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Edição 2079

24 de setembro de 2008
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À procura de histórias

O argentino Costantini Júnior diz que o cinema latino-americano pode conquistar o mundo mas precisa esquecer o umbigo


Silvia Rogar


Fotos Aldo Bressi
MUDANÇA DE RAMO
Costantini Júnior: antes do cinema, finanças e artes plásticas


A sombra de um pai multimilionário e bem-sucedido é, freqüentemente, um peso para seus herdeiros. Quando esse pai, além disso, é bonito, inteligente, culto, e batiza o filho com seu próprio nome, o peso pode se tornar insuportável. O argentino Eduardo Costantini Júnior, filho do fundador do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), ainda ganhou um apelido no diminutivo – Eduardito –, difícil de carregar na vida adulta. Mas Costantini Júnior, 32 anos, olhos azuis e cabelos cuidadosamente desarrumados, é um típico representante da geração de herdeiros que aproveita sobrenome e capital para trilhar o próprio caminho. Começou trabalhando no mercado financeiro, como seu pai, e, em 2002, tornou-se diretor executivo do Malba. Ali, organizou mostras de filmes que rapidamente se tornaram programa cult em Buenos Aires e atraíram para a capital da Argentina cineastas de toda a América Latina. Foi então que decidiu investir em cinema.

Em 2004, deu o passo que faltava. Durante o Festival de Cannes, apresentou-se a Harvey Weinstein, o poderoso ex-proprietário da Miramax, conhecido por consagrar o "filme de arte para as massas". Weinstein escolheu Costantini Júnior como seu parceiro na América Latina. Começaram bem. Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e foi vendido a 25 países. Em outubro, estreará nos Estados Unidos. Outro eleito foi Burning Plain, o primeiro longa dirigido pelo mexicano Guillermo Arriaga, que foi apresentado no Festival de Veneza, no fim de agosto. Na semana passada, VEJA conversou com o empresário argentino.

O que uma produção latino-americana deve ter para ganhar público no resto do mundo?
Eu acredito em boas histórias, que podem vir de qualquer país. Pode ser romance, aventura, suspense, comédia. Fundamental é a qualidade. Tropa de Elite, por exemplo, tratava de uma questão local, mas estava claro que despertaria interesse geral por uma combinação de fatores. O narcotráfico é, hoje, um tema universal. E José Padilha já havia mostrado talento em seu filme anterior, o documentário Ônibus 174, que teve boa repercussão no exterior.

SUCESSO EM VENEZA
Com Arriaga e Charlize Theron: Burning Plain abriu o festival

Essa combinação é fácil de encontrar?
Hoje, de cada dez scripts que recebemos, apenas um tem um roteiro bem escrito e um formato inovador, que são as características de um produto com potencial internacional. É claro que o cinema tem um fator imponderável, que é a reação do público. Ela pode ser inesperada, e é difícil uma aposta 100% segura. Por isso é tão importante ter um parceiro como Harvey Weinstein. Ele possui um olhar único para identificar o potencial de uma produção. Sabe o que vai interessar ao público.

Por que ainda existem poucas co-produções latino-americanas?
Nos países da América Latina ainda predomina a idéia de que o importante é produzir filmes nacionais. Isso impediu a construção de políticas que viabilizassem essas co-produções. E prejudicou o cinema, uma atividade em que é fundamental a mistura de culturas. Esta é uma das principais características do mundo de hoje, e é preciso acompanhar. O bom é que começam a surgir aqui filmes globalizados, como Burning Plain, que tem roteiro mexicano, atores mexicanos e americanos e produtores americanos e argentinos. A tendência é esta: ter equipes formadas por profissionais de várias nacionalidades, filmes rodados e editados em vários países, falados em português e espanhol ou mesmo em inglês.

Qual é a melhor fórmula de financiamento da atividade cinematográfica?
O ideal é ter uma combinação de dinheiro captado por meio das leis de incentivo com recursos próprios de investidores. É preciso que as empresas apostem no cinema como produto cultural, com potencial de lucro. Se elas só investirem utilizando incentivos dos governos, os orçamentos – e, conseqüentemente, as produções – ficarão muito limitados. Estamos investindo dinheiro nosso: de 2 milhões a 3 milhões de dólares por filme.

Você também está investindo em distribuição via internet. Que futuro enxerga aí?
A internet será, em pouco tempo, uma grande plataforma de distribuição de filmes. Pelos altos custos com cópias e marketing de lançamento, só cerca de 350 fitas entram em circuito na América Latina por ano. Existe um enorme espaço a ser ocupado. Eu me associei a uma empresa no Vale do Silício que está criando uma cinemateca on-line. A pessoa poderá ver filmes disponibilizados por produtoras e ler artigos relacionados a cada um deles. Pouco a pouco, o DVD vai desaparecer. Boa parte das fitas terá download gratuito. A receita virá da venda de espaço publicitário.

O que ficará disponível nesse site?
Filmes independentes, clássicos e trabalhos pouco conhecidos de diretores hoje consagrados. Antes do fim do ano estaremos operando. Acredito que a rede seja uma ótima ferramenta de distribuição. É a saída para democratizar o acesso e conquistar grande parcela do público que está fora desse mercado.



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