Cinema
SESSÃO ESPÍRITA
Bezerra de
Menezes, filme
sobre o pioneiro do
kardecismo no Brasil, surpreende nas bilheterias.
A produção é tosca, mas põe em
foco um personagem
histórico curioso

Marcelo Marthe
Fotos
Divulgação
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FENÔMENO SOBRENATURAL
Bezerra de Menezes
(à dir) e Vereza, que o interpreta no filme:
a presença do "espírito de luz"
foi sentida no set de filmagem |
Médico e
político de projeção nos tempos do Império,
o cearense Adolfo Bezerra de Menezes morreu em 1900, aos 68
anos. Mas consta que continua a dar notícias com freqüência.
Pioneiro na divulgação da doutrina kardecista
no país, ele virou, depois da morte, um dos "espíritos
de luz" mais recorrentes em sessões mediúnicas.
Meses atrás, o fantasma teria baixado no set de filmagem
de sua recém-lançada cinebiografia, Bezerra
de Menezes O Diário de um Espírito.
"Senti uma energia muito positiva", declarou
o ator que faz seu papel, o veterano Carlos Vereza, a uma
revista dirigida aos adeptos do espiritismo acrescentando
que alguém teria visto o vulto do personagem a seu
lado numa cena. Com ajuda sobrenatural ou não, o fato
é que a fita se tornou um fenômeno de público
nos cinemas. Até a última quarta-feira, quando
ainda não tinha completado três semanas em cartaz,
Bezerra de Menezes contabilizava mais de 200 000 espectadores.
Dirigido pelos desconhecidos Glauber Filho e Joe Pimentel,
sob encomenda de uma entidade espírita cearense, o
filme é uma produção histórica
mambembe. Embora tenha só 75 minutos, parece durar
a eternidade. Ainda assim, deixou para trás lançamentos
nacionais como Os Desafinados, que traz famosos como
Rodrigo Santoro no elenco e teve 120 000 espectadores desde
a estréia, na mesma data. Nessa toada, opina o cineasta
Paulo Sérgio Almeida, do site Filme B, que monitora
as salas de exibição do país, não
será surpresa se ultrapassar a marca dos 500 000 espectadores
e ficar entre os três filmes brasileiros de maior bilheteria
neste ano.
Bezerra de Menezes
passou de um circuito de 49 salas de exibição
para sessenta na semana passada. Ou seja: a procura aumentou
graças à propaganda boca a boca. Ao contrário
da maioria dos longas-metragens, tem atraído mais público
aos cinemas às segundas e quartas, o que revela seu
poder de atração sobre as classes C e D
nesses dias da semana, os ingressos custam mais barato. Que
o espiritismo é um chamariz potente, ninguém
questiona. Entre seguidores propriamente ditos e simpatizantes,
está-se falando de um universo de 20 milhões
de brasileiros. O sucesso da literatura espírita demonstra
a força desse nicho uma autora como Zibia Gasparetto
tem presença assídua na lista de mais vendidos
de VEJA. Agora, eis que o autoproclamado "cinema transcendental"
encontra seu lugar ao sol.
Nem toda a comunidade
espírita ficou satisfeita com o filme. "Para quem
conhece em profundidade esse espírito iluminado que
foi o doutor Bezerra de Menezes, a reconstituição
de sua vida deixou a desejar", diz Marta Antunes Moura,
diretora da Federação Espírita Brasileira.
Compreende-se. Com orçamento de quase 3 milhões
de reais (um quarto do qual obtido por meio de leis de incentivo),
a produção tem imagens embaçadas, roteiro
tosco e interpretações que são um assombro.
Os atores são em sua maioria desconhecidos. Mas há
gente da TV, a exemplo do comediante Lúcio Mauro e
do galãzinho Caio Blat, que faz uma ponta constrangedora
como um militar com bigodão postiço. A participação
de Carlos Vereza não se resume ao papel de Menezes
na velhice ele também narra a história,
num tom monótono. A crença no espiritismo fez
com que o ator não titubeasse em aceitar o papel. A
conversão de Vereza se deu há dezoito anos,
depois que ele sofreu um acidente na gravação
de uma série da Globo. "O barulho de um disparo
me fez perder parte da audição. Como não
conseguia trabalhar, caí em depressão",
conta. E completa: "Só me curei depois de passar
por operações espirituais".
Bezerra de Menezes é um personagem
histórico interessante. Oriundo de uma família
nordestina abastada, ele conquistou renome como médico
no Rio de Janeiro de dom Pedro II. Abolicionista, foi um deputado
influente em seu tempo. Arriscou a reputação,
contudo, ao tornar pública a adesão ao espiritismo
cuja prática, àquela altura, era considerada
crime. "Com seus artigos em defesa da causa na imprensa
e sua opção pela caridade, ele lançou as
bases para o crescimento da religião no país",
diz o antropólogo Emerson Giumbelli. Os admiradores chamam
Bezerra de "Kardec brasileiro" referência
ao francês que fundou a crença. Para os espíritas,
ele foi a reencarnação de um espírito evoluído
dos tempos bíblicos. Há quem jure que, numa sessão
mediúnica nos anos 60, o fantasma do escritor russo Leon
Tolstoi tenha revelado que em outra vida Bezerra foi Zaqueu,
cobrador de impostos que se tornou seguidor de Jesus, conforme
o Evangelho de São Lucas. Para outros, ele teria sido
o próprio Lucas.