Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Ambiente
O crime da motosserra

O desmatamento cresce como
nunca no Acre enquanto o PT
faz o governo da floresta


Leonardo Coutinho

As imagens de satélite analisadas no Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o desmatamento no Estado do Acre está avançando no ritmo de dezesseis campos de futebol por hora. Trata-se de uma descoberta duplamente surpreendente. Primeiro, porque essa é a mesma velocidade de destruição observada nas bordas da floresta mais atacadas pelas queimadas e pelos madeireiros. Segundo, porque o governo petista de Jorge Viana – em seu segundo mandato – tem entre suas principais plataformas a preservação e o aproveitamento racional da natureza. Os cálculos dos cientistas revelam que, nos últimos vinte anos, o desmatamento aumentou justamente depois da posse de Viana, em 1999. Até hoje, o Acre já perdeu 11% de sua cobertura florestal e, só no último ano, a devastação alcançou cerca de 1% das matas naturais. Nesse andamento, o Estado chegará ao fim deste século com a paisagem de um estacionamento. "É uma destruição horrorosa", diz o cientista Dalton de Morisson Valeriano, gerente do Programa Amazônia, do Inpe, e coordenador do monitoramento por satélite. "Estamos aprimorando os dados para obter precisão ainda maior."

Em quase todo o país, as autorizações de desmatamento são emitidas pelo Ibama. Mato Grosso tem um instituto que divide com o órgão federal essa responsabilidade, e o Acre foi o primeiro a assumir totalmente a gerência desses processos, em 1999, por intermédio do Instituto de Meio Ambiente (Imac). Só no ano passado, o órgão liberou mais de 10.000 licenças. O diretor do instituto, Nilton Cosson, não aceita os dados recentes do Inpe. "Essa metodologia dá uma visão exagerada", diz. "Aqui o desmatamento só cai." O Inpe garante que suas fotos são agora até mais precisas do que em anos anteriores. A prioridade do Estado, conforme as explicações oficiais, é aprovar projetos de reservas extrativistas e de exploração com reflorestamento, mas os colonos ainda insistem nos cortes e nas queimadas. O agrônomo Judson Ferreira Valentim, pesquisador da Embrapa, lembra, porém, que a pecuária é a atividade mais comum nas propriedades rurais do Acre. "O avanço das pastagens é que está criando esse quadro", afirma Valentim. Até dentro das reservas naturais já há criação de gado, informa o professor Élder Andrade, pesquisador da Universidade Federal do Acre. "Só pode haver seringueiros comprando gado com o dinheiro destinado ao extrativismo", aposta Andrade.

Outro sinal de que as motosserras cortam pesado são as exportações de madeira do Acre, que aumentaram 279% em apenas um ano. Enquanto a venda de borracha e derivados representa 11,5% das exportações do Estado, a de madeira e seus subprodutos significa 70% do comércio exterior. Na semana passada, enquanto o governador Jorge Viana retornava de uma longa viagem – com uma escala na África do Sul, para receber um prêmio ambiental do Fundo Mundial da Natureza –, sua assessoria fazia contas para entender e explicar as fotos do satélite.

 
Foto Raimundo Pacco/CBPress
 
 
 
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