Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Morte
A tragédia dos Jardins

Diretor da revista Vogue morre
ao cair do apartamento do dono
do hotel mais chique do Brasil,
depois de beber, lamentar-se
e discutir durante horas


Carlos Maranhão

Milton Michida/AE
Andrea Carta, no escritório de sua editora: um dos "filhos da italianada preeminente de São Paulo"


Inaugurado neste mês no bairro dos Jardins, em São Paulo, o Hotel Fasano já se tornou um símbolo da sofisticação e do cosmopolitismo do lado mais rico da maior cidade brasileira. Na semana passada, o empreendimento de 50 milhões de reais, com 64 apartamentos e um restaurante capaz de brilhar em qualquer capital gastronômica, tornou-se a ante-sala de uma tragédia. Entre a noite de segunda-feira e a madrugada de terça, o editor Andrea Carta, diretor das revistas Vogue e Casa Vogue, depois de beber além da conta, teve longas e destemperadas discussões com o restaurateur Rogério Fasano, um dos sócios do hotel e de sete restaurantes que criou e dirige. O bate-boca, testemunhado por dezenas de pessoas que circulavam ali dentro, começou no lobby de entrada, com suas cadeiras francesas de couro, e prosseguiu no bar do restaurante, onde a atriz Carolina Dieckmann comemorava seu 25º aniversário com um jantar. Por volta da 1h30, Fasano avisou aos barmen que eles não deveriam mais servir bebidas alcoólicas a Carta, que tomara várias taças do vinho espumante italiano prosecco e depois passou para a vodca-tônica, seu drinque preferido. Dada a ordem, Rogério foi para seu apartamento, no 5º andar de um edifício a um quarteirão de distância. Logo em seguida, Carta dirigiu-se até lá. Após muita insistência, teve autorização para subir e, quinze minutos mais tarde, morreu ao despencar de uma janela lateral do apartamento de Fasano.

Figuras destacadas da vida paulistana, Fasano e Carta eram amigos de infância. "Eles foram criados praticamente juntos, como irmãos", conta o empresário Fabrizio Fasano, pai de Rogério e ex-sócio do pai de Andrea, o jornalista Luis Carta, morto em 1994. "Somos filhos da italianada preeminente de São Paulo", escreveu a colunista Barbara Gancia, da Folha de S. Paulo, que convivia com ambos desde criança. Rogério é a atual estrela de um clã que, 100 anos atrás, se transformou numa grife da boa mesa. Estava eufórico desde a abertura do hotel. "Este é o melhor momento da minha vida", dizia na véspera. "Só preciso de um galho de arruda para evitar o mau-olhado." Andrea, 44 anos, nascido em Roma, pertencia a uma linhagem de jornalistas e editores. Há duas semanas, ele estivera em Londres para renovar com a editora Condé Nast os direitos de publicação de Vogue, que circula no Brasil com uma tiragem declarada de 50.000 exemplares por mês.

Carol do Valle
Rogério Fasano, no lobby de seu recém-inaugurado hotel: "Eu estava vivendo o melhor momento da minha vida"

Horas antes de tudo acontecer, durante uma reunião na editora, alguém tocou no assunto dos riscos do cigarro para a saúde. Andrea Carta, que era fumante, filosofou: "Bobagem, cada pessoa tem o destino traçado e sua hora marcada. Desse momento não há como escapar". À noite, ele encontrou-se com Fasano para tratar de uma edição especial que estava preparando sobre o hotel. Ainda no lobby, bebeu as primeiras taças de prosecco. "Na segunda, começou a ficar alterado", diz o jornalista Nirlando Beirão, que participava da conversa. Carta, em certo momento, disse a Fasano: "Ah, esse seu hotel... Você conseguiu! Mas eu te ajudei muito". Normalmente reservado e introspectivo, Carta foi mudando seu comportamento à medida que a noite avançava. Segundo amigos, ele tomava remédios para emagrecer. "Misturar álcool com medicamentos como esses, que atuam no sistema nervoso central, potencializa os efeitos da bebida, altera o comportamento e provoca perda de coordenação motora e senso de equilíbrio", explica o psiquiatra André Malbergier, especialista no assunto do Hospital das Clínicas de São Paulo.

"Ele estava com a auto-estima muito baixa e ficou cada vez mais deprimido e agressivo", afirma Fasano. A discussão foi interrompida várias vezes, enquanto Fasano saía do bar para cumprimentar clientes. Em um desses intervalos, Carta levantou-se ao ver Carolina Dieckmann e pediu que ela lhe mandasse um e-mail comentando o último número da revista. Isso ocorreu pouco antes de Fasano se retirar e Carta ir atrás dele. "Ele entrou no apartamento ainda mais alterado", diz Fasano. "Passou a falar da falta que sentia do pai, disse que só acreditava na tristeza e me agredia verbalmente. Eu gritei: 'Pare com essa maluquice! Fique dormindo aqui, que eu vou para o hotel'. Ele respondeu: 'Você vai ver o que é maluquice'." Nesse momento, de acordo com Fasano, Carta abriu a janela, subiu num pufe e pendurou-se no parapeito, antes de escorregar e cair. Fasano conta que jogou uma manta para que Carta se agarrasse nela, mas foi inútil.

Na semana passada, amigos de Carta, que foi casado duas vezes e tinha dois filhos menores, lembravam-se dele como um homem que alternava momentos de entusiasmo pela vida e pelo trabalho com explosões e crises de angústia. "Era uma pessoa entusiasmada, carismática, cativante e destemida, que corria riscos e tentava às vezes chegar ao seu limite", afirmou sua irmã Patricia Carta, que desde sexta-feira ocupa o lugar de Andrea na direção de Vogue. O inquérito policial para investigar o caso, que está sendo conduzido sob sigilo e acompanhado por dois promotores, tem um prazo de trinta dias para ser concluído.


Com reportagem de Otavio Canecchio

 
 
 
 
topo voltar