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Especial
Não
perca o sono
Os
avanços da ciência
para
combater
a insônia, mal
que aflige
três
em cada dez
brasileiros

Rosana
Zakabi
Montagem sobre fotos de Pedro Rubens
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| A
VJ da MTV Sarah Oliveira sofre de insônia desde criança: "É
horrível ver o sol nascer quando não se dormiu à noite" |
Acho
que escutei uma voz gritar: "Nunca mais dormirás! Macbeth
assassinou o sono!"... O sono inocente, sono que deslinda a meada
enredada das preocupações, a morte da vida de cada
dia, banho reparador do trabalho doloroso, bálsamo das almas
feridas, segundo prato na mesa da grande Natureza, principal alimento
do festim da vida!...
William
Shakespeare,
Macbeth, ato II, cena 2
Nas
linhas acima, William Shakespeare captou o valor de uma boa noite
de sono. Quem, como o torturado Macbeth, o rei da tragédia
que leva seu nome, não sofreu com pelo menos uma noite em
claro? É bom que se diga que no tempo do dramaturgo, que
viveu na Inglaterra do século XVI, as noites eram bem mais
repousantes que as atuais. Dorme-se hoje em média sete horas
por noite, noventa minutos menos do que se dormia nos séculos
passados. No período anterior à luz elétrica,
homens e mulheres costumavam ir para a cama no início da
noite. Acordavam no meio da madrugada para tomar um lanche e, em
seguida, voltavam a dormir até o sol raiar. A redução
de uma hora e meia no descanso diário é decorrência
do excesso de iluminação e de barulho noite adentro,
da vida sedentária e dos horários irregulares, do
stress profissional, da televisão... Enfim, de um mundo que
nunca dorme.
Metade
da população adulta do Brasil experimenta pelo menos
uma noite maldormida por semana. Não é o suficiente
para causar danos permanentes, e volta-se ao normal uma vez que
se tenha dormido. Ainda assim, o dia seguinte é de amargar.
Há uma perceptível redução no desempenho,
na criatividade e nos reflexos e os nervos ficam à flor da
pele. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo estimou
a queda na atenção causada por duas noites insones
como equivalente ao consumo de três doses de uísque.
Por isso se recomenda a quem dorme mal que evite dirigir ou operar
máquinas. Dados do Brasil indicam que 10% de todos os acidentes
de trânsito envolvem um motorista sonolento ou adormecido.
As conseqüências são bem mais severas quando o
débito de sono se prolonga por períodos maiores
uma semana dormindo poucas horas por noite, por exemplo. Nesse caso,
os efeitos sobre o metabolismo são parecidos com os do processo
de envelhecimento. "A sociedade nos estimula a dormir tarde e acordar
cedo, reduzindo assim o período destinado ao sono", diz o
neurofisiologista Flávio Alóe, do Centro de Sono do
Hospital das Clínicas de São Paulo. "Dessa forma,
muita gente não dorme o suficiente para ter uma vida saudável."
Claudio Rossi
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NOITES
EM CLARO
O técnico da seleção brasileira masculina
de vôlei, Bernardo Rezende, o Bernardinho, de 44 anos,
perdeu o sono quando trocou a carreira de jogador pela de técnico,
em 1989. "A cabeça não desliga, não
consigo relaxar", diz ele. "Mesmo quando adormeço,
acordo com a impressão de que não dormi a noite
inteira." Para não ficar rolando na cama, Bernardinho
levanta e procura alguma atividade: lê, estuda, planeja
seu trabalho ou assiste a vídeos de jogos. Quando não
consegue dormir mais que duas horas à noite, tenta compensar
o sono perdido com um cochilo à tarde. "Fico quieto
na cama, tentando pelo menos descansar o corpo", afirma.
