Cinema
Horário eleitoral
Uma comédia
com Kevin Costner põe em
questão um dos pilares da democracia: o voto

Marcelo Marthe
Divulgação
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| PAI E FILHA
Bud (Costner) e Molly (Madeline Carroll):
impasse como o de Bush versus Gore, em 2000 |
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Numa cena de Promessas de um Cara de Pau (Swing
Vote, Estados Unidos, 2008), o protagonista Bud Johnson
(Kevin Costner) faz muxoxo quando sua filha Molly (Madeline
Carroll) lhe ensina que o voto é um "dever cívico".
Bud é um vagabundo que só tem olhos para as
latas de cerveja. Se não está nem aí
para o trabalho ou para a educação da filha,
que dizer da eleição para presidente dos Estados
Unidos? Ele não sabe nem o nome dos candidatos. Imagine
se levaria em conta o pedido da garota para que vote? Enquanto
o pai está desmaiado de porre, é a própria
menina quem entra numa seção eleitoral, surrupia
uma cédula e exerce a escolha em nome dele. Mas, por
um capricho do destino uma queda de energia na hora
da votação , o voto de Molly não
é computado. Surge uma situação insólita:
a disputa entre os fictícios candidatos republicano
e democrata termina empatada. Caberá então àquele
minúsculo condado do Novo México decidir quem
será o próximo presidente americano. Mais ainda,
a solução está nas mãos do único
eleitor que, supostamente, ficou frustrado em seu direito
de votar: Bud, o traste.
A inspiração
óbvia dessa comédia (com estréia nesta
sexta-feira) é a eleição americana de
2000. Naquele ano, o embate entre o republicano George W.
Bush e o democrata Al Gore chegou a um impasse: umas poucas
centenas de eleitores da Flórida dariam a Bush seu
primeiro mandato à frente da maior potência do
planeta. O voto é assunto sério em qualquer
nação democrática e mais nos Estados
Unidos depois desse trauma. Num país onde o sufrágio
não é obrigatório, a apatia de uma parcela
considerável do eleitorado é debatida à
exaustão. O fato de uma decisão tão crucial
ficar nas mãos de um vagabundo não é
a única ironia do filme. Questiona-se também
o poder que se deposita nas mãos dos marqueteiros.
Depois que Bud vira a figura central da eleição,
o presidente republicano que tenta a reeleição
(Kelsey Grammer) e seu oponente democrata (Dennis Hopper)
o assediam. Guiando-se por seus respectivos gurus (Stanley
Tucci e Nathan Lane), não hesitam em jogar pelo ralo
suas convicções para conquistar o indeciso
o republicano vira defensor do meio ambiente e o democrata
se declara contra o aborto.
Na primeira metade do filme, o timing
cômico funciona. Costner encaixa-se à perfeição
no papel do paspalhão Bud e a garota Madeline é
um achado de tão segura. Mas o argumento engenhoso proposto
pelo diretor e roteirista Joshua Michael Stern o coloca numa
arapuca: depois de criticar o sistema, é preciso que
ele próprio tome uma posição. Aí
o filme envereda por um rumo piegas. Bud percebe que é
um pai relapso e um cidadão irresponsável. Os
candidatos a presidente também passam a questionar a
busca pela vitória a todo custo. Refletir sobre o voto
é relevante mas não precisava virar uma
aula de moral e cívica.