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Edição 1 723 - 24 de outubro de 2001
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O guru de Lula.
Ai de nós

"Marco Aurélio Garcia é do PT light.
Essa história de
PT light sempre me
deixou desconfiado. Cigarro light mata
menos, mas
também mata"

O historiador Marco Aurélio Garcia é considerado o guru de Lula. Como tudo indica que Lula será eleito presidente da República, Marco Aurélio Garcia se tornará, ainda que indiretamente, o guru de todos os brasileiros. É por isso que acompanho com interesse tudo o que ele diz. Suas palavras têm um valor profético, revelando como será o país assim que o PT assumir o poder.

Em recente entrevista, Marco Aurélio Garcia traçou os planos do futuro governo petista. Antes de mais nada, descartou qualquer forma de continuidade ou continuísmo com a política econômica do atual governo. Para ele, o melhor é "fazer como se fez no passado", quando "tivemos a capacidade de nos voltar para dentro". O passado que Marco Aurélio Garcia evoca com tanta nostalgia é o do regime militar, com sua doutrina de substituição de produtos importados por equivalentes nacionais. Marco Aurélio Garcia deu um exemplo iluminante de como isso funcionaria: "Nós não temos tecnologia, mas importamos 8 bilhões de reais por ano em eletroeletrônicos. É melhor pegar esse dinheiro e investir". Parece um silogismo perfeito. Tudo muito simples. Tudo muito razoável. O problema é um só: esses 8 bilhões de reais não saem do bolso do governo, mas dos consumidores que compram telefones celulares ou aparelhos de DVD. Quando Marco Aurélio Garcia fala em "pegar esse dinheiro e investir", portanto, é lícito perguntar onde ele pretende pegá-lo, visto que não lhe pertence. Dos consumidores? E de que maneira? Por meio de impostos, de empréstimos compulsórios, de confiscos? E para investi-los onde, exatamente? Nas multinacionais que produzem eletroeletrônicos em território nacional?

Marco Aurélio Garcia é um dos principais teóricos do PT light. Essa história de PT light sempre me deixou meio desconfiado. Refrigerante light engorda menos, mas também engorda. Cerveja light embriaga menos, mas também embriaga. Cigarro light mata menos, mas também mata. A maior representante do PT light é a prefeita Marta Suplicy, que agraciou Marco Aurélio Garcia com o cargo de secretário da Cultura de São Paulo. Uma de suas propostas à frente da Secretaria da Cultura foi a obrigatoriedade de exibição de curtas-metragens nacionais antes dos longas-metragens. Mais um sinal de continuidade com o regime militar. Agora só falta o cinejornal de Jean Manzon. Marco Aurélio Garcia também tem incentivado o movimento hip hop. E dá grande espaço a empreendimentos como audiovisuais sobre o MST: de uma reportagem com um líder camponês de Buriticupu a um videoclipe do cantor Chico César, no acampamento Dom Hélder Câmara. Recentemente, a Secretaria da Cultura se notabilizou pela limpeza da estátua de Borba Gato e pelo projeto de montar bibliotecas em canteiros de obras, a fim de que os operários possam ler Tolstoi em seus andaimes periclitantes.

Para abastecer essas bibliotecas, a Secretaria da Cultura teve a idéia de oferecer ingressos para um espetáculo de dança da companhia Cisne Negro, no Teatro Municipal, em troca de livros. A construtora SBN doou 200 livros e levou 100 operários ao balé. Quem disse que cultura não serve para nada? Serve para fazer demagogia. Será duro agüentar o nosso guru por quatro anos.

 
 
   
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