança e a desordem que consegue provocar. Um esporo de anthrax se mede em milionésimos de milímetro. Pelo menos 8 000 deles são necessários para gerar uma infecção pulmonar. Mas nem nessa quantidade podem ser vistos. São tão pequenos que, para verificar se estão presentes num ambiente, é preciso coletar amostras de ar para análise, como foi feito no gabinete do governador de Nova York, George Pataki. O teste deu positivo.

Um inimigo que não se vê não precisa estar por perto para ser temido. Na semana passada, cartas contendo pó inócuo representavam a maioria dos casos investigados pelas autoridades americanas. Podem ter sido enviadas pelos mesmos terroristas que disseminavam a praga, mas também se descobriram casos de gente que aproveitou para aterrorizar um desafeto, fazer uma brincadeira com o chefe ou vingar-se de uma humilhação. O efeito dos alarmes falsos era igual ao dos casos confirmados. Aviões foram retidos, prédios evacuados, policiais mobilizados e pessoas medicadas. O presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Dennis Hastert, decidiu fechar a casa por alguns dias, preventivamente – e foi criticado por passar para a população uma mensagem de medo A jornalista Judith Miller, do New York Times, uma das autoras de um livro sobre bioterrorismo, descreveu a sensação de abrir um envelope cheio de pó branco: "Agora eu seria a reportagem, pensei". Esse era um alarme falso. Quando se estava verificando se uma auxiliar do apresentador da rede de televisão CBS Dan Rather estava contaminada, ele concluiu: "Nosso problema não é o anthrax. É o medo". Esse era um caso verdadeiro.

Para as autoridades americanas, esse novo ataque terrorista foi tão desconcertante como o dos aviões, ocorrido há um mês. Agentes do FBI foram morar nas sedes regionais dos correios. Em uma semana de trabalho, não divulgaram nenhuma descoberta importante. Duas das cartas contaminadas têm letras parecidas no endereçamento. Ambas foram enviadas de Nova Jersey, em datas diferentes. Podem ter sido mandados tanto por terroristas estrangeiros quanto americanos – ninguém sabia. Mas nem sobre a variedade de anthrax usada em cada caso se conseguia consenso. Uma, surgida na Flórida, seria semelhante à que o laboratório da Universidade de Iowa estudou nos anos 50. Outra, enviada ao líder democrata no Senado, Tom Daschle, teria características de leveza e consistência, indicando ser produto de laboratórios caros, grandes e sofisticados. O Iraque, que chegou a comprar legalmente bactérias de anthrax nos Estados Unidos, em meados dos anos 80, voltou para a mira dos órgãos americanos de defesa. Em princípio, é fácil fazer uma cultura de bactérias, já que a doença se manifesta em rebanhos de animais de vários países, o Brasil entre eles.

AP
AP
AP
Reuters
PELO CORREIO
As cartas enviadas à emissora NBC News e ao líder democrata Tom Daschle foram postadas no mesmo lugar e apresentam caligrafias muito semelhantes. O FBI conseguiu ir muito pouco além disso em uma semana de investigação

Mais de dez países, incluindo o Japão, a China e a Inglaterra, já fizeram experiências com o anthrax. No caso dos ingleses, a pulverização da ilha escocesa de Gruinard, em 1942, resultou num desastre ambiental. A descontaminação só foi concluída na década passada. A produção de uma cultura de bactérias de anthrax quase não requer tecnologia. Bem mais difícil é manipular o material para obter, com segurança, a variedade mais refinada e a quantidade necessária a ataques como os registrados nos EUA. Para isso, são utilizados equipamentos caros e grandes, as centrífugas – numa instalação que não passaria despercebida se funcionasse num fundo de quintal. Só governos e grandes corporações criminosas têm bala para tanto. Pavoroso na mão de terroristas, o anthrax é considerado de baixa eficácia como arma de guerra, por não ser contagioso e porque na maior parte dos casos produz infecções cutâneas cuja letalidade fica abaixo de 20%. Também pode causar uma devastadora infecção intestinal que mata até 60% dos contaminados, mas isso apenas quando a bactéria é ingerida, mais comumente por quem come a carne malpreparada de algum animal infectado.

Para os agentes do terror, ele tem vantagens. Um trunfo é a durabilidade. Já se encontraram esporos que germinaram normalmente depois de oito décadas no solo, à espera de um hospedeiro. O método de disseminação, por seu lado, pode inviabilizar os tratamentos, aumentando o número de contaminações. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que um ataque com 5 toneladas de esporos atirados de avião sobre uma cidade pode ter o efeito de três bombas atômicas, sem destruir um único prédio. Variedades de anthrax geneticamente selecionado também podem se tornar mais mortais. Há cepas da bactéria que se revelam bem mais agressivas. Alguns pesquisadores relacionam ao anthrax a quinta e a sexta pragas do Egito, descritas na Bíblia. Teoricamente, quem teve contato com algum pó no qual haja esporos de anthrax só precisa tomar um banho imediato, com água e sabão, para se livrar do risco de contrair a forma cutânea da doença. A questão é que a maior parte dos contaminados só vai saber que precisava desse banho quando já é tarde demais.

