Marcio Lacerda, o
socialista milionário que uniu PT
e PSDB, desponta como favorito em Belo Horizonte
José Edward
Vander Bras/Divulgação
A TRÓICA DAS ALTEROSASO prefeito Fernando
Pimentel,
o candidato Marcio Lacerda e o governador Aécio
Neves: o atual acerto municipal encerra ambições
maiores
O administrador de empresas Marcio
Lacerda é dono de uma biografia tão multifacetada
quanto desconhecida. Nos anos 70, participou da luta armada
como integrante de um grupo terrorista de esquerda. Preso pela
ditadura, abandonou o ideário marxista para fazer fortuna
nas telecomunicações. Quando completou 54 anos,
trocou o trabalho pelos veleiros. Cansado do mar, estreou na
vida pública em 2002, fazendo e financiando a campanha
presidencial do hoje deputado Ciro Gomes (PSB-CE). No início
deste ano, foi lançado candidato dos socialistas à
prefeitura de Belo Horizonte. Há um mês, não
passava de um ilustre desconhecido dos belo-horizontinos. Hoje,
tem tudo para vencer a disputa já no primeiro turno.
Lacerda conseguiu essa façanha graças ao apoio
dos dois mais poderosos eleitores de Minas Gerais: o governador
Aécio Neves, do PSDB, e o prefeito Fernando Pimentel,
do PT. Caciques de partidos adversários na esfera nacional,
eles se uniram para transformar em realidade um mito: o de que
políticos bem avaliados são capazes de eleger
um poste.
Em pouco mais de
uma semana de campanha na TV, Lacerda, o poste, subiu incríveis
20 pontos. No último levantamento do Datafolha, liderava
a corrida com 41% das intenções de voto
mais do que o dobro do segundo colocado, o peemedebista Leonardo
Quintão. Se confirmado, esse resultado lhe garantirá
53% dos votos válidos, o suficiente para liquidar a
fatura no primeiro turno. "Nunca vi uma ascensão
tão meteórica e fulminante", diz o cientista
político Marcos Coimbra, estrategista de sua campanha.
O sucesso de Lacerda não se deve à eficiência
administrativa que ele mostrou ter como empresário
ou à ideologia de esquerda que ele ainda defende. Os
belo-horizontinos votarão nele porque Lacerda é
a garantia de que a dupla Aécio-Pimentel continuará
decidindo os destinos de sua cidade. Por isso, sua campanha
na TV calca-se nas obras que a prefeitura petista e o governo
tucano fizeram juntos. Além disso, sugere que essa
parceria, apoiada por 76% da população local,
desaparecerá se Lacerda perder.
O alcance do arranjo
entre Aécio e Pimentel transcende a eleição
de outubro. O acordo sinaliza que o governador tucano tende
a apoiar o prefeito petista à sua sucessão,
em 2010. Também é um dos grandes trunfos de
Aécio para se viabilizar como candidato a presidente
da República. Ele brande esse acerto como prova de
sua capacidade aglutinadora um sinal de que poderia
encerrar dezesseis anos de disputas entre o PSDB e o PT. Os
adversários de Aécio vêem a questão
por outro prisma. Dizem que ele só lançou mão
da solução Lacerda porque o PSDB não
tinha um candidato viável em Belo Horizonte. Afirmam,
ainda, que é mais fácil Aécio sustentar
a candidatura de Pimentel a governador do que o PT apoiá-lo
para presidente. Um sintoma disso é que a direção
petista se opôs à união com o PSDB mineiro
já neste ano. O impasse só foi solucionado depois
que Aécio e Pimentel convenceram o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva a endossá-la. "Em
Minas Gerais, já estamos em 2010", diz o sociólogo
Rudá Ricci, do Instituto Cultiva. Lacerda é
uma peça estratégica nesse arranjo, mas é
só uma peça. Tanto que nem sequer participou
das articulações iniciais de sua própria
campanha. "O governador e o prefeito só me falaram
da candidatura depois que meu nome estava na imprensa havia
quinze dias", conta. Mas, em Minas, isso não é
um empecilho. Afinal, como diz o ditado, lá quem tem
padrinho não morre pagão.