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Diferentemente
do que se acreditava no passado, sabe-se hoje que é possível
curar a maioria dos casos de insônia sem tratamentos pesados
nem remédios fortíssimos. Estudos recentes apontam
que na maior parte das vezes ela é causada pelos maus hábitos
do dia-a-dia. Uma dessas pesquisas foi realizada em fevereiro com
estudantes na Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, e mostrou
que o número de jovens que procuram ajuda médica para
combater a insônia aumentou mais de 100% nos últimos
catorze anos. Hoje, os estudantes americanos não dormem mais
de sete horas por noite, quarenta minutos menos do que costumavam
dormir na década de 90. O principal motivo, segundo os pesquisadores,
é a falta de rotina na hora de ir para a cama. Devido aos
exames da faculdade, eles se habituam a ficar acordados durante
a madrugada para estudar e levantar cedo para ir à aula.
Quando tentam ir dormir mais cedo, não conseguem mais conciliar
o sono. A solução para esses casos é fazer
uma mudança de hábitos, como modificar o horário
em que se vai dormir. Muitas vezes, passar menos tempo na cama em
vez de ficar a madrugada rolando de um lado para o outro pode contribuir
para um sono de maior qualidade.
A VJ da MTV Sarah Oliveira, 24 anos, tem dificuldade para dormir
desde criança. "Eu acordava todos os dias às 6 e meia
da manhã para ir à escola, mas não conseguia
dormir antes de 1 hora", conta. Há três anos, ela atravessou
um momento complicado na vida profissional e amorosa e passou a
depender de tranqüilizantes para dormir. Foi então que
resolveu combater a insônia com mudança de hábitos.
Não faz mais ginástica à noite, cortou alimentos
estimulantes depois do jantar, entre eles chocolate, e começou
a usar medicamentos homeopáticos. A nova rotina melhorou
suas noites, mas ela ainda perde o sono com facilidade. "Isso me
incomoda um pouco, mas minha vida já melhorou bastante",
diz. Também é importante seguir uma dieta alimentar
saudável e praticar exercícios físicos moderados,
como ioga e natação. Essas medidas simples resolvem
o problema de até 70% dos insones. "Adotar uma rotina, entre
elas dormir e levantar no mesmo horário todos os dias, é
o melhor remédio para ter uma boa noite de sono", disse a
VEJA o neurologista americano Clifford Saper, da Universidade Harvard
e um dos especialistas mais respeitados nesse assunto.
Oscar Cabral
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TV
NA MADRUGADA
O humorista Chico Anysio, de 72 anos, acostumou-se
a dormir menos de cinco horas por noite. Todos os dias, vai
para a cama à 1 e meia da madrugada e às 6 da
manhã já está de pé. "Nem preciso
de despertador para acordar", diz. Durante a madrugada,
enquanto o resto da casa está dormindo, Chico assiste
a filmes na TV a cabo. "Decidi ficar menos na cama para
aproveitar melhor o tempo", explica. "Antes eu também
trabalhava à noite, mas parei. Agora só trabalho
de dia", diz. Chico conta que quando era mais jovem dormia
oito horas por noite. "Eu me mexia tanto que a cama até
saía do lugar", brinca. Mesmo com as poucas horas
de sono que tem hoje, Chico avalia que dorme bem. "Meu
sono é tão profundo que acordo na mesma posição
em que dormi." |
O problema é que nem sempre é fácil manter
um horário fixo para dormir ou ter uma rotina saudável.
A maioria das pessoas não perde horas de sono por opção,
mas simplesmente porque não consegue abrir mão da
enorme quantidade de tarefas e preocupações que tem
no dia-a-dia. Para esses casos, as clínicas de estudo do
sono dispõem de tratamentos que ajudam homens, mulheres e
até crianças a lidar melhor com as principais causas
da insônia, como o stress e a ansiedade. Nós passamos
um terço de nossa vida dormindo ou, pelo menos, deveríamos.
Até uns sessenta anos atrás os cientistas viam o sono
apenas como uma pausa para o descanso, uma espécie de buraco
negro cuja única característica notável era
a inconsciência. Tudo isso mudou repentinamente com a invenção
das máquinas de eletroencefalograma, que registram a atividade
elétrica do cérebro. O estudo das ondas cerebrais
demonstrou que o sono não é uma espécie de
morte ou desmaio, e sim um período de complexa atividade.
