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Música
A
classe operária da música
Artistas
brasileiros embarcam no filão
da world music. O cachê é em dólar,
mas o tratamento...

Sérgio
Martins
Fotos arquivo pessoal
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| Chico
César: descanso no chão, no aeroporto de Tenerife |
"O
aeroporto internacional é a melhor saída para o artista
brasileiro." A frase atribuída a Tom Jobim, e da qual ele
sempre negou a autoria, tem lá sua dose de verdade. Praticantes
de uma sonoridade que se encaixa no rótulo de world music,
artistas como Trio Mocotó, Chico César, Silvério
Pessoa e Orquestra Popular de Câmara hoje vêm recheando
suas contas bancárias em giros pela Europa. Os cachês
variam de 5 000 a 20 000 dólares, as apresentações
são praticamente diárias e as turnês chegam
a durar dois meses. Trata-se de uma realidade estimulante
e muito diversa da encontrada por esses mesmos artistas no Brasil.
"É triste voltar de um festival na Bélgica, onde cantei
para mais de 5.000 pessoas, e descobrir que não há
nada programado para mim por aqui", diz o cantor Silvério
Pessoa.
O termo world music é uma espécie de guarda-chuva,
sob o qual podem ser encontrados desde batedores de tambores de
tribos africanas e tocadores de gongo da Tailândia até
cantores indianos que entoam mantras. Ou seja, ele designa praticamente
todo estilo musical que venha do Terceiro Mundo exceção
feita para o reggae e a música latina, que já eram
conhecidos dos consumidores de música dos Estados Unidos
e da Europa nos anos 80, quando o rótulo world music foi
criado e divulgado por artistas como David Byrne, Peter Gabriel
e Paul Simon. Nessas duas décadas de existência, a
world music se tornou um filão estável e bastante
lucrativo. Os discos não vendem menos de 40.000 unidades,
e existem festivais dedicados ao gênero. Pelo menos três
grandes congressos anuais (um deles é o Mercado Cultural
da Bahia) reúnem artistas, empresários e donos de
gravadoras independentes em busca de sons "exóticos" e "originais"
para vender no Primeiro Mundo. Não é de admirar que
os artistas brasileiros, na qualidade de cidadãos do país
que deu ao mundo a bossa nova, a princípio se sentissem desconfortáveis
com sua inclusão nesse nicho. Mas a possibilidade de ganhar
lá fora o que seria impossível conquistar aqui dentro
falou mais alto e acabou com esse tipo de melindre.
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| João
Parahyba, do Trio Mocotó, tira uma soneca no banco de
uma estação de trem, na Alemanha; Silvério
Pessoa (no círculo) confraterniza com outros artistas
num ônibus, na França |
As
turnês dessa classe operária da música brasileira,
é claro, não têm o glamour das excursões
das grandes estrelas. Viaja-se de trem, ônibus e van (avião
é muito caro), e freqüentemente os próprios músicos
fazem as vezes de motorista. A hospedagem é escolhida pelo
preço (de preferência, diárias abaixo de 30
dólares). O orçamento, equilibrado com workshops e
a venda de CDs e camisetas. O único artista nacional que
recebe um tratamento melhorzinho é Chico César. Ele
está nas primeiras colocações das paradas européias
de world music e tem fãs-clubes espalhados pela Alemanha
e Espanha. "Um deles só aceita sócios que gostem de
Chico César, cachaça e torçam pelo Barcelona",
diverte-se o cantor. Chico é o que tem cachês mais
altos (6.000 dólares por um show com voz e violão,
e 20.000 quando acompanhado de seis instrumentistas). Além
disso, traz no currículo uma apresentação no
festival de rock mais badalado da Inglaterra, o de Reading. "Eu
me senti como um jogador da segunda divisão que vai enfrentar
o Flamengo no Maracanã. A diferença é que fiz
dois a zero nos roqueiros logo de cara", orgulha-se.
Recentemente, o cantor pernambucano Silvério Pessoa engatou
24 apresentações na França, com direito também
a participações em discos de artistas locais e a uma
performance inusitada: Silvério cantou Luar do Sertão,
de João Pernambuco e Catullo da Paixão Cearense, em
francês e no ritmo de embolada. Em 2000, o Trio Mocotó
assinou contrato com um selo belga e lançou o disco Samba
Rock. Com 40.000 cópias vendidas na Europa, o disco credenciou
o Mocotó a uma carreira internacional. Somente neste ano,
o grupo fez 54 apresentações, num roteiro que incluiu
ainda Austrália e Cingapura. O grupo voltou ao Brasil neste
mês só para terminar as gravações de
seu novo disco, que será lançado mundialmente em outubro.
Em seguida, mais uma bateria de shows pelo exterior. Tudo isso sem
nenhum luxo e com algum sofrimento. Certa feita, na Suécia,
o Trio Mocotó teve de enfrentar um churrasco bastante peculiar.
"Foram três horas de samba tocado por gringos. Para se ter
uma idéia, a melhor coisa que aconteceu foi ouvir um argentino
cantando Paulinho da Viola", diz o percussionista João Parahyba.
Manual
de sobrevivência
do artista de world music
Encarar hotéis sem banheiro no quarto para economizar
o dinheiro do cachê
Escolher empresários que sejam bons de
lábia e ao volante. Eles poderão se transformar
em motoristas de vans e vendedores de CDs ao longo da
turnê
Não reclamar quando as refeições
do dia consistirem em um lanche na fast food mais próxima
Ter paciência para participar de debates,
palestras, workshops e os inevitáveis churrascos
Programar-se para andar de trem, navio, carro
e ônibus: viagens de avião são um
luxo desnecessário
Evitar as atitudes de popstar: há centenas
de artistas brasileiros esperando uma brecha para pegar
essa boca no exterior
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