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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
"Estou
convencido",
"extraordinário"
Um
ligeiro exercício
de
lulologia, através
das expressões
mais
freqüentes
nos
discursos do
presidente
Vai dar "extraordinário" ou "estou convencido"? Eis uma aposta
que se pode fazer a cada discurso do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. "Extraordinário" é seu adjetivo predileto.
"Estou convencido...", a expressão de que mais lança
mão para tonificar itens de seus improvisos. Às vezes
os dois aparecem no mesmo discurso, e então a aposta pode
ser em torno de qual aparecerá primeiro ou qual aparecerá
mais vezes. Tome-se o discurso da última segunda-feira, em
comemoração ao 50° aniversário da Hebraica,
clube da comunidade judaica de São Paulo. Houve empate
um "extraordinário" ("nesta festa extraordinária de
50 anos da Hebraica") contra um "estou convencido" ("Estou convencido
de que a sociedade brasileira, através dos diferentes segmentos,
precisa assumir a responsabilidade de recuperarmos o tempo perdido").
Nessa ocasião o presidente estava comedido, tanto no "extraordinário"
quanto no "estou convencido". No mesmo dia, ao falar no Congresso
Nacional dos Supermercados, no Rio, esmerou-se no "extraordinário":
pronunciou-o sete vezes, contra um "estou convencido". O adjetivo
apareceu pela primeira vez para qualificar "este encontro extraordinário
de supermercados" e na última para saudar a colaboração
do setor nos programas sociais do governo "uma parceria extraordinária
para ajudar a combater dois males crônicos deste país:
o analfabetismo e a miséria".
O "estou convencido" bateu o "extraordinário", em compensação,
no discurso do dia 8 último, no lançamento do Programa
Brasil Alfabetizado, Lula primeiro disse, numa conclamação
geral ao esforço de alfabetização: "Estou convencido
de que muito mais do que o decreto, muito mais do que uma lei, eu
acho que é preciso que a gente saia daqui convencido de que
nós podemos, juntos, mais que todas as leis". Mais adiante
lembrou que pela primeira vez o Brasil tinha um presidente e um
vice sem diploma universitário, e acrescentou: "Estou convencido
de que, para o político, o mais importante é ele saber
o que é importante para o seu povo". Foram dois "estou convencido",
ou até três, se se considerar que na primeira afirmação
há também um apelo para que "a gente saia daqui convencido".
"Extraordinário" só uma vez deu o ar de sua graça.
Para que serve ficar contando os "extraordinário" e os "estou
convencido"? Talvez para nada. Mas talvez ofereça um vislumbre
dos mecanismos de funcionamento do presidente. Tanto o "extraordinário"
quanto o "estou convencido", em princípio, remetem para o
alto, para o bom, para o positivo. "Extraordinário" seria
um elogio e "estou convencido" ressaltaria crenças resultantes
de longa experiência e/ou reflexão. Um exame mais detido
sugere no entanto que, para os destinatários dos discursos,
quanto menos "extraordinário" e "estou convencido", melhor.
O "extraordinário" serve freqüentemente para a mera
qualificação do evento do qual participa o presidente,
por sinal que nada extraordinário ("este encontro extraordinário
de supermercados"). E o "estou convencido", ou para enrolar a frase
e disfarçar-lhe a banalidade, ou para conferir temerário
teor peremptório a afirmações discutíveis.
"Estou convencido de que o Mercosul vai ter, num curto espaço
de tempo, a grande maioria dos países da América do
Sul participando", disse, na reunião do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social, no dia 4.
Outra aposta que se pode fazer é se o discurso presidencial
vai ter "sentar" ou "nove meses". Esses dois são mais raros,
mas talvez menos ocos. "Sentar", "sentar com", "sentar para" significa
negociar. Na campanha Lula já enfatizava seu desejo de "sentar"
com este, com aquele ou aquele outro. O "sentar" nem sempre deu
certo. O presidente foi "sentar" com os governadores e estes lhe
arrancaram nacos consideráveis, nas tratativas para a reforma
tributária. Mesmo assim, ainda figura como um dos pontos
centrais de seu repertório. Mais do que com empresários
ou sindicalistas, aliados ou oposicionistas, ele agora se dispõe
a sentar com o FMI, conforme proclamou no dia 12, ao inaugurar uma
fábrica da Pirelli em Feira de Santana (BA): "Podem ficar
certos de que não haverá nenhum preconceito de sentar
com a direção do FMI aqui no Brasil ou em qualquer
outro lugar do mundo".
O "nove meses" o leitor sabe o que é: a já famosa
parábola em que o presidente recorre ao período de
gestação para insistir em que é preciso paciência
para ver as coisas acontecerem. A última vez que recorreu
a ela foi na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social. Disse que muita gente "não tem tempo de esperar
o período de fertilidade da mulher", depois "não tem
tempo de esperar nove meses para nascer", depois "de esperar um
ano para aprender a falar papai", e por isso acaba nem tendo filho.
Sorte do presidente que, no programa da natureza, constam tais prazos.
Se os filhos nascessem de imediato, e já falando, seu governo
teria de fazer tudo de repente, e de uma só vez.
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