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Um
Instante de Inocência: empatia e show de montagem |
| Divulgação |
Parceiros da
cultura árabe na confecção dos contos que compõem a
maravilhosa seqüência de As Mil e Uma Noites, os
iranianos sempre foram bons contadores de histórias e,
vez por outra, exibem esse talento no cinema. Um
Instante de Inocência (Nun Va Goldun,
Irã/França, 1996), em cartaz em São Paulo e com pouco
mais de uma hora de duração, é uma pequena obra-prima
composta a partir de um episódio autobiográfico. Quando
tinha 17 anos, o diretor Mohsen Makhmalbaf
um dos dois cineastas iranianos de projeção
internacional, ao lado de Abbas Kiarostami
era um militante muçulmano que combatia de arma na mão
a ditadura do xá Reza Pahlevi. Um dia, necessitando de
um revólver, esfaqueou um guarda do xá para roubar sua
arma. O episódio custou-lhe a cadeia e a namorada.
Ferido, o guarda também sofreu. Naquele dia ele iria
pedir uma moça em casamento, mas, na emergência, acabou
internado no hospital
ela nunca mais apareceu. Quem não passou por alguma
situação que, imagina-se, alterou radicalmente a
própria vida? É dessa empatia inicial que o filme
extrai o seu apelo.
Um Instante de
Inocência começa quando um cineasta
Makhmalbaf, interpretando a si mesmo
resolve fazer um filme reconstituindo o episódio. Para
ajudar a dirigi-lo, convida o guarda que esfaqueou e
escolhe dois atores iniciantes para fazer o papel de
ambos quando eram adolescentes. No início, Um
Instante de Inocência parece o making of de
uma filmagem. O espectador começa a achar que embarcou
numa furada. Engano. Por baixo da história da filmagem,
revela-se, aos poucos, um enredo cheio de pequenas
traições. No meio do filme, uma revelação
surpreendente dá uma reviravolta na trama e prende a
atenção até o final.
Voltando no
tempo
Makhmalbaf, 37 anos, é sucesso de crítica há muito
tempo. Já mereceu uma retrospectiva de seus melhores
filmes
dois deles, Gabbeh e Salve
o Cinema, foram exibidos no Brasil
no Museu de Arte Moderna de Nova York. Um Instante de
Inocência é o seu primeiro sucesso de público no
Ocidente. No filme, o diretor dá um show na montagem,
empregando várias vezes o recurso de voltar no tempo sem
avisar
o mesmo truque a que Quentin
Tarantino recorreu uma vez em Pulp Fiction.
Também gosta de deixar o espectador em dúvida sobre o
que é real e o que é inventado. Tudo isso sem
comprometer a clareza da trama. Mas o melhor é que quem
vai assistir a Um Instante de Inocência não sai
do cinema pensando nas prestidigitações de Makhmalbaf.
Se fosse assim, ele seria um mau cineasta, pois chamaria
a atenção para si próprio, não para o filme. Antes de
qualquer outra coisa, Um Instante de Inocência
diverte, envolve e emociona. É tudo o que uma pessoa
pode esperar quando vai ao cinema.
João Gabriel de Lima
Copyright © 1997, Abril
S.A. |