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Edição 2079

24 de setembro de 2008
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Cinema
Horário eleitoral

Uma comédia com Kevin Costner põe em
questão um dos pilares da democracia: o voto


Marcelo Marthe

Divulgação
PAI E FILHA Bud (Costner) e Molly (Madeline Carroll): impasse como o de Bush versus Gore, em 2000
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Numa cena de Promessas de um Cara de Pau (Swing Vote, Estados Unidos, 2008), o protagonista Bud Johnson (Kevin Costner) faz muxoxo quando sua filha Molly (Madeline Carroll) lhe ensina que o voto é um "dever cívico". Bud é um vagabundo que só tem olhos para as latas de cerveja. Se não está nem aí para o trabalho ou para a educação da filha, que dizer da eleição para presidente dos Estados Unidos? Ele não sabe nem o nome dos candidatos. Imagine se levaria em conta o pedido da garota para que vote? Enquanto o pai está desmaiado de porre, é a própria menina quem entra numa seção eleitoral, surrupia uma cédula e exerce a escolha em nome dele. Mas, por um capricho do destino – uma queda de energia na hora da votação –, o voto de Molly não é computado. Surge uma situação insólita: a disputa entre os fictícios candidatos republicano e democrata termina empatada. Caberá então àquele minúsculo condado do Novo México decidir quem será o próximo presidente americano. Mais ainda, a solução está nas mãos do único eleitor que, supostamente, ficou frustrado em seu direito de votar: Bud, o traste.

A inspiração óbvia dessa comédia (com estréia nesta sexta-feira) é a eleição americana de 2000. Naquele ano, o embate entre o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore chegou a um impasse: umas poucas centenas de eleitores da Flórida dariam a Bush seu primeiro mandato à frente da maior potência do planeta. O voto é assunto sério em qualquer nação democrática – e mais nos Estados Unidos depois desse trauma. Num país onde o sufrágio não é obrigatório, a apatia de uma parcela considerável do eleitorado é debatida à exaustão. O fato de uma decisão tão crucial ficar nas mãos de um vagabundo não é a única ironia do filme. Questiona-se também o poder que se deposita nas mãos dos marqueteiros. Depois que Bud vira a figura central da eleição, o presidente republicano que tenta a reeleição (Kelsey Grammer) e seu oponente democrata (Dennis Hopper) o assediam. Guiando-se por seus respectivos gurus (Stanley Tucci e Nathan Lane), não hesitam em jogar pelo ralo suas convicções para conquistar o indeciso – o republicano vira defensor do meio ambiente e o democrata se declara contra o aborto.

Na primeira metade do filme, o timing cômico funciona. Costner encaixa-se à perfeição no papel do paspalhão Bud e a garota Madeline é um achado de tão segura. Mas o argumento engenhoso proposto pelo diretor e roteirista Joshua Michael Stern o coloca numa arapuca: depois de criticar o sistema, é preciso que ele próprio tome uma posição. Aí o filme envereda por um rumo piegas. Bud percebe que é um pai relapso e um cidadão irresponsável. Os candidatos a presidente também passam a questionar a busca pela vitória a todo custo. Refletir sobre o voto é relevante – mas não precisava virar uma aula de moral e cívica.

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