O uso de uma arma biológica por terroristas leva o mundo a pensar no que pode ocorrer se houver opção por alternativas ainda mais danosas. Nesse arsenal, o vírus Ebola é considerado um dos piores. Mata praticamente 100% das pessoas contaminadas e é contagioso. Em sua forma natural, é preciso contato com secreções de um doente para que haja o contágio. Há alguns anos, o cientista russo Ken Alibek contou ter colaborado na fabricação de toneladas de vírus de varíola geneticamente fundidos com o Ebola. A nova arma ganhou a potência mortal do vírus de origem africana combinada com o alto grau de contágio da doença considerada extinta desde a década de 70. Um dos últimos casos conhecidos de epidemia de varíola dá a medida de seu potencial de contágio. Um único doente contaminou outras 38 pessoas na ex-Iugoslávia, em 1972. Levou um mês para as autoridades descobrirem a doença, o suficiente para que ela atingisse 10.000 pessoas, das quais 35 morreram.

É a primeira vez que o terrorismo recorre com sucesso às armas biológicas, mas elas não são novidade na história da humanidade. Nas guerras da Idade Média, era comum que exércitos lançassem com catapultas, para dentro das muralhas atacadas, pedaços de corpos de gente que morrera de peste ou varíola. No século XVI, o governador do Rio de Janeiro Antônio de Salema espalhou no lugar onde hoje está o bairro da Gávea roupas e objetos contaminados com varíola, para matar os tamoios daquelas matas. O método funcionou, assim como deu certo durante o processo pelo qual os ingleses exterminaram tribos inteiras de índios americanos distribuindo presentes infectados entre eles. São cenários assim, de pilhas de corpos que precisam ser queimados para cortar um surto, que se evocam na Europa quando se trata da ameaça bioterrorista. Três epidemias de peste mataram 200 milhões de pessoas naquele continente. Hoje, a variedade bubônica, transmitida do rato para o homem, está praticamente descartada como arma. Nos laboratórios militares já se cultiva um bacilo transmissível de pessoa para pessoa, pelo ar. Basta o infectado tossir para pôr em circulação milhões de outros bacilos. Segundo o infectologista Kleber Luz, do Centro Aventis-Paster de Doenças Tropicais, 50 quilos dessa praga atirados sobre a área metropolitana do Rio de Janeiro matariam pelo menos 180.000 pessoas.

Ao optar pela arma biológica, os terroristas que agem contra os Estados Unidos também miraram na direção de conseqüências econômicas. Mais do que o transtorno de mudar redações de lugar, paralisar prédios públicos ou reter aviões, o ataque mantém o nível de insegurança numa economia sacudida pelos atentados anteriores. O mercado de seguros entra em pane. Empresas que usam os correios como canal de negócios se vêem à beira do abismo. As companhias aéreas continuam cancelando vôos e contabilizando prejuízos. A instabilidade alcança o cenário político, já que as autoridades têm poucos progressos a apresentar nas investigações e acabam elas próprias vítimas dos ataques, como aconteceu com o governador de Nova York. Na semana passada, qualquer das instituições americanas poderia ser paralisada com a simples remessa de uma carta.

A multiplicação de equipes de especialistas procurando anthrax em vários pontos dos Estados Unidos leva para as ruas um cenário ocupado por homens de roupas coloridas que só se viu em fotos do espaço e em filmes de ficção científica. É caro, difícil e demorado examinar um edifício à procura de esporos da doença. O governo americano tem vacinas contra o anthrax. Foram aplicadas pela primeira vez nas tropas que lutaram na guerra contra o Iraque. Os estoques dos EUA são suficientes apenas para imunizar seus soldados, e a pressão popular pela vacinação, na hipótese de continuar crescendo o número de contaminações, pode se tornar outra vitória parcial dos terroristas. A imunização em massa não é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, por várias razões. Ela não funciona para a infecção pulmonar e sujeita quem recebe cada dose a vários tipos de reação adversa, como náuseas, vômitos, diarréias, febres e feridas na pele. Há casos de soldados que preferiram pedir baixa do Exército a completar o processo de imunização. Leva mais de um ano, com várias doses, para que isso aconteça. Na prática, contra o terror biológico ainda não se encontraram as armas de prevenção.



 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS