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Ponto
de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Estocolmo,
Cancún
e Brasília
"Quando
a onça tem uma reunião bilateral
com a cutia, o resultado é sempre previsível"
No fim da semana retrasada aconteceram dois fatos importantes no
âmbito internacional. O voto negativo no referendo realizado
pela Suécia sobre a adesão ao euro e o insucesso da
Organização Mundial do Comércio (OMC) na reunião
de Cancún configuram impasses que influenciam, em graus diversos,
a diplomacia brasileira.
As conseqüências do referendo na Suécia parecem
tão distantes quanto as lonjuras que separam Brasília
e Estocolmo. Não obstante, os rumos do euro condicionam a
inserção brasileira na economia mundial. Afora o aspecto
econômico, a decisão dos eleitores suecos se reveste
de um efeito simbólico que não pode ser ignorado.
Os cidadãos de um país democrático, próspero
e dotado de um sistema de previdência social de primeiro plano
ainda nutrem desconfianças com relação à
União Européia (UE). É verdade que a Suécia
se manteve neutra durante as duas guerras mundiais e sempre guardou
um certo afastamento das iniciativas comuns européias. Contudo,
o resultado do referendo dá um baque no processo de unificação
do continente e contribui para reforçar a oposição
dos ingleses ao euro. No ano que vem, quando a UE incorporar dez
novos membros, passando a contar com 25 países, haverá
uma fratura entre os doze países regidos pela moeda única,
de um lado, e os treze que conservam suas moedas nacionais, de outro.
Se quiserem ir em frente na construção européia,
os doze países do euro vão ter de deixar para trás
os outros treze. Ou seja, deverão tomar distância dos
três países que recusam o euro (Dinamarca, Inglaterra
e Suécia) e dos dez novos membros que têm de esperar
mais alguns anos para reunir as condições econômicas
necessárias para a adesão à moeda única.
Em qualquer hipótese, fica enfraquecido o projeto de uma
grande UE, de um bloco político e econômico unificado
capaz de contrabalançar a hegemonia americana.
Ilustração Ale Setti
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A reunião da OMC em Cancún leva a uma outra ordem
de considerações. De saída, é interessante
observar as diferentes avaliações sobre o andamento
da conferência. Houve muitas críticas nos Estados Unidos
e na Europa, mas o governo brasileiro e boa parte da imprensa nacional
apreciaram a atuação do Itamaraty. Até Pascal
Lamy, principal negociador da UE, reconheceu a "habilidade da diplomacia
brasileira" na liderança dos países agroexportadores
que se opuseram ao endosso pela OMC dos subsídios agrícolas
europeus e americanos. Porém, o próprio ministro Celso
Amorim deixou entrever os limites do sucesso brasileiro, ao insistir
sobre a necessidade de uma retomada de negociações
no quadro da OMC.
Ora, intervindo após o fiasco de Seattle (1999), o impasse
em Cancún abalou a credibilidade da OMC. Além do mais,
há uma série de condições adversas no
caminho dos futuros acordos. A aproximação das eleições
presidenciais americanas de 2004 conduzirá o governo Bush
a endurecer suas posições, evitando concessões
comerciais que contrariem os interesses dos agricultores dos Estados
Unidos. O tailandês Supachai Panitchpakdi, atual diretor-geral
da OMC, termina seu mandato em 2005. Pascal Lamy, da UE, e Robert
Zoellick, o representante dos EUA, que seguem o dossiê da
OMC há muito tempo, estarão chegando ao fim de seu
mandato e serão provavelmente substituídos por negociadores
mais ariscos. Durante essas transições e substituições
de equipes haverá pouca margem para a retomada de negociações
globais. Poderão ocorrer propostas de reuniões e acordos
bilaterais, em que o Brasil, mesmo escorado pelo Mercosul, terá
um cacife limitado perante a UE e os EUA.
Nessas circunstâncias, o Brasil em particular e os países
em desenvolvimento em geral têm todo o interesse em revigorar
a OMC para manter o quadro institucional de negociações
multilaterais. Senão, virá de novo a Lei da Selva,
cujas normas são imutáveis: quando a onça tem
uma reunião bilateral com a cutia, o resultado é sempre
previsível.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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