Foi, por assim dizer, o despertar da ciência do sono. Em 1937,
descobriram-se as fases distintas que se alternam em ciclos durante
a noite. Em 1953, percebeu-se que no decorrer do sono os olhos se
mexem rapidamente, prova segura de que muitos sentidos continuam
funcionando normalmente. "Aprendeu-se mais sobre o sono nos últimos
trinta anos que em toda a história anterior da medicina",
diz Flávio Alóe. As descobertas mais sensacionais
aconteceram recentemente. Veja algumas delas:
O botão liga-desliga Trata-se de um conjunto de
células cerebrais só ativado quando o indivíduo
dorme. Apelidado de sleep switch (o interruptor do sono,
em inglês), desliga determinadas funções cerebrais
para que o sono ocorra. A quantidade de células do sleep
switch tende a cair com o passar dos anos. Isso pode explicar
por que os idosos dormem menos. É o mais perto que já
se chegou da total compreensão do mecanismo do sono. Infelizmente,
ainda não podemos apertar o botão do sono por nós
mesmos.
A molécula do despertar Em 1999, duas pesquisas
separadas, uma em Stanford e outra na Universidade do Texas, chegaram
à mesma conclusão sobre as causas genéticas
da narcolepsia, doença neurológica em que o paciente
cai adormecido inesperadamente: ela se dá pela falta de um
neurotransmissor, a hipocretina. É provável que a
hipocretina seja o elemento químico responsável por
virar o sleep switch para a posição acordado.
Em teoria, com a hipocretina é possível criar uma
droga para nos manter acordados por longos períodos de tempo.
Ainda não se tem essa pílula milagrosa, mas, como
muita coisa na indústria farmacológica, é uma
questão de tempo.
O indutor do sono A melatonina, o hormônio que
induz o sono e só é produzido no escuro, foi estudada
a fundo, pela primeira vez, por pesquisadores do Instituto de Tecnologia
de Israel. O que descobriram foi a importância do relógio
biológico e das condições ambientais para o
sono. O cérebro começa a secretar a melatonina entre
21 e 22 horas e só pára pela manhã. Como o
hormônio leva duas horas para fazer efeito, o ideal é
ir dormir às 23 horas. O pior momento é por volta
das 19 horas, quando a quantidade do hormônio no organismo
ainda está muito baixa.
Os cientistas dividem o sono em dois tipos: REM, a sigla inglesa
para movimentos oculares rápidos, e não-REM, também
chamado de sono quieto. Neste último, as atividades mentais
ficam vagarosas, ocorrem movimentos corporais e a pessoa mergulha
lentamente no sono mais profundo. No REM, o período em que
mais se sonha, a atividade cerebral é intensa, mas o corpo
dorme pesado. O processo do sono é dividido em cinco etapas.
Nas duas primeiras, apenas se cochila. Na terceira e na quarta,
o sono é profundo e, na quinta, ocorre a maioria dos sonhos.
Esse ciclo se repete quatro ou cinco vezes por noite. Quem tem dificuldade
para dormir pode não conseguir chegar aos estágios
finais. "Há casos em que a pessoa apenas cochila a noite
inteira e só percebe que dormiu mal porque fica irritada,
ansiosa e cansada durante todo o dia", diz o médico Sérgio
Tufik, diretor do Instituto do Sono da Universidade Federal de São
Paulo. A maioria dos adultos precisa dormir de sete a nove horas
por noite, mas essa quantidade pode variar muito de uma pessoa para
outra. Algumas só precisam de quatro ou cinco horas de sono.
A qualidade é que importa.
