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Gustavo Franco
O
bem e o mal
"É
interessante observar como a
linguagem marxista se
modificou depois
do fracasso do socialismo. Neoliberalismo
é usado como
sinônimos para capitalismo,
que continua sendo um mal"
Ilustração Ale Setti
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Num
julgamento na França em 1894, um anarquista de nome Émile
Henry foi acusado de explodir uma bomba num edifício de escritórios
matando dezenas de pessoas. Sua defesa, publicada após sua execução,
continha um elogio à Revolução Socialista, para cuja
realização ele dizia trazer como contribuição
"um ódio profundo e renovado a cada dia pelo espetáculo
desta sociedade em que tudo é baixo, equívoco e feio, em
que tudo serve de impedimento ao fluxo das paixões humanas, aos
impulsos generosos do coração". Mas tinha também,
e principalmente, a confissão: "Por isso tudo construí uma
bomba. Em certo momento me lembrei da acusação que havia
sido feita em um episódio anterior: e as vítimas inocentes?
Mas logo resolvi esse problema. Os edifícios onde a Companhia Carmaux
mantinha seus escritórios eram habitados apenas por burgueses:
não haveria, portanto, vítimas inocentes".
Algo diferente do que diria Osama bin Laden, caso trazido a uma corte
de Justiça?
A lógica do terrorista não é diferente da que move
o torturador, a julgar pela descrição de um cliente habitual
da polícia política soviética, o escritor Alexander
Soljenitsin: "Para fazer o mal, o homem deve tê-lo anteriormente
reconhecido como um bem, ou como uma ação sensata, de acordo
com a lei. Tal é, felizmente, a natureza do homem, ele deve buscar
a 'justificação' de suas ações. As 'justificações'
de Macbeth eram débeis e os remorsos roíam-lhe a consciência.
Se a imaginação e a força interior dos celerados
de Shakespeare se limitavam a uma dezena de cadáveres, era porque
eles não tinham ideologia".
Estamos aqui em terreno pantanoso. Diante de dilemas éticos, e
de desenhos animados em que desconhece os heróis, meu filho de
5 anos sempre aponta e pergunta: "Eles são do bem ou do mal?".
Nessa idade não pode haver ambigüidades nem transigência.
Já os adolescentes podem perfeitamente indagar se Osama bin Laden
não é um homem com um ideal, no âmbito do qual os
"burgueses" são mesmo gente do mal.
Faz tempo que não se ouvem vocábulos como "burguês"
ou "burguesia" fora de sala de aula, especialmente em cursos de geografia
em nível secundário nos quais doses regulares de materialismo
dialético são ministradas a adolescentes indefesos. Mas
é interessante observar como a linguagem marxista se modificou
depois do fracasso do socialismo. "Neoliberalismo" é rotineiramente
usado como sinônimo para "capitalismo", que continua sendo um mal,
um sistema fundado na "relativização da ética em
prol da ditadura do mercado na condução dos processos sociais",
como alegou um escritor ligado ao PT.
De forma semelhante, "neoliberal" é um termo manuseado com assepsia
por seus usuários, invariavelmente detratores, como se estivessem
se dirigindo respeitosamente a moscas e mosquitos como dípteros
ou esquizóforos. Não há dúvida de que se trata
de insulto, embora não reconhecido, exatamente como tempos atrás
se usava o termo "burguês". Esse, todavia, podia ser inocente e
grotesco, como o prosador de Molière, que não sabia por
que a propriedade privada era um roubo, pois havia ganho seu dinheiro
honestamente. Já o "neoliberal", ao contrário, é
um propagador de doutrina, portanto um perigo muito maior, um burguês
dotado de consciência de classe, alguém que acredita mesmo
na livre iniciativa!
Não há dúvida de que o fim trágico da utopia
socialista deixou uma espécie de vazio espiritual e de que o avanço
da globalização aguçou o senso de identidade comunitária
e também o anseio pelo sagrado. Mas no Brasil essa trama tem outros
ingredientes. O "vazio ético" que estamos vivendo, isso sim uma
manifestação do mal, não é recente nem produto
da globalização, tampouco do "neoliberalismo". Não
é um problema com o moderno, mas com o pré-moderno, que
se desdobra no patrimonialismo à direita e no corporativismo à
esquerda. A corrupção, da mesma forma, não tem matiz
ideológico, mas está estatisticamente relacionada ao tamanho
do Estado e à falta de meritocracia, transparência e impessoalidade,
características muito próprias de relações
de mercado inerentes ao "neoliberalismo".
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (e-mail: gfranco@palavra.com
home
page: www.gfranco.com.br)
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