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Morte
A
tragédia dos Jardins
Diretor da revista Vogue
morre
ao cair do apartamento do dono
do
hotel mais chique do Brasil,
depois de beber, lamentar-se
e discutir durante horas

Carlos Maranhão
Milton Michida/AE
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| Andrea
Carta, no escritório de sua editora: um dos "filhos da italianada
preeminente de São Paulo" |
Inaugurado neste mês no bairro dos Jardins, em São
Paulo, o Hotel Fasano já se tornou um símbolo da sofisticação
e do cosmopolitismo do lado mais rico da maior cidade brasileira.
Na semana passada, o empreendimento de 50 milhões de reais,
com 64 apartamentos e um restaurante capaz de brilhar em qualquer
capital gastronômica, tornou-se a ante-sala de uma tragédia.
Entre a noite de segunda-feira e a madrugada de terça, o
editor Andrea Carta, diretor das revistas Vogue e Casa
Vogue, depois de beber além da conta, teve longas e destemperadas
discussões com o restaurateur Rogério Fasano, um dos
sócios do hotel e de sete restaurantes que criou e dirige.
O bate-boca, testemunhado por dezenas de pessoas que circulavam
ali dentro, começou no lobby de entrada, com suas cadeiras
francesas de couro, e prosseguiu no bar do restaurante, onde a atriz
Carolina Dieckmann comemorava seu 25º aniversário com
um jantar. Por volta da 1h30, Fasano avisou aos barmen que eles
não deveriam mais servir bebidas alcoólicas a Carta,
que tomara várias taças do vinho espumante italiano
prosecco e depois passou para a vodca-tônica, seu drinque
preferido. Dada a ordem, Rogério foi para seu apartamento,
no 5º andar de um edifício a um quarteirão de
distância. Logo em seguida, Carta dirigiu-se até lá.
Após muita insistência, teve autorização
para subir e, quinze minutos mais tarde, morreu ao despencar de
uma janela lateral do apartamento de Fasano.
Figuras destacadas da vida paulistana, Fasano e Carta eram amigos
de infância. "Eles foram criados praticamente juntos, como
irmãos", conta o empresário Fabrizio Fasano, pai de
Rogério e ex-sócio do pai de Andrea, o jornalista
Luis Carta, morto em 1994. "Somos filhos da italianada preeminente
de São Paulo", escreveu a colunista Barbara Gancia, da Folha
de S. Paulo, que convivia com ambos desde criança. Rogério
é a atual estrela de um clã que, 100 anos atrás,
se transformou numa grife da boa mesa. Estava eufórico desde
a abertura do hotel. "Este é o melhor momento da minha vida",
dizia na véspera. "Só preciso de um galho de arruda
para evitar o mau-olhado." Andrea, 44 anos, nascido em Roma, pertencia
a uma linhagem de jornalistas e editores. Há duas semanas,
ele estivera em Londres para renovar com a editora Condé
Nast os direitos de publicação de Vogue, que
circula no Brasil com uma tiragem declarada de 50.000 exemplares
por mês.
Carol do Valle
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| Rogério
Fasano, no lobby de seu recém-inaugurado hotel: "Eu estava vivendo
o melhor momento da minha vida" |
Horas
antes de tudo acontecer, durante uma reunião na editora,
alguém tocou no assunto dos riscos do cigarro para a saúde.
Andrea Carta, que era fumante, filosofou: "Bobagem, cada pessoa
tem o destino traçado e sua hora marcada. Desse momento não
há como escapar". À noite, ele encontrou-se com Fasano
para tratar de uma edição especial que estava preparando
sobre o hotel. Ainda no lobby, bebeu as primeiras taças de
prosecco. "Na segunda, começou a ficar alterado", diz o jornalista
Nirlando Beirão, que participava da conversa. Carta, em certo
momento, disse a Fasano: "Ah, esse seu hotel... Você conseguiu!
Mas eu te ajudei muito". Normalmente reservado e introspectivo,
Carta foi mudando seu comportamento à medida que a noite
avançava. Segundo amigos, ele tomava remédios para
emagrecer. "Misturar álcool com medicamentos como esses,
que atuam no sistema nervoso central, potencializa os efeitos da
bebida, altera o comportamento e provoca perda de coordenação
motora e senso de equilíbrio", explica o psiquiatra André
Malbergier, especialista no assunto do Hospital das Clínicas
de São Paulo.
"Ele
estava com a auto-estima muito baixa e ficou cada vez mais deprimido
e agressivo", afirma Fasano. A discussão foi interrompida
várias vezes, enquanto Fasano saía do bar para cumprimentar
clientes. Em um desses intervalos, Carta levantou-se ao ver Carolina
Dieckmann e pediu que ela lhe mandasse um e-mail comentando o último
número da revista. Isso ocorreu pouco antes de Fasano se
retirar e Carta ir atrás dele. "Ele entrou no apartamento
ainda mais alterado", diz Fasano. "Passou a falar da falta que sentia
do pai, disse que só acreditava na tristeza e me agredia
verbalmente. Eu gritei: 'Pare com essa maluquice! Fique dormindo
aqui, que eu vou para o hotel'. Ele respondeu: 'Você vai ver
o que é maluquice'." Nesse momento, de acordo com Fasano,
Carta abriu a janela, subiu num pufe e pendurou-se no parapeito,
antes de escorregar e cair. Fasano conta que jogou uma manta para
que Carta se agarrasse nela, mas foi inútil.
Na semana passada, amigos de Carta, que foi casado duas vezes e
tinha dois filhos menores, lembravam-se dele como um homem que alternava
momentos de entusiasmo pela vida e pelo trabalho com explosões
e crises de angústia. "Era uma pessoa entusiasmada, carismática,
cativante e destemida, que corria riscos e tentava às vezes
chegar ao seu limite", afirmou sua irmã Patricia Carta, que
desde sexta-feira ocupa o lugar de Andrea na direção
de Vogue. O inquérito policial para investigar o caso,
que está sendo conduzido sob sigilo e acompanhado por dois
promotores, tem um prazo de trinta dias para ser concluído.
Com
reportagem de Otavio Canecchio
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