Bia Parreiras
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SÓ
COM REMÉDIOS
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, de 47 anos,
sofre de insônia desde que sua filha mais velha, Júlia,
nasceu, em 1984. "O bebê acordava à noite,
eu acordava junto e não conseguia mais dormir",
diz. O problema piorou com a internet. "Passei a receber
e-mails de trabalho a qualquer hora, não tive mais sossego",
afirma. Franco só consegue dormir bem com a ajuda de
remédio. A falta de sono, garante, nunca lhe causou grandes
transtornos. "Só uma vez, no Banco Central, fui
com a calça de um terno e o paletó de outro",
conta ele. "Mas ninguém reparou." |
Nosso relógio biológico determina que necessitamos
dormir certo número de horas a cada 24 horas para podermos
funcionar. Mas os médicos ainda não sabem com total
segurança por que as pessoas precisam dormir. Uma das hipóteses
mais aceitas é que o sono tem a função de repor
a energia cerebral. "Novos estudos sugerem que as reservas de energia
do cérebro, que garantem seu bom funcionamento, se esgotariam
caso não houvesse a chance de a mente se restabelecer durante
o sono", diz o neurologista americano Saper. Durante o ciclo do
sono, o cérebro consolida as informações recebidas
ao longo do dia. Seleciona as que serão guardadas na memória
e descarta as supérfluas. O processo ocorre principalmente
durante o estágio REM, aquele em que se sonha, mas a relação
entre sonho e memória ainda não está muito
clara para os cientistas. É bem possível que os sonhos
que Sigmund Freud considerava reveladoras manifestações
do inconsciente sejam meros reflexos da faxina nos neurônios
da memória. Noites maldormidas provocam envelhecimento precoce
porque 70% do GH, o hormônio do crescimento responsável
pela renovação das células e tonificação
da pele, é secretado durante o sono pela hipófise,
glândula localizada na base do cérebro. A deficiência
do GH no organismo causa enfraquecimento dos ossos, perda da massa
muscular e flacidez.
Falta de sono de boa qualidade e na duração necessária
também provoca depressão, hipertensão, contribui
para o infarto, o derrame cerebral e o agravamento do diabetes.
Os distúrbios do sono são, por sinal, sintomas comuns
da depressão. A insônia altera o metabolismo e o funcionamento
do sistema nervoso, prejudicando as outras funções
do organismo. Em 2000, pesquisadores da Universidade de Nagoya,
no Japão, divulgaram o resultado de um amplo estudo sobre
os hábitos de sono de um grupo de 5.000 moradores da cidade
japonesa de Gifu. Conclusão: o risco de morte para quem dormia
menos de sete horas por dia era duas vezes maior que o daqueles
cujo descanso variava de sete a dez horas. Se você acha tudo
isso um tanto remoto, saiba que dormir mal acarreta outro efeito
rápido e desagradável: a obesidade. A antiga suspeita
de que gordura e insônia andam de mãos dadas foi confirmada
recentemente por um estudo da Universidade de Chicago. Depois de
dormir por apenas quatro horas durante seis noites consecutivas,
universitários jovens, magros e saudáveis, que participaram
como voluntários da pesquisa, apresentaram metabolismo igual
ao de idosos. Devido à falta de sono, a capacidade de processar
o açúcar no sangue tinha sido reduzida em 30% e a
alta taxa de glicose fez aumentar a produção do hormônio
insulina. Em excesso, a insulina faz com que o organismo retenha
mais gordura e aumente o tamanho das células adiposas. O
nível de cortisol, o hormônio do stress, também
subiu drasticamente. "Tivemos resultados mais compatíveis
com homens de 60 anos de idade do que com jovens saudáveis
de 20 anos", diz a médica americana Eve Van Cauter, que coordenou
o trabalho.
André Valentim/Strana
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SONHO
DE CONSUMO
A economista Maria Sílvia Bastos Marques, de 46 anos,
diz que seu maior desafio é conseguir uma boa noite de
sono. "Esse é meu sonho de consumo", diz ela,
que já foi presidente da Companhia Siderúrgica
Nacional. Maria Sílvia dorme seis horas, em média,
e acorda pelo menos cinco vezes por noite. Quando está
estressada, passa noites inteiras em claro. "Consigo ficar
até duas noites sem dormir e funcionar normalmente no
dia seguinte", afirma. "Mais do que isso, preciso
pedir ajuda a meu médico, que me receita medicamentos."
