Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
"Estou convencido",
"extraordinário"

Um ligeiro exercício de lulologia, através
das
expressões mais freqüentes nos
discursos
do presidente

Vai dar "extraordinário" ou "estou convencido"? Eis uma aposta que se pode fazer a cada discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Extraordinário" é seu adjetivo predileto. "Estou convencido...", a expressão de que mais lança mão para tonificar itens de seus improvisos. Às vezes os dois aparecem no mesmo discurso, e então a aposta pode ser em torno de qual aparecerá primeiro ou qual aparecerá mais vezes. Tome-se o discurso da última segunda-feira, em comemoração ao 50° aniversário da Hebraica, clube da comunidade judaica de São Paulo. Houve empate – um "extraordinário" ("nesta festa extraordinária de 50 anos da Hebraica") contra um "estou convencido" ("Estou convencido de que a sociedade brasileira, através dos diferentes segmentos, precisa assumir a responsabilidade de recuperarmos o tempo perdido").

Nessa ocasião o presidente estava comedido, tanto no "extraordinário" quanto no "estou convencido". No mesmo dia, ao falar no Congresso Nacional dos Supermercados, no Rio, esmerou-se no "extraordinário": pronunciou-o sete vezes, contra um "estou convencido". O adjetivo apareceu pela primeira vez para qualificar "este encontro extraordinário de supermercados" e na última para saudar a colaboração do setor nos programas sociais do governo – "uma parceria extraordinária para ajudar a combater dois males crônicos deste país: o analfabetismo e a miséria".

O "estou convencido" bateu o "extraordinário", em compensação, no discurso do dia 8 último, no lançamento do Programa Brasil Alfabetizado, Lula primeiro disse, numa conclamação geral ao esforço de alfabetização: "Estou convencido de que muito mais do que o decreto, muito mais do que uma lei, eu acho que é preciso que a gente saia daqui convencido de que nós podemos, juntos, mais que todas as leis". Mais adiante lembrou que pela primeira vez o Brasil tinha um presidente e um vice sem diploma universitário, e acrescentou: "Estou convencido de que, para o político, o mais importante é ele saber o que é importante para o seu povo". Foram dois "estou convencido", ou até três, se se considerar que na primeira afirmação há também um apelo para que "a gente saia daqui convencido". "Extraordinário" só uma vez deu o ar de sua graça.

Para que serve ficar contando os "extraordinário" e os "estou convencido"? Talvez para nada. Mas talvez ofereça um vislumbre dos mecanismos de funcionamento do presidente. Tanto o "extraordinário" quanto o "estou convencido", em princípio, remetem para o alto, para o bom, para o positivo. "Extraordinário" seria um elogio e "estou convencido" ressaltaria crenças resultantes de longa experiência e/ou reflexão. Um exame mais detido sugere no entanto que, para os destinatários dos discursos, quanto menos "extraordinário" e "estou convencido", melhor. O "extraordinário" serve freqüentemente para a mera qualificação do evento do qual participa o presidente, por sinal que nada extraordinário ("este encontro extraordinário de supermercados"). E o "estou convencido", ou para enrolar a frase e disfarçar-lhe a banalidade, ou para conferir temerário teor peremptório a afirmações discutíveis. "Estou convencido de que o Mercosul vai ter, num curto espaço de tempo, a grande maioria dos países da América do Sul participando", disse, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no dia 4.

Outra aposta que se pode fazer é se o discurso presidencial vai ter "sentar" ou "nove meses". Esses dois são mais raros, mas talvez menos ocos. "Sentar", "sentar com", "sentar para" significa negociar. Na campanha Lula já enfatizava seu desejo de "sentar" com este, com aquele ou aquele outro. O "sentar" nem sempre deu certo. O presidente foi "sentar" com os governadores e estes lhe arrancaram nacos consideráveis, nas tratativas para a reforma tributária. Mesmo assim, ainda figura como um dos pontos centrais de seu repertório. Mais do que com empresários ou sindicalistas, aliados ou oposicionistas, ele agora se dispõe a sentar com o FMI, conforme proclamou no dia 12, ao inaugurar uma fábrica da Pirelli em Feira de Santana (BA): "Podem ficar certos de que não haverá nenhum preconceito de sentar com a direção do FMI aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo".

O "nove meses" o leitor sabe o que é: a já famosa parábola em que o presidente recorre ao período de gestação para insistir em que é preciso paciência para ver as coisas acontecerem. A última vez que recorreu a ela foi na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Disse que muita gente "não tem tempo de esperar o período de fertilidade da mulher", depois "não tem tempo de esperar nove meses para nascer", depois "de esperar um ano para aprender a falar papai", e por isso acaba nem tendo filho. Sorte do presidente que, no programa da natureza, constam tais prazos. Se os filhos nascessem de imediato, e já falando, seu governo teria de fazer tudo de repente, e de uma só vez.

 
 
 
 
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