Perfil
À
procura de histórias
O argentino
Costantini Júnior diz que o cinema latino-americano pode conquistar o mundo
mas precisa esquecer o umbigo

Silvia
Rogar
Fotos
Aldo Bressi
 |
MUDANÇA
DE RAMO Costantini Júnior: antes do cinema,
finanças e artes plásticas |
A
sombra de um pai multimilionário e bem-sucedido é, freqüentemente,
um peso para seus herdeiros. Quando esse pai, além disso, é bonito,
inteligente, culto, e batiza o filho com seu próprio nome, o peso pode
se tornar insuportável. O argentino Eduardo Costantini Júnior, filho
do fundador do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), ainda ganhou
um apelido no diminutivo Eduardito , difícil de carregar na
vida adulta. Mas Costantini Júnior, 32 anos, olhos azuis e cabelos cuidadosamente
desarrumados, é um típico representante da geração
de herdeiros que aproveita sobrenome e capital para trilhar o próprio caminho.
Começou trabalhando no mercado financeiro, como seu pai, e, em 2002, tornou-se
diretor executivo do Malba. Ali, organizou mostras de filmes que rapidamente se
tornaram programa cult em Buenos Aires e atraíram para a capital
da Argentina cineastas de toda a América Latina. Foi então que decidiu
investir em cinema.
Em 2004, deu o passo que faltava. Durante o Festival de Cannes, apresentou-se
a Harvey Weinstein, o poderoso ex-proprietário da Miramax, conhecido por
consagrar o "filme de arte para as massas". Weinstein escolheu Costantini
Júnior como seu parceiro na América Latina. Começaram bem.
Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e foi vendido
a 25 países. Em outubro, estreará nos Estados Unidos. Outro eleito
foi Burning Plain, o primeiro longa dirigido pelo mexicano Guillermo Arriaga,
que foi apresentado no Festival de Veneza, no fim de agosto. Na semana passada,
VEJA conversou com o empresário argentino.
O
que uma produção latino-americana deve ter para ganhar público
no resto do mundo?
Eu acredito em boas histórias, que podem vir
de qualquer país. Pode ser romance, aventura, suspense, comédia.
Fundamental é a qualidade. Tropa de Elite, por exemplo, tratava
de uma questão local, mas estava claro que despertaria interesse geral
por uma combinação de fatores. O narcotráfico é, hoje,
um tema universal. E José Padilha já havia mostrado talento em seu
filme anterior, o documentário Ônibus 174, que teve boa repercussão
no exterior.
 |
SUCESSO
EM VENEZA Com Arriaga e Charlize Theron:
Burning Plain abriu o festival |
Essa
combinação é fácil de encontrar?
Hoje, de cada
dez scripts que recebemos, apenas um tem um roteiro bem escrito e um formato inovador,
que são as características de um produto com potencial internacional.
É claro que o cinema tem um fator imponderável, que é a reação
do público. Ela pode ser inesperada, e é difícil uma aposta
100% segura. Por isso é tão importante ter um parceiro como Harvey
Weinstein. Ele possui um olhar único para identificar o potencial de uma
produção. Sabe o que vai interessar ao público.
Por
que ainda existem poucas co-produções latino-americanas?
Nos países da América Latina ainda predomina a idéia
de que o importante é produzir filmes nacionais. Isso impediu a construção
de políticas que viabilizassem essas co-produções. E prejudicou
o cinema, uma atividade em que é fundamental a mistura de culturas. Esta
é uma das principais características do mundo de hoje, e é
preciso acompanhar. O bom é que começam a surgir aqui filmes globalizados,
como Burning Plain, que tem roteiro mexicano, atores mexicanos e americanos
e produtores americanos e argentinos. A tendência é esta: ter equipes
formadas por profissionais de várias nacionalidades, filmes rodados e editados
em vários países, falados em português e espanhol ou mesmo
em inglês.
Qual é a melhor
fórmula de financiamento da atividade cinematográfica?
O
ideal é ter uma combinação de dinheiro captado por meio das
leis de incentivo com recursos próprios de investidores. É preciso
que as empresas apostem no cinema como produto cultural, com potencial de lucro.
Se elas só investirem utilizando incentivos dos governos, os orçamentos
e, conseqüentemente, as produções ficarão
muito limitados. Estamos investindo dinheiro nosso: de 2 milhões a 3 milhões
de dólares por filme.
Você
também está investindo em distribuição via internet.
Que futuro enxerga aí?
A internet será, em pouco tempo,
uma grande plataforma de distribuição de filmes. Pelos altos custos
com cópias e marketing de lançamento, só cerca de 350 fitas
entram em circuito na América Latina por ano. Existe um enorme espaço
a ser ocupado. Eu me associei a uma empresa no Vale do Silício que está
criando uma cinemateca on-line. A pessoa poderá ver filmes disponibilizados
por produtoras e ler artigos relacionados a cada um deles. Pouco a pouco, o DVD
vai desaparecer. Boa parte das fitas terá download gratuito. A receita
virá da venda de espaço publicitário.
O
que ficará disponível nesse site?
Filmes independentes, clássicos
e trabalhos pouco conhecidos de diretores hoje consagrados. Antes do fim do ano
estaremos operando. Acredito que a rede seja uma ótima ferramenta de distribuição.
É a saída para democratizar o acesso e conquistar grande parcela
do público que está fora desse mercado.