Ela não gosta de tomar remédios. "Com eles,
durmo muito pesado e ainda assim não me sinto descansada
no dia seguinte." Maria Sílvia diz que está
dormindo melhor agora que trabalha como consultora. "Hoje,
sem o desgaste do dia-a-dia de uma grande empresa, estou mais
relaxada." |
A insônia é classificada de acordo com sua duração.
É considerada leve se dura apenas alguns dias, média
se permanece algumas semanas e crônica se persiste por mais
de um mês. A leve geralmente é causada por problemas
do cotidiano, como briga com o namorado ou a namorada, desemprego,
excesso de trabalho. Pode se transformar em uma insônia de
média intensidade e durar por algumas semanas, mas apenas
a crônica necessita de tratamento. Estima-se que 51 milhões
de brasileiros acima dos 18 anos tenham dificuldade para dormir.
Pelo menos 1,5 milhão só dorme com medicação.
A situação é mais grave nas metrópoles,
onde se acredita que mais da metade da população durma
menos do que deveria. São pessoas que levam para a cama as
preocupações do dia seguinte e se sentem obrigadas
a dormir. Policiais, médicos e outros profissionais que trabalham
em turnos são mais propensos a ter problemas de sono. No
momento em que deveriam dormir, estão na ativa. O sono durante
o dia é de pior qualidade devido à luminosidade, ao
barulho e à temperatura mais elevada. Muitas vezes, uma boa
noite de sono pode ser conseguida com soluções relativamente
simples. Travesseiros ou um colchão mais confortáveis,
por exemplo. Cortinas para escurecer o quarto e isolar o barulho
externo resolvem em muitos casos. A instalação de
ar-condicionado é uma boa providência em lugares muito
quentes, pois se dorme melhor com a temperatura entre 17 e 20 graus.
Como passo inicial de um tratamento contra a insônia, é
comum que o paciente passe uma noite numa clínica especializada
e se submeta à polissonografia, exame que monitora o sono
com aparelhos. O principal objetivo é saber se a má
qualidade do descanso noturno é ou não conseqüência
de apnéia, a interrupção involuntária
da respiração durante o sono. Para esse caso, há
tratamentos específicos, incluindo cirurgias. Para a maioria,
existem outros métodos que permitem aliviar a tensão
e controlar a ansiedade. Um deles, bastante usado, é o biofeedback,
que ensina como relaxar os músculos por meio de um aparelho
ligado ao corpo. Quando o paciente tensiona os músculos,
a máquina faz um ruído. Ao relaxar, o ruído
diminui. O objetivo é fazer com que o insone tenha consciência
do próprio stress e perceba como é possível
relaxar. Alguns pacientes se submetem a sessões de terapia
com psicólogos que ajudam homens e mulheres a lidar melhor
com as preocupações do dia-a-dia. "Um dos grandes
vilões do sono é a ansiedade na hora de dormir", diz
a psicóloga Vânia Sartori, pesquisadora do Instituto
do Sono da Universidade Federal de São Paulo. "O insone fica
tão preocupado com o que precisa resolver no dia seguinte
que não consegue pegar no sono."
Para aqueles que não conseguem uma boa noite de sono apenas
com as mudanças de hábito, terapias e relaxamento,
também há boas notícias. Novos medicamentos,
mais eficazes e com menos efeitos colaterais, têm permitido
aos insones dormir melhor. Todos foram criados com base nas últimas
pesquisas sobre a química cerebral. Um grupo estimula a liberação
de uma substância chamada GABA, espécie de calmante
que relaxa o sistema muscular e diminui a consciência. São
o Stilnox, do laboratório francês Synthelabo, e o Lioram,
do americano Schering-Plough. Ambos possuem o mesmo princípio
ativo, o zolpidem. Agem mais rápido que os medicamentos antigos
e são eliminados com facilidade pelo organismo. O Sonata,
do laboratório Wyeth-Whitehall, chegou ao Brasil há
pouco mais de dois anos e tem ação breve, de duas
a três horas. "É ideal para os insones que acordam
no meio da madrugada e não conseguem mais dormir", diz a
médica Lia Rita Bittencourt, do Instituto do Sono da Universidade
Federal de São Paulo.
