Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Música
A classe operária da música

Artistas brasileiros embarcam no filão
da world music. O cachê é em dólar,
mas o tratamento...


Sérgio Martins

 
Fotos arquivo pessoal
Chico César: descanso no chão, no aeroporto de Tenerife


Ouça os artistas

"O aeroporto internacional é a melhor saída para o artista brasileiro." A frase atribuída a Tom Jobim, e da qual ele sempre negou a autoria, tem lá sua dose de verdade. Praticantes de uma sonoridade que se encaixa no rótulo de world music, artistas como Trio Mocotó, Chico César, Silvério Pessoa e Orquestra Popular de Câmara hoje vêm recheando suas contas bancárias em giros pela Europa. Os cachês variam de 5 000 a 20 000 dólares, as apresentações são praticamente diárias e as turnês chegam a durar dois meses. Trata-se de uma realidade estimulante – e muito diversa da encontrada por esses mesmos artistas no Brasil. "É triste voltar de um festival na Bélgica, onde cantei para mais de 5.000 pessoas, e descobrir que não há nada programado para mim por aqui", diz o cantor Silvério Pessoa.

O termo world music é uma espécie de guarda-chuva, sob o qual podem ser encontrados desde batedores de tambores de tribos africanas e tocadores de gongo da Tailândia até cantores indianos que entoam mantras. Ou seja, ele designa praticamente todo estilo musical que venha do Terceiro Mundo – exceção feita para o reggae e a música latina, que já eram conhecidos dos consumidores de música dos Estados Unidos e da Europa nos anos 80, quando o rótulo world music foi criado e divulgado por artistas como David Byrne, Peter Gabriel e Paul Simon. Nessas duas décadas de existência, a world music se tornou um filão estável e bastante lucrativo. Os discos não vendem menos de 40.000 unidades, e existem festivais dedicados ao gênero. Pelo menos três grandes congressos anuais (um deles é o Mercado Cultural da Bahia) reúnem artistas, empresários e donos de gravadoras independentes em busca de sons "exóticos" e "originais" para vender no Primeiro Mundo. Não é de admirar que os artistas brasileiros, na qualidade de cidadãos do país que deu ao mundo a bossa nova, a princípio se sentissem desconfortáveis com sua inclusão nesse nicho. Mas a possibilidade de ganhar lá fora o que seria impossível conquistar aqui dentro falou mais alto e acabou com esse tipo de melindre.

 
João Parahyba, do Trio Mocotó, tira uma soneca no banco de uma estação de trem, na Alemanha; Silvério Pessoa (no círculo) confraterniza com outros artistas num ônibus, na França

As turnês dessa classe operária da música brasileira, é claro, não têm o glamour das excursões das grandes estrelas. Viaja-se de trem, ônibus e van (avião é muito caro), e freqüentemente os próprios músicos fazem as vezes de motorista. A hospedagem é escolhida pelo preço (de preferência, diárias abaixo de 30 dólares). O orçamento, equilibrado com workshops e a venda de CDs e camisetas. O único artista nacional que recebe um tratamento melhorzinho é Chico César. Ele está nas primeiras colocações das paradas européias de world music e tem fãs-clubes espalhados pela Alemanha e Espanha. "Um deles só aceita sócios que gostem de Chico César, cachaça e torçam pelo Barcelona", diverte-se o cantor. Chico é o que tem cachês mais altos (6.000 dólares por um show com voz e violão, e 20.000 quando acompanhado de seis instrumentistas). Além disso, traz no currículo uma apresentação no festival de rock mais badalado da Inglaterra, o de Reading. "Eu me senti como um jogador da segunda divisão que vai enfrentar o Flamengo no Maracanã. A diferença é que fiz dois a zero nos roqueiros logo de cara", orgulha-se.

Recentemente, o cantor pernambucano Silvério Pessoa engatou 24 apresentações na França, com direito também a participações em discos de artistas locais e a uma performance inusitada: Silvério cantou Luar do Sertão, de João Pernambuco e Catullo da Paixão Cearense, em francês e no ritmo de embolada. Em 2000, o Trio Mocotó assinou contrato com um selo belga e lançou o disco Samba Rock. Com 40.000 cópias vendidas na Europa, o disco credenciou o Mocotó a uma carreira internacional. Somente neste ano, o grupo fez 54 apresentações, num roteiro que incluiu ainda Austrália e Cingapura. O grupo voltou ao Brasil neste mês só para terminar as gravações de seu novo disco, que será lançado mundialmente em outubro. Em seguida, mais uma bateria de shows pelo exterior. Tudo isso sem nenhum luxo e com algum sofrimento. Certa feita, na Suécia, o Trio Mocotó teve de enfrentar um churrasco bastante peculiar. "Foram três horas de samba tocado por gringos. Para se ter uma idéia, a melhor coisa que aconteceu foi ouvir um argentino cantando Paulinho da Viola", diz o percussionista João Parahyba.

 
Manual de sobrevivência
do artista de world music

• Encarar hotéis sem banheiro no quarto para economizar o dinheiro do cachê

• Escolher empresários que sejam bons de lábia e ao volante. Eles poderão se transformar em motoristas de vans e vendedores de CDs ao longo da turnê

• Não reclamar quando as refeições do dia consistirem em um lanche na fast food mais próxima

• Ter paciência para participar de debates, palestras, workshops e os inevitáveis churrascos

• Programar-se para andar de trem, navio, carro e ônibus: viagens de avião são um luxo desnecessário

• Evitar as atitudes de popstar: há centenas de artistas brasileiros esperando uma brecha para pegar essa boca no exterior

 

 
 
 
 
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