Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Estocolmo, Cancún
e Brasília

"Quando a onça tem uma reunião bilateral
com a cutia, o resultado é sempre previsível"

No fim da semana retrasada aconteceram dois fatos importantes no âmbito internacional. O voto negativo no referendo realizado pela Suécia sobre a adesão ao euro e o insucesso da Organização Mundial do Comércio (OMC) na reunião de Cancún configuram impasses que influenciam, em graus diversos, a diplomacia brasileira.

As conseqüências do referendo na Suécia parecem tão distantes quanto as lonjuras que separam Brasília e Estocolmo. Não obstante, os rumos do euro condicionam a inserção brasileira na economia mundial. Afora o aspecto econômico, a decisão dos eleitores suecos se reveste de um efeito simbólico que não pode ser ignorado. Os cidadãos de um país democrático, próspero e dotado de um sistema de previdência social de primeiro plano ainda nutrem desconfianças com relação à União Européia (UE). É verdade que a Suécia se manteve neutra durante as duas guerras mundiais e sempre guardou um certo afastamento das iniciativas comuns européias. Contudo, o resultado do referendo dá um baque no processo de unificação do continente e contribui para reforçar a oposição dos ingleses ao euro. No ano que vem, quando a UE incorporar dez novos membros, passando a contar com 25 países, haverá uma fratura entre os doze países regidos pela moeda única, de um lado, e os treze que conservam suas moedas nacionais, de outro. Se quiserem ir em frente na construção européia, os doze países do euro vão ter de deixar para trás os outros treze. Ou seja, deverão tomar distância dos três países que recusam o euro (Dinamarca, Inglaterra e Suécia) e dos dez novos membros que têm de esperar mais alguns anos para reunir as condições econômicas necessárias para a adesão à moeda única. Em qualquer hipótese, fica enfraquecido o projeto de uma grande UE, de um bloco político e econômico unificado capaz de contrabalançar a hegemonia americana.

Ilustração Ale Setti


A reunião da OMC em Cancún leva a uma outra ordem de considerações. De saída, é interessante observar as diferentes avaliações sobre o andamento da conferência. Houve muitas críticas nos Estados Unidos e na Europa, mas o governo brasileiro e boa parte da imprensa nacional apreciaram a atuação do Itamaraty. Até Pascal Lamy, principal negociador da UE, reconheceu a "habilidade da diplomacia brasileira" na liderança dos países agroexportadores que se opuseram ao endosso pela OMC dos subsídios agrícolas europeus e americanos. Porém, o próprio ministro Celso Amorim deixou entrever os limites do sucesso brasileiro, ao insistir sobre a necessidade de uma retomada de negociações no quadro da OMC.

Ora, intervindo após o fiasco de Seattle (1999), o impasse em Cancún abalou a credibilidade da OMC. Além do mais, há uma série de condições adversas no caminho dos futuros acordos. A aproximação das eleições presidenciais americanas de 2004 conduzirá o governo Bush a endurecer suas posições, evitando concessões comerciais que contrariem os interesses dos agricultores dos Estados Unidos. O tailandês Supachai Panitchpakdi, atual diretor-geral da OMC, termina seu mandato em 2005. Pascal Lamy, da UE, e Robert Zoellick, o representante dos EUA, que seguem o dossiê da OMC há muito tempo, estarão chegando ao fim de seu mandato e serão provavelmente substituídos por negociadores mais ariscos. Durante essas transições e substituições de equipes haverá pouca margem para a retomada de negociações globais. Poderão ocorrer propostas de reuniões e acordos bilaterais, em que o Brasil, mesmo escorado pelo Mercosul, terá um cacife limitado perante a UE e os EUA.

Nessas circunstâncias, o Brasil em particular e os países em desenvolvimento em geral têm todo o interesse em revigorar a OMC para manter o quadro institucional de negociações multilaterais. Senão, virá de novo a Lei da Selva, cujas normas são imutáveis: quando a onça tem uma reunião bilateral com a cutia, o resultado é sempre previsível.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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