Em junho deste ano, três novos remédios para dormir
foram apresentados em um congresso da Associação dos
Profissionais de Sono em Chicago, nos Estados Unidos. Um deles,
conhecido pela sigla TAK-375, induz o sono por meio de hormônios
liberados no cérebro. Outro, chamado Estorra, foi testado
por 300 voluntários e melhorou a qualidade de sono em todos
eles, além de deixá-los mais alertas durante o dia.
O terceiro, batizado de Indiplon, apresentou menos efeitos colaterais
que os medicamentos já existentes no mercado. Até
então, os únicos remédios para combater as
noites maldormidas eram tranqüilizantes fortes, como Dormonid
e Lexotan, que causam sonolência, pois só induzem as
fases mais leves do sono. Como demoram para ser eliminados do organismo,
provocam efeitos colaterais, como cansaço e dor de cabeça.
O Brasil é o país que mais estuda os distúrbios
do sono na América Latina e, ao lado dos Estados Unidos e
da Alemanha, está entre os que mais se preocupam com o tema.
No início da década de 90, quando o assunto começou
a ganhar importância por aqui, havia cinqüenta clínicas
especializadas em todo o país. Hoje, são 150, grande
parte em São Paulo. A maior delas, o Instituto do Sono da
Universidade Federal de São Paulo, atende cinqüenta
pessoas por dia, com fila de espera. São homens e mulheres
que demoram mais de uma hora para pegar no sono e, quando conseguem,
dormem leve, acordando várias vezes. Não é
difícil encontrar no corredor do instituto insones que adormecem
duas a três horas por noite há mais de cinco anos e
passam duas noites em claro quase todas as semanas. Pelo menos 10%
dos pacientes são crianças com sonambulismo, bruxismo,
o distúrbio que faz ranger os dentes durante o sono, e também
insônia. A capacidade de dormir diminui com a idade, principalmente
para quem sofre de certas doenças, como hipertensão.
No passado, os despertares rápidos durante a noite começavam
por volta dos 45 anos. Hoje, com a internet e os videogames conspirando
para manter todo mundo elétrico até altas horas, há
crianças e adolescentes em busca de tratamento nos consultórios
especializados. Quase 90% das pessoas que procuram as clínicas
conseguem sair com alguma solução para tentar resolver
o problema. A principal característica de uma noite bem-dormida
é a sensação de bem-estar ao acordar. É
isso que todo mundo busca a cada noite ao colocar a cabeça
no travesseiro.
| Os
ruídos da noite
Lá
pelos 50 anos, metade dos homens e quatro em cada dez
mulheres roncam. É muita gente. O problema atinge
quase 60 milhões de brasileiros. O ronco é
um sintoma de envelhecimento, de aumento de peso e de
flacidez muscular. Durante o dia, os músculos
da garganta são mantidos firmes e o ar percorre
um caminho aberto. Quando se dorme, os músculos
relaxam, o ar passa com dificuldade e os tecidos da
garganta vibram. O estreitamento pode ser causado também
por excesso de tecido nas amígdalas, queixo e
maxilar pequenos, um palato ou úvula de formato
ou tamanho exagerado. Em geral, o ruído causa
maior incômodo ao cônjuge que ao roncador.
Exceto quando é sinal de um distúrbio
mais sério, a apnéia do sono.
A apnéia é uma interrupção
involuntária da respiração durante
o sono. Pode ocorrer com a freqüência de
uma por minuto e só termina quando o cérebro
percebe a queda na oxigenação e força
um quase despertar rápido, para que a pessoa
inale oxigênio. Segundos ou minutos depois, o
processo se repete. Os batimentos cardíacos vão
às alturas. O apnéico acorda cansado,
mesmo quando pensa ter dormido a noite inteira. Quinze
milhões de brasileiros padecem desse mal. Nos
casos leves, um regime para emagrecer ameniza o problema.
Nos mais graves, precisa-se dormir com uma máscara
de oxigênio.
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